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Bairros

Bauruenses criam 'fortalezas' contra pragas

Com redes anti mosquitos, venenos e soluções repelentes, moradores adaptaram suas casas e até suas rotinas na proteção contra insetos

por Ana Beatriz Garcia

31/03/2019 - 07h00

Aceituno Jr.
Fora de casa, Antônio Borba de Siqueira e Maria Gomes Siqueira contam com ajuda do repelente

Passado o verão, época propícia para a alta proliferação dos insetos, muitos moradores de Bauru mantêm as artimanhas criadas nessa época para se livrar dessas visitas indesejadas o ano todo. O cuidado, ainda, é redobrado quando se fala do tão temido Aedes aegypti, transmissor de doenças como dengue, chikungunya e zika. Os escorpiões, responsáveis por mais de 300 picadas só no ano passado, também não ficam de fora da "lista dos barrados" nas casas dos bauruenses. 

Com "banho" de repelente, receitas caseiras, venenos ou uma boa proteção por telas anti mosquitos, moradores de diferentes regiões têm criado verdadeiras "fortalezas" para protegerem a família e a casa da invasão desses insetos que podem levar à morte.

Bairros como Fortunato Rocha Lima, Parque Primavera, Parque Roosevelt, Parque Jaraguá, Parque Santa Edwiges, Jardim Progresso, entre outros da região noroeste da cidade, são os que apresentam maior número de casos de dengue no município que, conforme o JC vem noticiando, passa por uma epidemia da doença.

Já na região do Jardim Redentor, além da preocupação com o mosquitinho da dengue, os moradores convivem com o medo da invasão de escorpiões em suas casas (veja mais na página 7).

SEM ENTRADA

"Se o mosquito da dengue quiser entrar na minha casa, ele vai ter que ser convidado", brinca Antônio Borba de Siqueira, de 74 anos, morador da Vila Independência. O artífice conta que, recentemente, um vizinho pegou dengue e a preocupação com a doença aumentou. "Sempre cuidamos muito para não ter criadouros em casa, mas, para não ter vez para o mosquito, resolvi fazer uma proteção com tela para todas as janelas e portas", comenta.

Além disso, a esposa dele, Maria Gomes Siqueira, de 71 anos, conta que as telas também protegem de outras pragas. "Também colocamos nos ralos, para não entrar nem escorpião nem ratos, mais comuns nessa região. Estamos sempre fazendo a nossa parte dentro de casa para nos prevenir, quando saímos na rua passamos repelente para continuar nos protegendo, mesmo fora de casa", afirma.

REDOBRADO

Quem também tem os quatro cantos de sua casa protegido por telas anti mosquito é a Joana Rosa Tofaneto, de 74 anos, moradora do Jardim Progresso. "Primeiro, coloquei as telas porque minha irmã tinha muito medo de que baratas entrassem em casa, mas, nesse período de surto de dengue, isso nos protege demais. Graças a Deus, não tivemos dengue todos esses anos", afirma.

A aposentada ainda destaca que não se conforma com o descaso em relação aos focos de dengue.

"Minha casa fica entre duas casas onde não mora ninguém. Além disso, aqui em frente, na avenida Venício Gandolfi, da quadra 1 a 3, tem mato alto e lixo acumulado, eu tenho medo de sairem bichos daí, disso ser um criadouro de dengue. Eu já reclamei para a prefeitura, mas não teve resultado. É um absurdo", relata.

Para se proteger, além das telas e dos repelentes, Joana passa uma solução de carrapaticida no quintal e paredes. "Gasto R$ 20,00 por mês com o frasco para diluir em água e passo por todos os cantos da casa para matar qualquer bicho que apareça", finaliza.

Repelente, pra que te quero!

Malavolta Jr.
Aparecida Brito Caleda conta que recorreu a receitas caseiras após ter dengue três vezes

Para se manter longe da dengue, além de ter todos os cuidados necessários com a casa – que não devem ser abandonados em nenhuma hipótese –, receitas caseiras também surgem como opções de prevenção. Moradora do Parque Jaraguá, um dos mais afetados pela atual epidemia de dengue na cidade, Aparecida Brito Caleda, de 58 anos, conta que recorreu a essas receitas caseiras para garantir a proteção para ela e toda a família.

“Eu tive dengue três vezes e, da última vez, em fevereiro deste ano, foi bem mais forte. Eu acho que é a pior coisa que tem, pior que parto e dor de rim. Só melhorei com suco de inhame com laranja, que me levantou da cama”, define a experiência. “Agora, toda receita que eu vejo por aí que promete matar o mosquito eu estou fazendo. E vem tendo resultado. Temos visto que os mosquitos sumiram de casa”, completa.

Pelo chão da casa, Aparecida passa uma solução com álcool e cravo. Já nas portas da casa, ela opta por um recipiente com vinagre de álcool. “Troco todos os dias e vejo os mosquitos mortos ali dentro. Não sei se eles se afogam achando que é água ou se a solução atrai eles, mas o importante é que, dentro da minha casa, eles não vêm. Mesmo assim, eu e todos em casa não deixamos de usar repelente, para não correr o risco novamente”, afirma.

ALÉM DAS TELAS

Do outro lado da cidade, no Mary Dota, Vera Lúcia Gomes Sobral, de 64 anos, relata que além das telas de proteção que usa em todas as janelas, portas e ralos de sua casa, não deixa de fazer algumas soluções para proteger o seu quintal. “Eu costumo deixar os ralos tampados e jogo água sanitária em todos eles. Além disso, também passo soluções com querosene e soluções com creolina por todo o entorno da casa e nas paredes”, comenta.

ORGANIZAÇÃO

Vera também destaca que a organização e a limpeza são seus maiores aliados. “Eu moro perto de uma área grande de mato, se eu não tiver a casa organizada e limpa, não tem como se prevenir. Eu também puxo a orelha dos vizinhos, porque não adianta a gente fazer tudo certinho e as pessoas não cuidarem de suas casas. Cada um tem que fazer a sua parte”, ressalta.

Citronela

Para se manter longe da dengue, além de ter todos os cuidados necessários com a casa - que não devem ser abandonados em nenhuma hipótese -, receitas caseiras também surgem como opções de prevenção. Moradora do Parque Jaraguá, um dos mais afetados pela atual epidemia de dengue na cidade, Aparecida Brito Caleda, de 58 anos, conta que recorreu a essas receitas caseiras para garantir a proteção para ela e toda a família.

Para os clientes

É comum que, em estabelecimentos comerciais, os clientes encontrem um frasco de álcool em gel para higienizar as mãos. Em uma pastelaria no Jardim Estoril, além de oferecer a higienização com álcool gel, o proprietário Maurício Nacamoto, de 41 anos, pensou também na saúde de seus clientes e disponibilizou frascos de repelentes para quem desejar se proteger da dengue e do incômodo com pernilongos. “As pessoas até pensam que estamos fazendo isso porque tivemos algum caso de dengue no estabelecimento, mas não. Nós queremos colaborar com a prevenção, já que estamos em um momento com muitos casos da doença pela cidade”, afirma.

"Gasto mais com veneno do que com mistura"

Com mais de 300 casos de picadas de escorpião registradas em 2018 e relatos do aracnídeo em 23 bairros da cidade, muitas casas também tiveram que ser adaptadas para prevenir a invasão do animal. No Jardim Redentor – um dos pontos mais afetados da cidade com a presença do aracnídeo –, Isabel Cristina Ferraz é categórica ao dizer que encontra escorpiões em sua casa, ou no entorno dela, todos os dias.

“Gasto mais com veneno do que com mistura, na minha casa. Se não for assim, nós não damos conta dos escorpiões. É pelo menos um por dia”, diz. Ela que mora com o esposo, a mãe de 87 anos e a filha de 15, diz que mudou completamente sua rotina nos últimos anos, sobretudo no ano passado. “Minha mãe mora aqui há 30 anos, mas os escorpiões começaram a aparecer nos últimos tempos. Esse último ano foi o pior. Meu marido não vence passar veneno em nossa casa”, conta.

No orçamento, a prevenção contra o aracnídeo pesa, não só com os venenos, mas com as mudanças que tiveram de ser realizadas na casa de Isabel, que fica próxima ao Cemitério do Redentor. “Gastamos de R$ 200 a R$ 300 por mês com veneno. Compramos do mais forte, que precisa, inclusive, de receita de veterinário porque é utilizado em boi. Nós também tivemos que chapiscar o muro e que clarear o chão de taco – que era da mesma cor que os escorpiões –, para que a gente possa identifica-los”, comenta. Mesmo assim, às vezes passa despercebido. Outro dia, minha filha estava limpando o quarto e quando ajoelhou na cama para fechar a janela, encontrou um escorpião na cama. Não foi picada por sorte”, completa.

PREVENÇÃO

Escorpiões não são insetos, e sim artrópodes aracnídeos, o que explica a sua relativa resistência a inseticidas. É fundamental que se evite os três As: abrigo (acúmulo de material onde o escorpião se abriga), alimento (manter sempre limpo a residência evitando principalmente baratas) e acesso (impedir o acesso do aracnídeo à residência).

Eles habitam o planeta há centenas de milhões de anos. No Brasil, existem duas espécies extremamente venenosas, o Tityus serrulatus (escorpião-amarelo) e o Tityus bahiensis (escorpião-marrom). Ambos são comuns na região sudeste e ocorrem em São Paulo. O veneno é neurotóxico, afetando o sistema nervoso e causando muita dor. O quadro clínico do envenenamento pode variar, pois depende de diversos fatores como a espécie do escorpião, a quantidade de veneno inoculado, a idade e a massa corpórea da vítima, sendo crianças e idosos, o grupo mais vulnerável.