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Referência mundial em hanseníase, 'Lauro' tem técnica única em resistência a medicação

Instituto é o único na América Latina a ter o bacilo de Hansen para executar pesquisas

por Ana Beatriz Garcia

07/04/2019 - 07h00

Ana Beatriz Garcia
Instituto Lauro de Souza Lima completa 86 anos como referência mundial em hanseníase

Por trás das memórias históricas que rondam o Instituto Lauro de Souza Lima (ILSL), o cenário atual da instituição apresenta pesquisas de relevância nacional e com técnica única. Além ofertar ensino, atendimentos, diagnósticos e reabilitação, tudo em convênio com o Sistema Único de Saúde (SUS) e com a Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde (Cross).

Localizado no Distrito Industrial Marcus Vinícius Feliz Machado, em Bauru, o Instituto Lauro de Souza Lima (ILSL) é centro de referência para a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo e para o Ministério da Saúde, credenciado também como centro colaborador da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Com seu corpo de experts em hanseníase, o instituto trabalha a hanseníase em todas as suas vertentes e tem desempenhado um papel de destaque como produtor e disseminador do conhecimento para diagnóstico, tratamento, prevenção e controle da doença e suas recorrências e intercorrências.

No Dia Mundial da Saúde, celebrado hoje, o JC nos Bairros adentra no universo das áreas de atuação da instituição que completa 86 anos de história e trabalhos no próximo dia 13.

TRÍADE

Ana Beatriz Garcia
Diretora de pesquisas e ensino, Patrícia Sammarco Rosa, ao lado da pesquisadora científica Ana Carla Pereira Latini

"No Lauro, temos uma tríplice função: a assistência, a pesquisa e o ensino. O nosso forte, hoje, é a pesquisa. Nós somos referência mundial em hanseníase, o mundo nos conhece por isso. Somos referência para a Organização Mundial de Saúde (OMS), para a Organização Panamericana de Saúde (Opas) e para outros institutos. Mas Bauru, pouco nos conhece", afirma o novo diretor, José Ricardo Bombini, à frente do instituto há 6 meses.

Além disso, o ILSL disponibiliza ao Estado de São Paulo e outros Estados do Brasil vários exames laboratoriais complementares, o atendimento clínico ambulatorial e diversas oportunidades de ensino e especialização.

"Na parte de ensino, temos a residência na parte de dermatologia, já que não atendemos somente a hanseníase, mas todas as dermatoses que existem, desde as menos graves até as mais complexas. E é nisso que entra a parte de assistência. Hoje, a parte de assistência ambulatorial é bem forte. Nós não somos um hospital, somos um instituto de pesquisa, mas conseguimos desenvolver um papel importante tanto na pesquisa quanto na assistência", define Bombini.

RESISTÊNCIA

A principal pesquisa em andamento no instituto é o estudo da resistência do bacilo de Hansen às drogas utilizadas no tratamento da doença com uso de técnica única.

"Acontece com qualquer doença infecciosa. Existe uma tendência que o bacilo, em contato com antibióticos, adapte-se e crie uma resistência com mecanismos de escape para não ser atingido por esse medicamento. Fizemos essa pesquisa por 40 anos, mas, hoje, além da prática exclusiva de inoculação do bacilo em camundongos para avaliar o crescimento das bactérias, nós fazemos testes em vitro por biologia molecular. Esses são os carros-chefes do Lauro em pesquisa e prestação de serviço para o Brasil como um todo. Fazemos dois estudos. Por fenótipo, que é como a bactéria do paciente reage em relação à resistência e a parte de genótipo, que analisa quais são as mutações no bacilo do paciente", afirma a diretora de pesquisa e ensino Patrícia Sammarco Rosa.

Devido à capacidade laboratorial instalada, o ILSL foi designado pelo Ministério da Saúde, apoiado pela OMS, para coordenar os testes de resistência a drogas em hanseníase nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, em conjunto com os laboratórios da Fiocruz/RJ (responsável pela região Nordeste) e da Fuam/AM (região Norte). Além disso, assumiu como compromisso, a pedido da OMS, a extensão desses testes para outros países das Américas, bem como a garantia da implementação de um sistema adequado para a coleta, armazenamento e remessa dessas amostras.

"Fizemos pesquisas básicas por muitos anos, estamos, agora, começando a trabalhar com a medicina translacional. Os resultados saem das estimativas do laboratório para voltar ao consultório e mudar a conduta no atendimento ao paciente. Fazendo com que os resultados cheguem ao paciente. Estamos trabalhando isso com a resistência", finaliza.

Além da hanseníase, demais doenças da pele ganham foco

Malavolta Jr.
Uma das principais missões institucionais do Instituto é a capacitação multiprofissional em hanseníase

Conhecido por sua excelência no diagnóstico, tratamento, reabilitação e ensino em hanseníase, o Instituto Lauro de Souza Lima ainda atende, em seu ambulatório, pacientes encaminhados de outras unidades de saúde por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) e da Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde (Cross).

De acordo com o diretor da divisão de dermatologia do Instituto, Wladimir Fiori Bonilha Delanina, mais de 80% dos atendimentos clínicos realizados são relacionados a outras doenças da pele. "A hanseníase corresponde a 13% dos nossos atendimentos clínicos. Atendemos, no ano, 24 mil pacientes, sendo 70% de Bauru e região, 28% do Estado de São Paulo e 2% de outros Estados, como Minas Gerais, Paraná, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul", conta.

Ainda segundo Delanina, a maior parte dos atendimentos é de pacientes com tumores cutâneos. "Depois vêm os eczemas, como psoríase, dermatite de contato e seborreia. Também atendemos bastante casos de acne e úlceras de membros superiores e inferiores", relata o dermatologista, que foi o primeiro estudante a fazer residência no Instituto, em 1977.

RESOLUTIVIDADE

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Wladimir Fiori Bonilha Delanina afirma que mais de 80% dos atendimentos clínicos são de outras doenças da pele

Para Delanina, o diferencial do atendimento dermatológico da instituição, em relação às outras unidades de saúde, é a resolutividade e a humanização. "Os pacientes chegam com a doença e nós curamos ou minimizamos, pois há doenças que não tem cura. Este é o diferencial do atendimento dermatológico realizado com os nossos profissionais. Além do tratamento humanizado que os pacientes recebem no nosso ambulatório. Diagnóstico qualquer lugar faz", afirma o diretor. "Isso nos dá credibilidade em relação à população. É comum que muitos pacientes queiram ser atendidos aqui não só porque é gratuito, mas pela resolutividade no atendimento", completa.

ENSINO

Para o atendimento clínico, o Lauro conta com quatro residentes por ano, o que corrobora uma das principais missões institucionais que é a capacitação multiprofissional em hanseníase, disponibilizada também por meio de cursos e treinamentos, prioritariamente, aos profissionais atuantes nos diversos níveis de complexidade do Sistema Público de Saúde do Estado de São Paulo, oferecendo regularmente cursos de hansenologia, prevenção de incapacidades e reabilitação, educação em saúde utilizando metodologia ativa, e curso de coleta e leitura de baciloscopia.

"O Instituto está credenciado junto à Sociedade Brasileira de Dermatologia, albergando programas de Residência Médica e especialização em Dermatologia", afirma Delanina. Além disso, anualmente, é oferecida a Pós-graduação lato-senso em Neurofisiologia Clínica, cujo programa inclui organização anatômica e funcional do córtex cerebral, anatomia e fisiologia do ciclo vigília-sono, noções de eletroneuromiografia (ENMG), potenciais evocados, eletroencefalograma e Polissono. O Instituto também participa do Programa de Aprimoramento Profissional nas áreas biológicas e humanas junto a Secretaria de Estado da Saúde e terá curso de Especialização Multiprofissional em Assistência Dermatológica Especializada. Ainda recebe anualmente 1.700 profissionais, em média, para treinamento nestas áreas e atende a demanda dos demais Estados, em especial os que apresentam endemicamente a hanseníase.

Instituto promove reabilitação personalizada a pacientes

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Daniel Rocco Kirchner e os pós-graduandos Estevão Garcia Porello Silva e Luiz Henrique Granja Miller na sala onde se realiza o exame de eletroneuromiografia

Outra importante área de atuação do Instituto Lauro de Souza Lima (ILSL) fica por conta reabilitação em hanseníase, realizada em convênio com o Sistema Único de Saúde (SUS). Com setores especializados, os profissionais garantem atendimento personalizado, oferecendo desde calçados novos para os pacientes com a perda de sensibilidade nos pés até o acompanhamento do sistema nervoso periférico, responsável pelos movimentos que podem ser afetados por conta da hanseníase, entre outros fatores.

"A equipe de reabilitação tem medidas para compensar a perda de uma função ou limitação funcional com ajuda técnica, como órteses, próteses e calçados ortopédicos. Além de atividades integradas e que previnem incapacidades", comenta Margô Ribeiro Pupo, diretora técnica de saúde em reabilitação. "Esse processo é desenvolvido por uma equipe multidisciplinar com objetivo comum de restabelecer ao paciente o máximo de seu potencial físico, psíquico, social e laboral", completa.

SETORES

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Margô Ribeiro Pupo fala sobre a área de reabilitação do Instituto

O setor de Terapia Ocupacional da Divisão de Reabilitação do Lauro, por exemplo, tem como principal função a prevenção de incapacidades e a reabilitação física. "Uma de nossas funções é realizar a avaliação sensitivo motora, que dita quais são os serviços necessários e para qual programa de reabilitação o paciente será encaminhado. Além disso, confeccionamos materiais personalizados de auxílio de desempenho nas atividades de vida diária", afirma a terapeuta ocupacional Tatiani Marques Rossini.

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Tatiani Marques Rossini mostra órteses do setor de Terapia Ocupacional

O trabalho de reabilitação também conta com tratamento fisioterápico. "Atuamos também para promover, quando necessário, o fortalecimento muscular, recuperar ou manter a mobilidade articular, evitar deformidades, promover o bem-estar geral do paciente e a melhora da qualidade de vida", afirma a chefe da fisioterapia, Ana Paula do Prado.

Já a Oficina Ortopédica da Divisão de Reabilitação do ILSL atua com exclusividade na produção de palmilhas e calçados ortopédicos com função de prevenção e adaptação. O serviço entrega anualmente cerca de 1.200 órteses aos pacientes atendidos nos ambulatórios do Instituto.

"Por conta da falta de sensibilidades, os calçados normais podem causar edemas nos pés sem que o paciente perceba. Nós tiramos o molde e confeccionamos o calçado de acordo com o necessário", afirma o chefe da oficina, Carlos Roberto da Silva.

ACOMPANHAMENTO

Outra importante vertente da reabilitação conta com a eletroneuromiografia, um exame neurofisiológico, utilizado no diagnóstico e prognóstico de lesões no sistema nervoso periférico. "A principal deficiência de um paciente de hanseníase avançado é a lesão do nervo que gera a incapacidade. Aqui, fazemos o acompanhamento do sistema nervoso, através deste exame, além do diagnóstico", diz o médico neurofisiologista Daniel Rocco Kirchner. O médico ainda pontua que este é um exame que é feito em poucos lugares no Estado. "Aqui é um dos únicos lugares da região em que é feito para a rede pública. Então, temos alta demanda não só dos pacientes de Bauru, mas da região. E não só por conta da hanseníase, mas outras enfermidades da ortopedia ou suspeita de polineuropatia diabética, já que o exame avalia a situação do sistema nervoso periférico."

Aos 86 anos, Instituto destaca história e conhecimento sobre a hanseníase

Malavolta Jr.
Museu da hanseníase localizado no Instituto Lauro de Souza Lima

Considerada uma das doenças mais antigas da humanidade, com registros históricos que datam do ano de 1350 a.C., a hanseníase é uma doença infectocontagiosa e ainda endêmica em vários países do mundo. O Brasil, por exemplo, registra 26 mil novos casos da doença por ano. Já a Índia, 126 mil casos ao ano, e a Indonésia, 15 mil (veja mais sobre a hanseníase no quadro).

"Lugares com essa expertise no assunto, como o Instituto Lauro de Souza Lima, são fundamentais para o País. Como no nosso Estado a doença é tecnicamente mais controlada, as pessoas se questionam se é necessário que a instituição permaneça trabalhando com a hanseníase, como se ela não mais existisse, mas nós estamos em um federação com mais de 20 mil casos da doença por ano. Além do que, essa doença causa deformidades e incapacidades. Por isso, somos fundamentais e importantes", afirma Andrea de Faria Fernandes Belone. A pesquisadora científica entrou no Instituto como estagiária, há 25 anos, e permanece até hoje na instituição.

HISTÓRIA

No contexto de memória, o Lauro de Souza Lima surgiu como iniciativa dos municípios da região noroeste, que formaram a Comissão Pró-Leprosos, ao angariar fundos na compra de uma fazendo de 400 alqueires para construção do antigo asilo-colônia Aimorés. Nos anos 1930, a ideia evoluiu quando o Estado de São Paulo criou o "Modelo Paulista" de isolamento na profilaxia de lepra.

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Andrea de Faria Fernandes Belone fala sobre a importância dos trabalhos da instituição para o País

Vale ressaltar a iniciativa do médico Diltor Vladimir Opromolla, leprologista, que idealizou e iniciou a preservação da antiga colônia Aimorés, em Bauru. Ele solicitou o processo de tombamento junto ao Condephaat, em 1991, e, com auxílio de algumas organizações não-governamentais e de parcerias com universidades, conseguiu restaurar o prédio do Cine Teatro, já quase destruído pelo tempo. "Este local passou a salvaguardar os demais acervos textuais e tridimensionais relacionados ao período de isolamento compulsório. Em 2009, houve uma reestruturação administrativa local que impulsionou a organização dos acervos e conseguiu, junto ao Condephaat, ampliar a área museológica do ILSL no sentido de preservar a antiga cidade da colônia Aimorés. Atualmente, a unidade Museológica do Instituto Lauro de Souza Lima fomenta a pesquisa, salvaguarda e divulga o processo histórico e científico da Hanseníase e do Patrimônio Material e Imaterial do Asilo Colônia Aimorés", afirma a diretora de ensino e pesquisa Patrícia Sammarco Rosa.

O Instituto inclui um sítio arquitetônico tombado pelo Condephaat formado por ruas, praças, coreto, antiga igreja, moradias tipo carvilles e o museu. O prédio do Cine Teatro, construído nos anos de 1933, para realização de eventos culturais, sociais e de lazer. Hoje, é denominado "Museu da hanseníase" e abriga um grande acervo histórico bi e tridimensional. A antiga igreja está sendo utilizada como Centro de Eventos.

COMEMORAÇÃO

Mesmo sendo no dia 13 de abril a comemoração dos 86 anos do Instituto, as comemorações internas se darão no dia 15, com a realização de palestras e a exibição de um filme sobre a história do Instituto. Além disso, haverá uma moção de aplausos realizada no interior da capela, localizada no Instituto. O museu do Lauro ficará aberto de 15 a 19, das 8h às 12h, para visitas monitoradas.