Bauru e grande região

Bairros

Depredação na região da Getúlio Vargas expõe desagregação social

Após vandalismo na Praça da Copaíba, cabeceira do Aeroclube foi o alvo da vez

por Marcele Tonelli

07/05/2019 - 07h00

Redes Sociais/Reprodução
Bancos depredados na cabeceira do Aeroclube de Bauru: convém lembrar que destruir patrimônio público é crime

WhatsApp/Reprodução
Trabalho de recuperação de bancos e mesas na calçada após vandalismo no final de semana na região da Getúlio Vargas

Por trás da depredação que culminou com a quebra de bancos e mesas na cabeceira do Aeroclube, no último final semana, em Bauru, há mais do que apenas destruição do patrimônio ou mesmo represália pelo maior patrulhamento na Praça da Copaíba. A violência em forma de danos coletivos expõe um processo de desagregação social. Fenômeno este indicativo, segundo especialista, de que os responsáveis não se sentem pertencidos ao espaço público e, por isso, muitas vezes, não dão a mínima importância para a coletividade.

Na madrugada do último domingo (5), quatro bancos de concreto foram quebrados na calçada da rua Ignácio Alexandre Nasralla, na cabeceira do Aeroclube, localizado nas imediações da Getúlio Vargas. Funcionários da Secretaria de Obras estiveram no local ontem a pedido da Secretaria de Meio Ambiente (Semma), responsável pelo espaço, e consertaram os equipamentos. A prefeitura registrou boletim de ocorrência, nessa segunda-feira (6), por dano ao patrimônio.

O assunto gerou até debate na Câmara Municipal, que chamou audiência pública sobre o tema.

Samantha Ciuffa
Bancos e mesas foram consertados e chumbados em estrutura para evitar mais problemas

O vandalismo nas imediações tem um contexto. Conforme mostrou reportagem do JC do último dia  3, a Praça da Copaíba virou ponto de "rolezinhos" e passou a sofrer com depredações. Diante disso, a PM intensificou o patrulhamento na praça no final de semana. Apesar do esforço, os vândalos parecem ter mudado de endereço.

REPRESÁLIA?

O titular da Semma, Sidnei Rodrigues, e a Polícia Militar não descartam os atos deste final de semana como uma forma de represália à operação que foi feita na Copaíba. Durante a presença em massa da PM por lá, o local não registrou o movimento de antes.

"É triste ter que redirecionar equipes da Obras, que estariam melhorando a acessibilidade, construindo rampas, para consertar um espaço de lazer da população. É dever do cidadão cuidar do que é de todos", comenta o secretário. "Sinto que foi uma forma errada de pedir por mais espaços abertos e que sejam destinados aos que gostam de se encontrar e escutar som alto. Só que, com vandalismo, não há negócio. Eles deveriam organizar um grupo e procurar a prefeitura para conversar. Eu mesmo me coloco à disposição", completa Rodrigues.

Em entrevista ao JC na semana passada, o presidente do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) Centro-Sul, Adib Ayub Filho, falou sobre a importância das opções de lazer para os jovens da promoção de ações de cidadania. Na ocasião, ele disse que o conselho deve propor ações junto ao poder público.

INDIVIDUALISTA

Professor de Sociologia Aplicada, o filósofo Fausi dos Santos aponta a desagregação social e a falta de civismo como motivos que levam jovens a praticar atos como os registrados nas imediações da Getúlio nos últimos dias.

Aceituno Jr.
"O sujeito só age para o bem quando ele também tem um valor agregado com aquilo que está em jogo", Fausi dos Santos, filósofo

"Os interesses imediatos e particulares se sobressaem ao coletivo. A educação não consegue formar o caráter social do brasileiro. Há um pensamento de que o que é público não é meu. Estamos ligados nas nossas necessidades individuais apenas. O cidadão virou um produto social individualista, típico da sociedade de consumo, que não se importa com o que é coletivo", avalia.

Ainda de acordo com Fausi, o conhecimento de saber o que é certo ou errado apenas não é suficiente para fazer com que o indivíduo haja corretamente. "O sujeito só age para o bem quando ele também tem um valor agregado com aquilo que está em jogo, quando possui alguma afetividade. Por isso, quando sai de casa, joga lixo no chão e depreda a rua e o público, porque não se sente pertencente ao espaço", complementa.

PUNIÇÃO

Destruir, inutilizar ou deteriorar patrimônio da União, do Estado ou do município é crime previsto pelo artigo 163 do Código Penal, passível de detenção, que varia de 6 meses a 3 anos e multa.

O BO sobre o fato foi registrado como dano ao patrimônio e será encaminhado ao Setor de Investigações Gerais (SIG). "Queremos que os autores respondam pelo crime e paguem pelo que fizeram", frisa Rodrigues. Felizmente, os encostos dos bancos não quebraram o que facilitou o conserto, finalizado nessa segunda-feira (6).

Comandante da 1.ª Companhia da PM, o capitão Bruno Mandaliti diz que as chamadas de perturbação do sossego nas imediações da Getúlio diminuíram no último final de semana, apesar do ocorrido. "Infelizmente, não temos como estar em cada esquina e este outro ato ocorreu. Se alguém tivesse denunciado, teríamos grande chance de conseguir flagrar", cita. "Não dá para descartar represália. Todo e qualquer ato de vandalismo vem de protesto e nós ficamos tristes, porque é o povo quem paga a conta", acrescenta.

O espaço de lazer na cabeceira do Aeroclube foi idealizado por Jacob Habib, educador de cidadania e morador de Bauru, que morreu no mês passado.

Audiência pública discutirá o tema

Por Thiago Navarro

Na sessão dessa segunda-feira (6) da Câmara, o vereador Markinho Souza (PP) anunciou que vai chamar uma audiência pública na próxima quarta-feira, dia 15, às 15h, para discutir o problema do vandalismo em espaços públicos. "A necessidade de uma política pública voltada aos jovens deve ser pensada, com as secretarias de Cultura e de Bem-Estar Social, pois, nesta última, temos a presença dos conselhos tutelares. Faltam espaços de lazer para os jovens na periferia, que acabam vindo buscar isso em outras regiões, além do aspecto educacional para entender que o patrimônio é de toda a sociedade", frisou.

O vereador Roger Barude (Cidadania) mostrou fotos da destruição de bancos na calçada do Aeroclube e destacou que o ato foi uma represália de alguns jovens ao fato de a PM ter aumentado o patrulhamento na Praça da Copaíba. Coronel Meira (PSB) pediu mais rigor a quem comete esses atos.

Já Miltinho Sardin (PTB) citou que atitudes como esta são "coisas de bandido" e pediu punição, assim como Yasmim Nascimento (PSC). Ela lembrou que, enquanto alguns destroem os bens do município, outras pessoas procuram ajudar e promovem ações solidárias. O presidente da Câmara, José Roberto Segalla (DEM), afirmou que a prefeitura deveria usar mais a atividade delegada para ações da PM em áreas com risco de vandalismo e depredações.

A vitória de... ninguém!

"A maior diferença entre o Brasil e os países desenvolvidos é sobre como o povo trata o bem público. Lá, eles entendem que o que é público é de todos. Aqui, as pessoas entendem que o que é público não é de ninguém”.

Sempre que vejo situações como a da Praça Copaíba e a da cabeceira do Aeroclube, lembro logo desta resposta que me foi dada por uma pesquisadora bastante viajada e conhecida no Exterior. E as reflexões, nesta reportagem, do professor e filósofo Fausi dos Santos sobre o individualismo social reforçam essa triste realidade.

É inegável que há, em Bauru, imensas lacunas para o lazer, principalmente aos jovens da periferia. O poder público tem o dever de repensar suas políticas para tal público. E isso precisa ser cobrado. Contudo, a depredação do que é de todos não pode ser manifestação do descontentamento de ninguém. Do contrário, perde o usuário do que foi depredado, perde o próprio indivíduo que depreda, perde a sociedade, perdem todos. E quem ganha? Ninguém!

VITOR OSHIRO - Editor Local - JC