Bauru e grande região

Bairros

Pobreza volta a nível crítico e famílias passam a sobreviver com quase nada

Com aumento da miséria, constatado por estudos do IBGE, pessoas de baixa renda sentem impactos e buscam auxílio de voluntários

por Ana Beatriz Garcia

12/05/2019 - 07h00

Malavolta Jr.
José Carlos Augusto Fernandes fala sobre os atendimentos realizados pelo Cras

Samantha Ciuffa
Luiza Urbano Soares guarda alimentos que complementam suas compras do mês

Arroz, feijão, óleo, açúcar, macarrão e sardinha enlatada, foram os itens que chegaram para a abastecer o armário da família de Luiza Urbano Soares, de 69 anos, na última semana. A aposentada mora no Jardim Vitória com a filha de 30 anos e dois netos, um de 10 e outro de 12 anos. A família se mantém com um salário mínimo da aposentadoria de Luiza, já que a filha está desempregada há cerca de dois anos. “Ela está procurando trabalho, mas está cada vez mais difícil de encontrar. Agora, ela ainda está grávida do sexto filho, então vai esperar para poder voltar a procurar”, afirma.

A recessão que atingiu o Brasil nos últimos anos impactou não apenas a casa de Luíza, mas a de 54,8 milhões de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza no Brasil, com menos de R$406,00 por mês (leia mais na página 7). Isso de acordo com dados da mais recente Síntese de Indicadores Sociais (SIS) divulgada pelo IBGE, em dezembro de 2018, que aponta um aumento da pobreza entre 2016 e 2017. No entanto, em Bauru, de acordo com informações da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes), houve queda no número de famílias em situação de vulnerabilidade (leia mais abaixo).

Na prática, Luiza destaca que a situação já era complicada para a família quando, na casa dela, moravam mais três netos. O pai os levou para morar em São Paulo e ficaram outros dois filhos. “Mesmo com menos pessoas em casa, não ficou tão mais fácil. Assim que recebo minha aposentadoria, faço uma comprinha no mercado, mas as coisas estão cada vez mais caras”, diz.

DOAÇÕES

Por isso, para completar o espaço na despensa, Luiza recebeu a doação de um grupo de voluntários (veja mais na página 6), na última terça-feira (7), os itens citados no começo da reportagem. “Eu preciso para complementar aquilo que eu compro e levar até o final do mês sem passar necessidade”, afirma.

Maria Messias Rodrigues, de 44 anos, também estava nesta e em todas as entrega dos voluntários no bairro onde mora há 2 anos. Depois de perder o emprego de cozinheira, há seis meses, ela e sua família passaram a contar, ainda mais, com essas doações de alimentos. “O meu marido ainda está trabalhando como marmorista e a gente tem o salário dele para ajudar em casa. Moro com ele e dois netos e, agora, uma filha minha veio com a filha dela morar na minha casa também. Então, estamos em três adultos e três crianças”, relata. “Eu conto muito com essa ajuda de alimentos para não faltar em casa. Sempre que eles vêm, eu venho para pegar as doações”, finaliza.

Fotos: Samantha Ciuffa
Luiza Urbano Soares fala sobre a importância das doações de alimentos para sua casa

Samantha Ciuffa
Desempregada há seis meses, a cozinheira Maria Messias Rodrigues conta como está a rotina de sua casa

Cras registra diminuição de cadastros no primeiro quadrimestre de 2019

Arroz, feijão, óleo, açúcar, macarrão e sardinha enlatada foram os itens que chegaram para a abastecer o armário da família de Luiza Urbano Soares, 69 anos, na última semana. A aposentada mora no Jardim Vitória com a filha de 30 anos e dois netos, um de 10 e outro de 12 anos. A família se mantém com um salário mínimo da aposentadoria de Luiza, já que a filha está desempregada há cerca de dois anos. "Ela está procurando trabalho, mas está cada vez mais difícil de encontrar. Agora, ela ainda está grávida do sexto filho, então vai esperar para poder voltar a procurar", afirma.

A recessão que atingiu o Brasil nos últimos anos impactou não apenas a casa de Luíza, mas a de 54,8 milhões de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza no Brasil, com menos de R$ 406,00 por mês (leia mais na página 7). Isso de acordo com dados da mais recente Síntese de Indicadores Sociais (SIS) divulgada pelo IBGE, em dezembro de 2018, que aponta um aumento da pobreza entre 2016 e 2017. No entanto, em Bauru, de acordo com informações da Secretaria do Bem-Estar Social (Sebes), houve queda no número de famílias em situação de vulnerabilidade (leia mais abaixo).

Na prática, Luiza destaca que a situação já era complicada para a família quando, na casa dela, moravam mais três netos. O pai os levou para morar em São Paulo e ficaram outros dois filhos. "Mesmo com menos pessoas em casa, não ficou tão mais fácil. Assim que recebo minha aposentadoria, faço uma comprinha no mercado, mas as coisas estão cada vez mais caras", diz.

DOAÇÕES

Por isso, para completar o espaço na despensa, Luiza recebeu a doação de um grupo de voluntários (veja mais na página 6), na última terça-feira (7), os itens citados no começo da reportagem. "Eu preciso para complementar aquilo que eu compro e levar até o final do mês sem passar necessidade", afirma.

Maria Messias Rodrigues, 44 anos, também estava nesta e em todas as entrega dos voluntários no bairro onde mora há 2 anos. Depois de perder o emprego de cozinheira, há seis meses, ela e sua família passaram a contar, ainda mais, com essas doações de alimentos. "O meu marido ainda está trabalhando como marmorista e a gente tem o salário dele para ajudar em casa. Moro com ele e dois netos e, agora, uma filha minha veio com a filha dela morar na minha casa também. Então, estamos em três adultos e três crianças", relata. "Eu conto muito com essa ajuda de alimentos para não faltar em casa. Sempre que eles vêm, eu venho para pegar as doações", finaliza.

Voluntários trabalham para amenizar distâncias sociais

Samantha Ciuffa
Rose Lopes fala sobre o aumento da demanda dos serviços da Casa da Sopa

Com trabalho voluntário, eles se dedicam - noite e dia - para auxiliar, como for possível, famílias que se encontram na linha ou abaixo da linha da pobreza, em Bauru. Nos últimos anos, principalmente do ano passado até agora, o sentimento entre eles é de que a demanda está cada vez maior e as doações, por mais que ainda frequentes, não cresceram da mesma maneira.

"Nós tivemos um aumento na demanda de mais de 100%, nos últimos anos, e tivemos, inclusive, que limitar o número de atendimentos, coisa que nunca precisamos fazer, porque sempre atendemos a demanda espontânea", afirma Rose Lopes, coordenadora da Casa da Sopa, da Vila Dutra, que há 23 anos é uma das entidades que ajuda comunidade bauruenses com doações diversas e o preparo de sopa, às quintas-feiras.

Em 2018, foram cadastradas 160 pessoas (100 na Vila Dutra, 30 no Parque Santa Edwiges e 30 no Núcleo Habitacional Fortunato Rocha Lima), neste ano, o cadastro saltou para 300 atendimentos sendo 200 na Vila Dutra e 100 na Santa Edwiges. "Nós tivemos que parar os atendimentos no 'Fortunato' por conta da nossa demanda maior. Mas outras entidades passaram a ajudar aquela comunidade", afirma.

MIGRAÇÃO

Quem também sentiu o crescimento da população necessitada de itens básicos como arroz e leite é a coordenadora do Esquadrão do Bem, Maria Inês Faneco. "Aumentou muito a procura. Antes, nós chegávamos na favela e tinha uma fila de pessoas. Hoje, a fila é três vezes maior. Além disso, nós atendíamos cinco comunidades, hoje, são nove e, as que tinham poucas famílias, estão cada vez maiores", conta.

Além disso, Faneco conta uma migração que se destacou nesses últimos tempos. "Muitas famílias estavam morando em prédios do 'Minha Casa, Minha Vida' e, por falta de emprego e condições de pagar água, luz e alimento, retornaram para as favelas onde moravam", salienta.

DOAÇÕES

De acordo com ela, a situação se intensificou nessas comunidades nos últimos anos e além dos pedidos aumentarem, as doações também sofreram variação. "As pessoas que doavam fardos de arroz por mês, agora estão doando dois pacotes. As doações não pararam e isso é ótimo, mas sentimos que diminuíram e isso mostra que está difícil para todos", comenta.

Na Casa da Sopa não foi diferente. Segundo Rose Lopes, houve queda também no voluntariado. "As doações foram diminuindo e alguns voluntários também precisaram se ausentar. Alguns até para trabalhar mais e complementar a renda de sua própria casa", conta.

NECESSIDADES

Itens de cesta básica, remédios, fraldas para crianças e idosos, dentadura, consulta médica. A lista de pedidos recebidos pelas entidades voluntárias é longa. "Não são todas as famílias que vêm toda a quinta-feira para a sopa, tem alguns que vêm só buscar a cesta básica, outros vem buscar leite, legumes e pães e, em alguns casos, a gente leva na casa das pessoas também. Até porque, atendemos alguns acamados e algumas famílias que estão trabalhando durante todo o dia e nós levamos para eles à noite", afirma Rose Lopes. "Nós não conseguimos dar a cesta básica fechada para casa família, então abrimos e damos, pelo menos, dois itens para cada um na fila, pra que ninguém fique sem nada", finaliza Faneco.

Mais 2 mi passaram para baixo da linha de pobreza no Brasil, diz pesquisa 

Eder Azevedo/JC Imagens
Rose Lopes explica que não são todas as famílias que buscam a sopa às quintas: 'Tem alguns que vêm só buscar a cesta básica'

Samantha Ciuffa
Maria Inês Faneco fala sobre a percepção do Esquadrão do Bem em relação ao empobrecimento da população

Samantha Ciuffa
Esquadrão do Bem fez entrega de alimentos no Jardim Vitória, na última terça-feira

Fotos: Samantha Ciuffa
Aumentou o número de pessoas em busca de alimento

Reprodução
Desemprego avançou para 12,5% em 2017

Reprodução
Síntese de Indicadores Sociais 2018 faz análises a partir dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios

Mesmo com o fim da recessão, a pobreza continuou crescendo no Brasil. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que de 2016 para 2017, 2 milhões de pessoas passaram para baixo da linha de pobreza definida pelo Banco Mundial, que considera um rendimento domiciliar de até US$ 5,5 por dia ou R$ 406,00 por mês.

Conforme a mais recente Síntese de Indicadores Sociais (SIS), pesquisa divulgada em dezembro de 2018, 54,8 milhões de brasileiros já estavam abaixo dessa faixa. Em números absolutos, esse contingente variou de 52,8 milhões para 54,8 milhões de pessoas no período, o equivalente a 25,7% da população em 2016 que subiu para 26,5%, em 2017.

O instituto mostra que seria necessário um investimento adicional de cerca de R$ 10,2 bilhões, todo mês, para tirar os brasileiros dessa condição, ou R$ 187 mensais por pessoa. O mesmo estudo aponta aumento de desempregados em um período de três anos, dentro do período analisado pela SIS.

“Nas linhas de pesquisa que nós utilizamos, percebemos esse aumento na população abaixo da linha de pobreza. No Brasil não existe uma linha oficial de pobreza, podemos classificar também entre classe D e E pois são várias as linhas para monitoramento. Essa, utilizada pelo Banco Mundial, é uma delas e é a que foi adotada pela publicação”, afirma o técnico analista do IBGE, Pedro Rocha de Moraes.

MAIS INTENSO

Os números do IBGE mostram, ainda, que a pobreza no País ficou mais intensa. Em 2016, a renda mensal média dos pobres no Brasil era R$ 183 inferior ao patamar mínimo que define a linha de pobreza. No ano passado, a distância ficou maior, em R$ 187 – e é este valor, multiplicado pelo número de pobres, que resulta no esforço necessário de R$ 10,2 bilhões por mês para erradicar a pobreza.

“A precarização no mercado de trabalho, o aumento no desemprego, a redução de programas sociais que eram parte da renda são fatores que podem ter contribuído para este resultado, mas não podemos apontar um fator específico para esse cenário. Seriam necessários mais estudos específicos”, diz o analista.

RETROCESSO

Em entrevista ao Globo Economia em dezembro de 2018, Francisco Menezes, economista do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e analista de Políticas e Programas da ActionAid disse que o crescimento da pobreza ocorreu via retrocesso econômico das famílias. “Houve uma migração daqueles que estavam acima da linha da pobreza para baixo dela, sobretudo causada pelo desemprego. E outros tantos na pobreza migraram para a condição extrema. São pessoas que, do dia para a noite, viram sua renda serem reduzidas a 0”, analisou. Ele ainda analisou a atuação do Bolsa Família, principal programa federal de combate à pobreza. “Para além do Bolsa Família, precisamos de um projeto de país com políticas que emancipem de forma duradoura as pessoas dessa condição. Seja pela educação, por condições dignas de emprego e através de uma reforma tributária justa. Isso não pode ser postergado”, completou Menezes.

Estas são algumas informações da Síntese de Indicadores Sociais 2018, que analisou o mercado de trabalho, aspectos educacionais e a distribuição de renda da população brasileira, a partir dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios - PNAD contínua do IBGE e de outras fontes.

IBGE/Divulgação
Pedro Rocha de Moraes, técnico analista do IBGE, afirma que não dá para apontar um fator específico para o atual cenário

Número de desempregados cresceu 6,2 mi em três anos

Mesmo com o fim da recessão, a pobreza continuou crescendo no Brasil. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que de 2016 para 2017, 2 milhões de pessoas passaram para baixo da linha de pobreza definida pelo Banco Mundial, que considera um rendimento domiciliar de até US$ 5,5 por dia ou R$ 406,00 por mês.

Conforme a mais recente Síntese de Indicadores Sociais (SIS), pesquisa divulgada em dezembro de 2018, 54,8 milhões de brasileiros já estavam abaixo dessa faixa. Em números absolutos, esse contingente variou de 52,8 milhões para 54,8 milhões de pessoas no período, o equivalente a 25,7% da população em 2016 que subiu para 26,5%, em 2017.

O instituto mostra que seria necessário um investimento adicional de cerca de R$ 10,2 bilhões, todo mês, para tirar os brasileiros dessa condição, ou R$ 187 mensais por pessoa. O mesmo estudo aponta aumento de desempregados em um período de três anos, dentro do período analisado pela SIS.

"Nas linhas de pesquisa que nós utilizamos, percebemos esse aumento na população abaixo da linha de pobreza. No Brasil não existe uma linha oficial de pobreza, podemos classificar também entre classe D e E pois são várias as linhas para monitoramento. Essa, utilizada pelo Banco Mundial, é uma delas e é a que foi adotada pela publicação", afirma o técnico analista do IBGE, Pedro Rocha de Moraes.

MAIS INTENSO

Os números do IBGE mostram, ainda, que a pobreza no País ficou mais intensa. Em 2016, a renda mensal média dos pobres no Brasil era R$ 183 inferior ao patamar mínimo que define a linha de pobreza. No ano passado, a distância ficou maior, em R$ 187 - e é este valor, multiplicado pelo número de pobres, que resulta no esforço necessário de R$ 10,2 bilhões por mês para erradicar a pobreza.

"A precarização no mercado de trabalho, o aumento no desemprego, a redução de programas sociais que eram parte da renda são fatores que podem ter contribuído para este resultado, mas não podemos apontar um fator específico para esse cenário. Seriam necessários mais estudos específicos", diz o analista.

RETROCESSO

Em entrevista ao Globo Economia em dezembro de 2018, Francisco Menezes, economista do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e analista de Políticas e Programas da ActionAid disse que o crescimento da pobreza ocorreu via retrocesso econômico das famílias. "Houve uma migração daqueles que estavam acima da linha da pobreza para baixo dela, sobretudo causada pelo desemprego. E outros tantos na pobreza migraram para a condição extrema. São pessoas que, do dia para a noite, viram sua renda serem reduzidas a 0", analisou. Ele ainda analisou a atuação do Bolsa Família, principal programa federal de combate à pobreza. "Para além do Bolsa Família, precisamos de um projeto de país com políticas que emancipem de forma duradoura as pessoas dessa condição. Seja pela educação, por condições dignas de emprego e através de uma reforma tributária justa. Isso não pode ser postergado", completou Menezes.

Estas são algumas informações da Síntese de Indicadores Sociais 2018, que analisou o mercado de trabalho, aspectos educacionais e a distribuição de renda da população brasileira, a partir dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios - PNAD contínua do IBGE e de outras fontes.