Bauru e grande região

Bairros

Um pai, quatro crianças e uma esperança de moradia melhor

Família que mora no Assentamento Canaã ganhará casa com tijolos ecológicos por meio do projeto 'Construindo Dignidade'

por Ana Beatriz Garcia

11/06/2019 - 07h00

Samantha Ciuffa
Aparecido dos Santos com os filhos Bryan Gabriel dos Santos, Brad Anthonny dos Santos, Cindy Gabrielly dos Santos e Cristiny Couto dos Santos; todo dia, crianças deixam mensagens aos pais

A família de Aparecido dos Santos, de 42 anos, teve de se reconstruir no último ano. Pouco mais de nove meses atrás, o então lavrador que morava em Canitar (123 quilômetros de Bauru) ficou desempregado, foi deixado pela esposa e mudou-se com seus quatro filhos para Bauru. Sem condições de pagar aluguel, passou a morar em um dos barracos do Assentamento Nova Canaã, próximo à Unesp e que passará por reassentamento ainda neste mês. Um projeto, inclusive, acende uma nova esperança de moradia melhor para a família.

História comum em milhares de lares com mães solos, Aparecido também enfrenta dificuldades para se recolocar no mercado de trabalho, já que o filho caçula ainda não frequentava a escola.

A atual casa da família é um barraco de madeira, de apenas dois cômodos, que não possui água encanada. Utilizam um banheiro improvisado fora da casa e esquentam água em uma espécie de fogão a lenha para tomarem banho.

"Quando a gente chegou, o barraco já estava montado. Eu só reforcei a parte do quarto para não entrar água de chuva. Aos poucos, a gente foi dando um jeito. Fui fazendo uns bicos quando conseguia", comenta Aparecido.

Ao lado dos filhos Cristiny Couto dos Santos, de 10 anos, Cindy Gabrielly Couto dos Santos, de 8 anos, Bryan Gabriel dos Santos, de 7 anos e Brad Anthonny dos Santos, de 5 anos, o pai garante que, mesmo na carestia, o que não falta em sua casa é amor.

"Todo dia, antes de ir pra escola, as meninas escrevem uma mensagem carinhosa na lousinha que elas ganharam. A gente já teve semanas de comer só arroz todo dia e eles nunca reclamaram de nada. Eles me ajudam, me dão força e a gente se ama muito", diz.

PROJETO

E, no meio desse amor, também brotou a esperança de uma moradia melhor. Um grupo de voluntários, que já assistia o assentamento, conheceu a família e ajudará a construir uma casa de 29 metros quadrados com tijolos ecológicos, de forma mais segura e habitável.

Luciana Cardoso Alves Serafim, de 26 anos, que é uma das voluntárias e idealizadora do projeto piloto "Construindo Dignidade" conta que o assentamento em que estão será desapropriado até o dia 18 de junho. "Eles vão ter outro terreno para a locação de algumas das famílias deste assentamento, sendo uma delas a família do seo Aparecido", conta.

"Pretendemos ajudar o seo Aparecido a construir sua própria casa de forma a ensinar também um novo ofício para ele. Os tijolos ecológicos são feitos em uma máquina que já conseguimos emprestar. Ela produz cerca de 800 tijolos por dia e eles são encaixáveis. Em pouco menos de uma semana, essa casinha já estará pronta, até porque terá três cômodos: quarto, cozinha e banheiro", explica Luciana.

A expectativa dos voluntários é conseguir construir a nova casa em tempo hábil para que a família tenha para onde se mudar. "Em um primeiro momento, ele e alguns voluntários vão fazer os tijolos em um abrigo provisório no terreno. As crianças, com a permissão dele, vão para a minha casa. Mas, em breve, já vão estar todos juntos novamente", diz a mãe de Luciana, Vera Cristina Cardoso, de 45 anos.

DOAÇÕES

Para isso, o grupo tem uma vaquinha online para conseguir fazer o transporte da máquina até o terreno, além de móveis e demais materiais de construção que possam ser reutilizados. "Já ganhamos uma porta, duas janelas, a pia de cozinha, a pia de banheiro e um guarda-roupa. Mas pedimos que, quem estiver fazendo reforma e puder ajudar, entre em contato. E precisamos de voluntários dispostos a colocar a mão na massa literalmente nessa construção", pede Luciana.

Enquanto constroem seu novo lar, as crianças constroem seus sonhos. Tímidas, as meninas contam que querem ser advogadas, Bryan deseja ser bombeiro e o caçula Brad sonha em ser policial. "Espero que eles realizem os sonhos. Estou muito feliz por saber que eles vão ter um lugar melhor, um chuveiro para tomar banho. Elas (Vera e Luciana) têm sido um anjo para nós", finaliza Aparecido.

Os interessados a ajudar o projeto ou a família de Aparecido podem entrar em contato pelo telefone (14) 99620-2026 e pelas páginas no Facebook "Construindo Dignidade" e Instagram @construindodignidade. Para ajudar com qualquer quantia na vaquinha online, basta acessar: https://vaka.me/602672.

Reassentamento do Canaã deverá ser feito até 18 de junho

A Prefeitura Municipal afirmou, em nota, que o reassentamento de 195 famílias na região do bairro Primavera (região do Parque Roosevelt) irá colocar fim ao maior conflito fundiário por moradia da história de Bauru. Nos próximos dias, deverá ocorrer a desocupação integral das áreas, que, hoje, integram o Canaã.

De acordo com o texto, apenas em 2016, Bauru chegou a registrar mais de 3 mil famílias vivendo em novas ocupações, sendo 1.500 só na região do Jardim Mary e Jardim Marabá.

Considerando a característica das ocupações e grau de vulnerabilidade, a prefeitura e o Ministério Público do Estado de São Paulo firmaram um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), aprovado pelo Conselho Superior do Ministério Público, ficando estabelecida a obrigação da prefeitura em dispor de alternativa habitacional provisória, com prazo de permanência para essas famílias, até que possam se restabelecer em outros locais definitivos. São idosos, famílias com crianças, famílias com pessoas doenças crônicas e com deficiência, sendo todas elas moradoras de Bauru e em situação de extrema pobreza.

Segundo a prefeitura, todas as 195 famílias foram submetidas à triagem social e atendem às condições de enquadramento previstas pelo TAC. As demais 170 famílias que não se enquadram nos critérios do termo, assumiram o compromisso de deixar os assentamentos pacificamente até o dia 18 de junho, quando a área deverá ser integralmente desocupada.

A nota emitida pelo município também alega que, ainda que as ações para a produção de moradias sejam obrigação do governo federal e do governo do Estado, "a Prefeitura de Bauru tem agido para minimizar esse grave problema e buscar a criação de programas habitacionais para atender a população da nossa cidade".

Vereadores criticam

A vereadora Chiara Ranieri (DEM) criticou a mudança das famílias para a região do Parque Roosevelt, pois, de acordo com ela, ainda não há estrutura para receber as pessoas. “Essa é a política habitacional da prefeitura, leva esses moradores para lá, mas não sabemos se terá estrutura, água, esgoto, energia”, afirmou. Já o vereador Coronel Meira (PSB) considera que a prefeitura está incentivando a formação de uma nova favela no município. “Vai ser formada uma nova favela, infelizmente, pois apenas estão mudando os moradores de local, sem estrutura alguma”, frisou.