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Inspiradas em jogadoras da Seleção, atletas de Bauru dão show com a bola nos pés

A Copa do Mundo Feminina, em disputa na França, revigora o amor e o sonho que movem meninas dedicadas ao futebol desde pequenas

por Ana Beatriz Garcia

16/06/2019 - 07h00

Encontrar mulheres jogando em campos e salões pela cidade não é algo tão comum quanto se espera do País do futebol. A prática ainda é pouco valorizada e amplamente associada ao universo masculino. O cenário vem mudando ao longo do tempo, embora ainda sejam muitos os relatos de mulheres que contam que, para jogar futebol, sempre enfrentaram olhares desconfiados.

Com uma herança - de um tempo não tão distante - em que mulheres eram proibidas de praticar o esporte, o cenário do futebol na categoria feminina vem, aos poucos, superando a falta de infraestrutura dos times, a discrepância salarial e a ausência de incentivo às atletas.

Superando todos esses obstáculos, a Seleção Feminina de Futebol está brilhando nos campos da França, na Copa do Mundo Feminina, que teve início no último dia 7, e inspirando muitas meninas que são apaixonadas pelo esporte em Bauru.

INSPIRAÇÃO

Aceituno Jr.
Milena Carneiro Sabino Bonfim é ala no futsal e também zagueira no time feminino de campo de Bauru

Milena Carneiro Sabino Bonfim, de 23 anos, joga no time feminino da prefeitura de Bauru. A jovem, que mora no Mary Dota há 17 anos, encontrou na iniciativa da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer (Semel) a oportunidade de seguir os passos de suas inspirações. "Eu comecei a jogar futebol com 7 anos. Desde pequena, sempre fui apaixonada pelo esporte. Minhas inspirações são a rainha Marta, a Formiga e a Cristiane. Sonho um dia conhecer elas e, quem sabe, se tudo der certo, jogar em um time profissional e ser conhecida, levar o nome da cidade comigo", afirma a zagueira do time de campo que também atua como ala no futsal.

Mesmo com esse sonho, Milena trabalha em outra área, como operadora de telesserviços, e reconhece os desafios de seguir a profissão de jogadora de futebol. "Vou confessar que, quando eu era mais nova, pensava que iria viver de futebol o resto da vida, mas quando cresce, vê que não é bem assim. Pra gente, é um pouco mais difícil. Tive várias oportunidades de ir embora de Bauru, mas todas as vezes sempre tinha algo que me atrapalhava. Então, no momento, eu penso em continuar trabalhando, treinando e me esforçando para que, um dia, eu possa jogar em um time grande", declara.

INCENTIVO

Aceituno Jr.
Jasminy Caroline de Oliveira (de laranja) no lance em treino de futsal durante a última semana

O amor e o sonho também são compartilhados com a colega de time, Jasminy Caroline de Oliveira, 24 anos. A bauruense joga na equipe da cidade há 10 anos e viu em seu pai, um grande incentivador. "Ele jogava e sempre me levava nas partidas com ele. Eu sempre me inspirei nele e na jogadora Milene Domingues. Penso que as meninas mais novas precisam receber mais incentivo e ter mais escolinhas estruturadas para recebê-las. Isso tem que começar desde criança", sugere.

Trabalhando como auxiliar jurídica, a ala do futsal - categoria que mais gosta - também destaca o quanto o esporte foi importante para seu crescimento. "Eu tive a oportunidade de estudar, fazer faculdade, por conta do futebol. Isso foi muito importante. Eu optei por estudar a seguir uma carreira, mas tive algumas oportunidades e sei como é difícil esse caminho. Meu sonho é que o futebol feminino seja valorizado e que não tenha mais espaço para o preconceito", finaliza.

Mais sonhos e... golllll!

Fotos: Malavolta Jr.
Elton Carvalho, coordenador do futebol feminino de campo de Bauru

Outras 50 meninas, majoritariamente de Bauru, também fazem parte do projeto que treina futebol de campo e de salão. O projeto atende meninas de 13 a 25 anos. Todas podem participar para praticar e somente nas competições há uma pré-avaliação para poder competir.

Everton Carvalho (Alemão), coordenador do futebol feminino de futsal de Bauru

O time bauruense, comandado pelos educadores físicos Elton Carvalho e Everton Alemão, compete nas Copas SBT, TV Tem e Record, Jogos Abertos, Regionais, além de campeonatos promovidos por outras prefeituras do Estado. "Desde o início do projeto, em 2016, as categorias sub 16 e sub 18 tiveram bom desempenho e se destacaram em campeonatos tanto de campo quanto os de salão", destaca Elton. "Estamos estudando algumas parcerias com o Noroeste e, caso isso se firme, será um grande salto para a carreira dessas meninas e o desenvolvimento do grupo", completa.

A equipe, que treina tanto futsal quando futebol de campo, usa as instalações da Faculdade Integrada de Bauru (FIB) que oferece, além do ginásio e do campo, acompanhamento de fisioterapia e academia de musculação para as jogadoras.

Os treinos do time de futsal feminino da Prefeitura de Bauru acontecem às segundas e quintas-feiras, às 20h30, na quadra da FIB, localizada na Rua José Santiago, na Vila Ipiranga. Já os treinos de futebol de campo são às quartas e sextas-feiras, às 18h, e sábado às 9h30, no mesmo local. Podem participar, gratuitamente, meninas a partir de 13 anos.

Para mais informações, entre em contato pela página do Facebook: "Futebol Feminino Bauru" ou pelo telefone: (14) 3218-6125.

Sonho de representatividade das meninas entra em campo

Apaixonadas pelo esporte desde muito novas, elas comemoram o destaque que esta edição da Copa do Mundo Feminina está tendo

Samantha Ciuffa
Tainá Vétere não abandona o amor pelo futebol e concilia partidas semanais com seus afazeres

“Eu gosto de futebol desde que eu me entendo por gente”. É assim que Tainá Vétere, de 29 anos, explica o que sente pelo esporte que mais ama. Anos atrás, seu sonho de garota era poder jogar bola com outras meninas e ver a mesma torcida e festa que faziam para o Mundiais masculinos, nas partidas das Copas do Mundo Femininas que assistia sozinha.

“Eu nunca deixei de acompanhar. Não só Copa do Mundo, mas Olimpíadas e qualquer partida que tinha delas”, afirma a jornalista que, inclusive, já jogou com uma das atletas da Seleção Brasileira.

“Aos 14 anos, eu saí da casa para jogar bola em um time amador. O time mais importante que eu joguei foi o Rio Preto, que já ganhou muitos campeonatos. Mas, com 19 anos, eu tive que deixar isso que sempre foi meu sonho. As pessoas não colocavam ‘grana’ no futebol feminino, era difícil demais. Eu nunca ganhei nenhum retorno, era só pelo meu amor mesmo e eu lembro que a gente já passou fome para jogar. Por isso, eu entendo a dificuldade que passam essas meninas da seleção, já joguei com a Mônica Hickmann, que entrou como capitã no primeiro jogo”, conta.

BATE BOLA

Mesmo com as dificuldades e até o preconceito por jogar bola, desde menina, apenas com garotos por falta de outras meninas para acompanha-la, Tainá não deixa de, ainda hoje, encaixar em sua agenda um espaço para exercitar o esporte que tanto gosta. Sempre que se forma um time – agora só de meninas –, ela joga com as amigas em uma quadra society, na Vila Aviação. “Vez ou outra a gente ainda tem que chamar algum amigo para fechar o time, mas hoje tem mais meninas que jogam. Como eu acompanho desde pequena o futebol, eu fui sentindo também essa evolução, das mulheres começarem a se interessar mais e, agora, percebo o maior destaque da Seleção Brasileira, isso me deixa muito feliz e orgulhosa por ver que as pessoas vêm entendendo que, de fato, o lugar da mulher é onde ela quiser”, comenta.

TORCIDA

E é com as amigas, que ela pretende assistir aos próximos jogos da Copa do Mundo e comemorar muito a cada conquista. “As pessoas não fazem tanto barulho quanto no futebol masculino, ninguém para o trabalho para assistir aos jogos, mudam completamente a sua agenda pra assistirem jogos, principalmente os homens. Na feminina, meus amigos homens não têm o mesmo empenho. Mas eu e as minhas amigas vamos prestigiar, sim”, finaliza.

Arquivo Pessoal
No gol, Monique Palmiero Borges joga em uma das partidas pela faculdade

Assim como Tainá, a estudante de Direito, Monique Palmiero Borges, de 24 anos, também pretende assistir aos próximos jogos com amigas. Ela, que também é apaixonada pelo esporte e joga futebol desde pequena, começou a Copa do Mundo Feminina em grande estilo: no campo. “Estava jogando pela minha faculdade em um torneio e perdi o primeiro tempo. Mas o segundo assistimos todas juntas, o nosso e os outros times, torcendo muito por elas”, conta. “O destaque que a Copa ganhou neste ano é muito importante para que invistam mais no futebol feminino, que vejam o potencial incrível que temos”, completa.

SONHO

Monique joga de uma a três vezes por semana, por conta de seus compromissos com trabalho e faculdade, mas pensa em se especializar no esporte. “Quando eu era mais nova, na minha adolescência, eu pensei em jogar profissionalmente, mas não fui atrás disso por falta de apoio dos meus pais, minha mãe não queria que eu jogasse futebol e ninguém me levava para os treinos. Como eu era muito imatura pra correr atrás disso sozinha, eu não sabia o que fazer. Mas, hoje em dia, quero sim me profissionalizar, por isso eu treino, para ficar cada dia melhor e, quem sabe um dia, alcançar o sonho de passar em um teste futuramente”, finaliza.

NA TRANSMISSÃO

Samantha Ciuffa
Érika Alfaro de Araújo fala sobre seus estudos sobre a presença da mulher no esporte

Logo na primeira transmissão da Seleção Brasileira da Copa do Mundo Feminina, um comentário causou estranheza de alguns espectadores. Após uma cobrança de falta de Andressa Alves, ainda no primeiro tempo, o ex-jogador Caio Ribeiro exaltou a beleza da brasileira. “Bate bonito na bola a Andressa. Oh, Caio, você não batia bonito na bola assim, não?”, perguntou Galvão Bueno na transmissão. “Ela é muito mais bonita do que eu batendo na bola também”, disparou Caio Ribeiro.

Segundo a jornalista e pesquisadora Érika Alfaro, que estuda sobre a representatividade da mulher no esporte, tal comportamento vem mudando, mas ainda é uma realidade. “Há uma constante menção à beleza das atletas ou aos estereótipos ligados à feminilidade, privilegiando essas questões de sexualidade em detrimento das performances esportivas”, afirma.

Além disso ela destaca que, existem alguns esportes, como o vôlei e o atletismo – que têm algumas figuras vencedoras na história do Brasil – em que a mulher tem sua posição mais consolidada. Ela explica que isso também se deve à herança de esportes que são considerados “mais para mulheres” e outros que não são, como o futebol e as lutas, por exemplo.

“Focando no futebol, existem, sim, algumas distinções de narração e comentários, até porque, o futebol masculino é exibido o ano todo, principalmente, em canais abertos. As jogadoras, consequentemente, são menos conhecidas, o que gera uma linguagem mais didática e até confusão de nomes, trazendo informações que não seriam necessárias a uma categoria masculina”, explica.  

Érika ainda comenta sobre a contribuição que a mídia faz “As profissionais mulheres vêm tendo um pouco mais de espaço nas coberturas. Essa representatividade e esse olhar feminino fazem diferença na hora de falar sobre outras mulheres. A exibição de campeonatos femininos, no futebol, dá espaço para que, cada vez mais, essas atletas tenham uma figura consolidada diante do público e nisso, a mídia vem contribuindo”, diz.

Também apaixonada por esportes, a profissional também trabalhou para um veículo esportivo e conta que, em ambientes informais, tinha contato com o preconceito por sua escolha de área de atuação.

“As pessoas não dão muito crédito à minha afinidade com o assunto. Na pesquisa e na época que eu trabalhava na Locomotiva Esportiva, existia mais respeito. Mas há, sim, um preconceito. Quando você é mulher e fala que gosta de esporte, você precisa se provar o tempo todo. Não basta dizer que gosta, você precisa mostrar. E, quando você mostra que entende, os homens ficam surpresos por você ser mulher e entender do assunto”, finaliza.

Após 40 anos do fim da proibição, futebol feminino tem destaque nacional

Campeonato Mundial é marcado pelo ineditismo com transmissão em TV aberta, uniforme exclusivo e álbum de figurinhas​

Divulgação/CBF
Seleção feminina posa para foto oficial da Copa do Mundo da França

Arquivo Público/Museu do Futebol
Decreto estampou manchete de jornal em 1941

“Pé de mulher não foi feito para se meter em chuteiras”, dizia – em português arcaico – uma manchete de jornal em 1941, quando o futebol, no Brasil, foi considerado, por decreto, uma prática inapropriada para mulheres. O decreto foi revogado em 1979 e, 40 anos depois, a oitava participação da Seleção Brasileira Feminina em copas do mundo é marcada pelo ineditismo.

Entre as novidades, está o uniforme feito exclusivamente para as atletas, que também viraram álbum de figurinha e estarão na sala dos torcedores graças a transmissão de todos os jogos em tevê aberta. Também pela primeira vez na história do futebol feminino brasileiro, a convocação para a Copa do Mundo foi um evento. Diferente de 2015, por exemplo, quando a lista foi divulgada apenas no site oficial, o anúncio do técnico Vadão reuniu dezenas de jornalistas na sede da CBF, em maio deste ano.

Nessa data, figuraram nomes como Marta, Bárbara, Cristiane e Formiga – que está em seu 7.º mundial aos 41 anos e, ao entrar em campo na estreia, tornou-se a jogadora mais velha a disputar um Mundial Feminino de futebol.

NA CASA DE TODOS

Uma das mudanças mais sentidas pelos torcedores, neste ano, foi a possibilidade de assistir aos jogos como nas edições da Copa do Mundo Masculina. Pela primeira vez, todos os jogos da seleção brasileira na Copa do Mundo Feminina de Futebol estão sendo transmitidos em televisão aberta em quatro canais nacionais que possuem o direito de transmissão ao vivo da competição.

Em 2015, na edição passada da Copa feminina, canais como SporTV e TV Brasil já deram um primeiro passo ao transmitirem jogos da seleção feminina para o Brasil.

ALTO ASTRAL

Desde a chegada na França, as jogadoras da seleção brasileira se uniram para levantar o astral para a Copa do Mundo. A música se tornou aliada, com as atletas carregando seus instrumentos em todos os trajetos.

Em especial, a música '''Jogadeira''', de autoria da jogadora Cacau, do Corinthians, e da ex-jogadora Gabi Kivitz, passou a ser o hino oficial das brasileiras na Copa da França. Está presente no caminho do treino, na volta para o hotel e também naqueles momentos de descontração e descanso (leia letra da música completa abaixo).

PARTICIPAÇÃO

Para conferir, não só as brasileiras, mas todas as atletas, foram vendidos mais de 720 mil ingressos para o campeonato mundial da França, segundo a Fifa. De acordo com a Agência EFE, a secretária-geral da Federação, Fatma Samoura, o campeonato servirá "para que se escute a voz das mulheres". A dirigente ainda pediu esforços para uma maior integração das mulheres no futebol e para transformá-lo em um "esporte para todo o mundo" e com maior diversidade. "Contamos com os homens porque sem vocês a mudança não pode acontecer", disse a secretária-geral.

Impedidas por quatro décadas

Há registros do futebol feminino ter iniciado, timidamente, nos anos 20, no Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Norte. Ainda nessa época, de acordo com historiadores, o circo traz algumas das primeiras referências do uso das palavras "futebol feminino". O que era tratado como uma performance, um show e não como uma partida.

Já em 1941, um processo de regulamentação do esporte no Brasil levou à proibição da prática pelas mulheres, por meio de um decreto-lei 3199, que no art. 54., assinada por Getúlio Vargas, que trazia o seguinte texto (revisado em 1965): “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”.

Após quatro décadas de impedimento, em 1979, o decreto foi revogado. Neste período, a abertura política começava com o encaminhamento da ditadura militar para seu fim. Mas não houve um desenvolvimento imediato para o futebol feminino no País.

Empresa de tecnologia fará atividades para colaboradores durante o Mundial Feminino

Douglas Reis
Mayumi Sato conta que os funcionários vão se reunir para assistirem aos jogos da Seleção

A Copa do Mundo Feminina mobilizou uma empresa de tecnologia de Bauru, localizada no Jardim Brasil. Todos os jogos da Seleção que estiverem marcados para o horário comercial serão assistidos pela equipe em uma confraternização com direito a decoração verde e amarelo.

De acordo com a diretora de comunicação da empresa, Mayumi Sato, os colaboradores foram consultados e aceitaram a iniciativa, que teve início na partida do Brasil contra a Austrália, na tarde da última quinta-feira (13).

“Essa copa tem uma importância que vai além do esporte. Ela é mais um avanço em termos de representatividade feminina e celebrá-la, para nós, faz parte de uma série de ações constantes para trazer essa discussão à tona e mudanças reais em nosso ambiente de trabalho. Nada mais justo que aproveitemos esse momento simbólico para confraternizarmos juntos”, finaliza.