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Bairros

Artistas criam cooperativa de arte e querem revitalizar prédio de 1912

A formação da Cooperativa Livre de Arte, o Clã, pretende ser espaço de mostras e shows, além de dar aulas de arte, música, teatro entre outros

por Ana Beatriz Garcia

23/06/2019 - 07h00

Samantha Ciuffa
Localizado na quadra 2 da avenida Rodrigues Alves, prédio de 1912 será a sede do Clã

Em um ambiente multicultural, a arte bauruense terá uma casa só dela. Isso é o que pretende criar a Cooperativa Livre de Arte, o Clã, em um dos prédios históricos de Bauru, o antigo Hotel Estoril, localizado na quadra 2 da rua Rodrigues Alves, no Centro da cidade.

"Eu passei muito tempo fora do Brasil, morei na Argentina e, quando voltei, vim gravar um CD em Bauru, depois de passar por Ilhéus e Paraty. Nesses lugares, nós tínhamos muitas opções de centros culturais e isso me inspirou a buscar algo nesses moldes para Bauru. Eu e a minha esposa começamos a sentir falta de um local em que pudéssemos reunir artistas de todos os segmentos em um só lugar", explica o artista e idealizador do projeto, Daniel Marques.

Com intenso apelo de preservação histórica, o Clã foi desenvolvido por um grupo de artistas com o propósito de agregar educadores e empreendedores sociais, em suas variadas manifestações, aos espaços públicos e os cidadãos comuns de todas as idades. "Este será um espaço de respeito à liberdade criativa, estímulo à experimentação e aprendizado contínuo, que se identifica com a arte em seu sentido mais amplo, da expressão, educação, socialização e resgate do ser humano e de sua história, enquanto ser criador e pensante", diz.

Samantha Ciuffa
Idealizador do Clã, Daniel Marques fala sobre o sonho de iniciar o projeto

Para isso, a sede do Clã, o prédio de 1912, terá de ser revitalizado. De acordo com Daniel, serão necessários, no mínimo, R$ 200 mil para tornar o local, até então de perigoso acesso, com foco de doenças, depósito de lixo, risco de incêndio e desmoronamento, em um ponto de produção cultural, conexão de pessoas e fonte de renda alternativa. "Com um contrato de comodato, a Sociedade Beneficente Portuguesa entrou com a cessão do edifício, que é tombado pelo patrimônio histórico municipal. Agora, a cooperativa, através de parcerias público-privadas, eventos e a auto-gestão sustentável, tornará em realidade o sonho de dar vida ao Clã", afirma o idealizador.

REVITALIZAÇÃO

Segundo ele, cerca de seis a sete meses são estimados para a conclusão dos processos de restauração, que contarão com auxílio de empresas e de eventos (veja mais na página 6). "O prédio estava completamente abandonado. Demorei duas semanas para limpar o local. Ao todo, foram seis caçambas de lixo que eu tirei sozinho de lá. Agora, está com outra cara. Mas precisamos de ajuda dos parceiros, também vamos tentar nos cadastrar no ProAC, além de levantar fundos com eventos e contribuições mensais de artistas que queiram se filiar ao coletivo", completa.

Daniel também comenta que o Clã, que atualmente conta com cerca de 20 artistas, é auxiliado por duas arquitetas, Aline Sayuri e Mireile Bettencourt, que já elaboraram o croqui inicial do projeto. "Nós precisamos refazer a parte elétrica e hidráulica do prédio, reformar os pisos e o telhado, além de refazer as pinturas e as decorações", diz.

SONHO

Por um questão burocrática por se tratar de um prédio do Governo Federal, o Clã não pôde ser construído no prédio da antiga ferrovia Sorocabana, local onde o grupo, inicialmente, pensou em construir a sede e ainda sonha em realizar projetos culturais e de preservação. "Aquele é um prédio histórico da cidade. Foi de lá que o primeiro trem saiu de Bauru, quando chegou a Sorocabana. Então, tem esse peso histórico na nossa cidade, tem uma importância muito significativa para o crescimento de Bauru e nós temos essa gana de revitalizar aquele local e ainda fazer algo cultural ali também", finaliza.

Arraiá Cultural dá início aos eventos realizados pelo Clã

Primeira iniciativa realizada pelo grupo reunirá cerca de 30 artistas na Praça Machado de Mello, no próximo dia 30

Ana Beatriz Garcia
Cátia Machado fala sobre o primeiro evento realizado pelo Clã na cidade

Mês de junho é mês de festança e o Coletivo Livre de Arte, o Clã, não deixou essa temporada passar em branco. Com muita música, teatro, artesanato e gastronomia, o grupo pretende animar o público bauruense com apresentações ao ar livre e para toda família, no 1.º Arraiá Cultural.

No próximo dia 30 de junho, das 10h às 19h, na praça Machado de Mello, no Centro da cidade, cerca de 30 artistas voluntários vão se apresentar no primeiro evento oficial do coletivo, com o objetivo de angariar fundos para a revitalização do prédio sede. "São pessoas de todas as áreas. Teatro, Música, artesanato e gastronomia, todos juntos. Será um encontro desses artistas, em prol da revitalização do prédio que sediará o Clã", explica Cátia Machado, uma das organizadoras e participantes do evento.

FESTANÇA

A artista ainda conta que o evento contará com barracas de pasteis, espetinhos, cerveja, refrigerantes, sucos, crepes, decoração com bandeirolas coloridas, fogueira, barraca de doces, pau de sebo e balões amarados. Além de brinquedos para as crianças, artesanato e feira de produtos orgânicos. "Os pais poderão ficar tranquilos. As crianças terão como se divertir durante o dia todo", afirma.

A parte artística do evento ficará por conta dos shows de Denise Amaral; Dondim Trio; Vitória Cação; Coletivo Samba Trio; Jô Moura; Súditos do Rei; Denise Garcia; Simone Scaglione; Batuque das Marias; Cátia Machado; Jefferson Santos; Mah Fernandes; Josiel Rusmont; Adílio Nascimento; Lizze e Isa; Nelson Itaberá e Obscuro Lavrador. E, ainda, com participações especiais de Rogério Plaza, Emerson Molina e Norba.

TRABALHO

De acordo com Cátia, o projeto é um grande sonho de todos que está começando a tomar forma. "Desde que a Sociedade Beneficência Portuguesa nos cedeu o prédio através de um contrato de comodato, estamos buscando diversas formas de revitalizá-lo e transformar, não só ele, mas o Centro da cidade em um lugar mais habitável", comenta. "Mas o Coletivo Livre de Arte vai muito além da revitalização do prédio. É um lugar multiartístico que não existe em Bauru. Ao invés de ficarmos frustrados, arregaçamos as mangas e trabalhamos para que esse nosso projeto ande. Esse é um projeto de pessoas sonhadoras", finaliza.

SERVIÇO

O 1.º Arraiá Cultural, primeiro evento oficial do grupo, será realizado no dia 30 de junho, das 10h às 19h, na praça Machado de Mello, em Bauru.

Arquivo Pessoal
Ivo de Paula Fernandes também se apresentará no evento com o Coletivo Samba Trio

Clã conta com a força de outro coletivo bauruense

Participando deste primeiro evento e na expectativa pela concretização do Clã, em Bauru, Ivo de Paula Fernandes, do Coletivo Samba, comemora a iniciativa. "Já temos 10 anos com o coletivo e vemos que estamos divididos em nossas tribos de samba, MPB, rock. Enfim, penso que é muito bom esse projeto para a cultura da cidade como um todo. É uma oportunidade de fortalecer a cena artística como um todo", afirma o música que também se apresentará com o Coletivo Samba Trio.

Músico a mais de 20 anos em Bauru, ele também destaca que o projeto levará a arte e a música para mais pessoas. "Tiraremos aquela região do lixo e transformaremos em ponto de arte, de cultura. Com projetos, com espaço para artistas, com aulas de música e de artes", finaliza.

 

Aulas, exposições e apresentações artísticas ganharão novo endereço

O Clã busca parcerias para, por meio do projeto, dar voz e visibilidade à classe artística e aproximá-la do público de Bauru

Ana Beatriz Garcia
Paulo Eduardo Tonon comenta sobre os planos do Clã

A revitalização do prédio que sediará o Coletivo Livre de Arte, o Clã, será endereço de projetos variados com foco na arte. Entre as missões da cooperativa, estão aulas de arte, música, teatro e expressão corporal, filosofia, cidadania, rodas de conversas, palestras, cineclubes, espaços de discussões sobre temas relevantes, exposições, espetáculos e saraus, vernissages e coquetéis de lançamentos de obras artísticas em geral (literatura, poesia, música, artes plásticas, cênicas, etc).

"Queremos fazer isso de forma espontânea e leve, para que haja maior valorização do artista. Restaurar este espaço com sensibilidade e beleza é resgatar a dignidade e identificação do povo bauruense com a cidade. Bauru precisa olhar com mais atenção e mais carinho para sua própria história", afirma o músico e produtor, Paulo Eduardo Tonon, que também faz parte do Clã.

Por meio de suas produções, os idealizadores do projeto, pretendem trazer a produção cultural para perto das pessoas, humanizando e revitalizando o espaço urbano. "Queremos movimentar a cultura para que Bauru seja uma referência na produção artística e valorização da arte local", diz.

AULAS

Ainda segundo Paulo, o Espaço Clã tem como objetivo, assim que estruturado, oferecer aulas, das mais diversas naturezas, para crianças e jovens. "Pense que interessante, as crianças fazendo aulas de música pela manhã, os jovens estudando teatro pela tarde e, à noite, o espaço receber todo público para apresentações artísticas. São ideias que temos e esperamos que empresas se interessem por investir em arte e cultura e fechar parcerias para nos ajudar a realizar o projeto", comenta.

CASA

O projeto do local também prevê que haja espaço de shows e exposições para que os artistas locais e convidados possam utilizar, das mais diversas maneiras, o prédio do coletivo para divulgação de seus trabalhos. "É uma casa que vai respirar cultura. Bauru precisava de um espaço como este. Por isso nós estamos ocupando e transformando esse lugar", afirma Paulo.

Além disso, Paulo ressalta que outros projetos como feiras conceituais, biblioteca e cineclube são aguardados. "Ainda não temos estrutura, mas pensamos em pelo menos aliar um projetor com uma parede branca, de forma inicial, para exibição de filmes e documentários regionais", finaliza Paulo que, inclusive, é produtor de um documentário sobre a história da cidade.