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Bairros

Asfalto com ondulações: problema que se perpetua...

Quem dirige todos os dias diz que Rodrigues Alves é a mais problemática, mas também reclama de outros pontos

por Ana Beatriz Garcia

07/07/2019 - 07h00

Vinicius Bomfim
Ondulações da avenida Rodrigues Alves são as mais citada pelos motoristas
Ana Beatriz Garcia
Taxista há 21 anos, João Luiz Véscio fala sobre as dificuldades que encontra pelas ruas

Depois dos paralelepípedos, chegou o asfalto, mais precisamente na década de 1940, em Bauru. É ele que, até os dias atuais, atende à maior parte da cidade. E seja pela ausência, pelas irregularidades ou pelas melhorias, ele sempre está na boca do povo.

O JC nos Bairros, que já trouxe essa temática com matérias sobre os buracos, as ruas de terra e as valetas profundas, agora fala sobre as ondulações que surgem em determinados trechos já bastante conhecidos pelas pessoas que dirigem todos os dias pelas ruas de Bauru.

"Avenida Rodrigues Alves, com certeza". Assim, sem titubear, João Luiz Véscio, 64 anos, taxista há 21 anos, elencou a via que, na sua opinião, mais apresenta essas ondulações. "Faz tempo que a gente espera o recape do trecho que vai da altura da Nações Unidas até o final da Pedro de Toledo, mas isso ficou na promessa, nunca aconteceu. Lá (Rodrigues Alves) é crítico demais, mas as ondulações não são só nessa rua. Tem outros pontos em que o carro sofre também. Borracha e amortecedor são os primeiros a sentir. Antes, eu trocava o amortecedor com 80 mil quilômetros rodados e agora não chega nos 50", destaca o taxista.

Ele ainda aponta outros endereços com o mesmo problema. "Eu moro no Nova Esperança e passo todos os dias, praticamente, pela avenida Pinheiro Machado, que também sofre com os mesmos problemas de ondulação. A gente tem que andar bem devagar para não estragar nada", afirma.

MAIS CITADA

Por conta do tráfego de veículos pesados, a avenida Rodrigues Alves, de fato, foi a mais citada pelos entrevistados. Quem vê esse problema todos os dias é a vendedora Júlia Navarro de Almeida, 33 anos, que trabalha em frente à via, em um trecho de bastante desnível. Além disso, ela ainda conta que faz um caminho repleto de ondulações na volta para sua casa. "Ando com o meu pai de carro e ele sempre reclama. Desde aqui, na Rodrigues, até a minha casa, no Jardim Terra Branca, existem muitos trechos com essas ondulações", afirma.

Julia ainda comenta que tem medo de que o veículo acabe danificado pelo desnivelamento. "Na avenida Pedro de Toledo tem muitas ondulações também. O carro passa trepidando por essas ruas e, vez ou outra, bate alguma na parte de baixo. Nunca quebrou nada, mas uma hora pode acontecer de danificar alguma peça", diz.

Sem orçamento, velhos problemas permanecerão sem solução definitiva

Segundo Ricardo Olivatto, secretário municipal de Obras, as ondulações são causadas por dois motivos principais; substituir asfalto por outro material tem valor até quatro vezes maior

Samantha Ciuffa
Avenida Pedro de Toledo também apresenta ondulações no asfalto

Malavolta Jr.
Ricardo Olivatto explica a formação das ondulações que, segundo ele, só seriam solucionadas com substituição por pavimento rígido

Problemas no asfalto são velhos conhecidos da população e do Poder Público. De acordo com secretário de Obras, Ricardo Olivatto, apesar estar sendo trabalhada, a situação das ondulações nas vias não consegue ser solucionada definitivamente.

“No município nós só trabalhamos com a execução de pavimento flexível, que é o asfalto. Quando falamos de soluções mais efetivas para isso, falamos de aplicação de pavimento rígido, que seria uma capa asfáltica feita de concreto armado sob uma tela de aço. Ele teria uma resistência maior por não mudar sua consistência em função da temperatura ou ação de combustível em sua superfície”, explica o secretário.

Ainda de acordo com Ricardo, esse modelo é aplicado, principalmente, nos Estados Unidos. “É muito mais eficiente e também tem o custo mais elevado. Até porque nossa mão de obra de aplicação de asfalto tem um determinado custo porque nós temos o maquinário. Já contratar mão de obra, máquinas e um projeto específico para essa aplicação de concreto custaria cerca de três a quatro vezes mais caro que o modelo que temos hoje, acredito eu”, afirma.

CAUSAS

Olivatto ainda explica como tais ondulações são criadas na superfície. Na opinião do secretário, existem dois motivos principais para o surgimento dos desníveis. "As ondulações tem um efeito principal que é o das frenagens de veículos pesados em que, com altas temperaturas, existe um amolecimento da capa asfáltica e além de um esforço no pavimento. Isso ocorre em trechos onde há elevado trânsito de ônibus e caminhões, como é o caso da avenida Rodrigues Alves", salienta.

Ele conta que o que há de agravante nesses casos, principalmente em pontos de curva, é o excesso de combustível no tanque dos equipamentos a diesel que pode derramar acidentalmente. "Por exemplo, se o ônibus está com o tanque muito cheio e freia, o diesel pode balançar e acabar despejando combustível no asfalto. Esse contato é solvente, que pode causar amolecimento na capa asfáltica", diz.

VAI PARA OFICINA...

Ana Beatriz Garcia
Fernando Oliveira destaca que grande parte de clientes tem queixas sobre condições do asfalto na cidade

Quem entende bem do resultado disso é o dono de uma oficina que presta serviços, majoritariamente, de alinhamento e balanceamento, na avenida Nuno de Assis. "A maioria dos clientes reclamam muito das irregularidades no asfalto. Eu, como motorista, entendo perfeitamente as reclamações, porque também acho muito ruim alguns pontos da cidade", comenta Fernando Oliveira, de 39 anos.

Ele, que mora no Jardim Bela Vista, conta que todos os dias tem de passar por ruas com ondulações e desníveis. "Aquela rua Alto Juruá é horrível, mas é a saída que eu tenho do meu bairro para a Nuno de Assis, que era outra que também vivia péssima. Agora, arrumaram, assim como na entrada do Mary Dota, que também tinha muitos problemas, mas estão recapeando", completa.

PREJUÍZOS

Ana Beatriz Garcia
Humberto Manoel dos Santos fala sobre os problemas com seu carro

Quando a reportagem chegou na oficina, Humberto Manoel dos Santos, de 40 anos, estava, justamente, deixando seu carro para consertar a suspensão do veículo. "Não faz nem três meses que troquei e já trouxe o carro para arrumar novamente. Não é fácil andar em Bauru. Além dos buracos que a gente sabe que tem, ainda a gente lida com essa questão das ondulações. Na avenida Pedro de Toledo, se você for pela direita, melhor nem ir. O carro vai pulando", afirma o autônomo.

"Sem contar que a gente é 'fechado', do nada, pelos carros que estão desviando desses problemas. Na Rodrigues eu evito passar e dou uma volta maior, pela Presidente Kenedy. Na avenida Jurandyr Bueno, por exemplo, você tem que ir a 20 km/h porque não tem condições de andar ali", finaliza Fernando.

Ondulações pedem atenção dos motoristas e podem causar acidentes

Ana Beatriz Garcia
O engenheiro mecânico Luiz Daré Neto explica danos aos veículos

Além de desconfortáveis trepidações, as ondulações no solo pedem maior atenção dos motoristas e constante prevenção de quem passa por ruas com essas condições diariamente, explica o engenheiro mecânico e professor da Unesp de Bauru Luiz Daré Neto. “O que acontece nesses casos é, principalmente, o desgaste do amortecedor. Mas você só vai sentir isso quando precisar dele em superfícies de ondulações, e não funcionar.”

“Com a perda do amortecedor, em caso de curva com ondulação, a pessoa pode sair pela tangente, ou seja, chegar a capotar. Além disso, mesmo que o amortecedor esteja bom, a ondulação diminui o contato com o solo e em caso da necessidade de frear rapidamente, seja por conta de um animal ou de um pedestre, nessas condições, o tempo de parada do veículo será maior, também podendo causar algum acidente”, explica Daré Neto.

Segundo ele, não há muito como prevenir que o veículo venha a ter problemas nesse sentido, mas motoristas que passam sempre por ruas que costumam ter esses desníveis, devem estar sempre atentos ao seu veículo. “As ondulações podem causar também um afrouxamento dos parafuso da cabine do veículo, causando barulhos. Mas mesmo sem sinal de defeitos, é sempre importante levar o veículo periodicamente a uma oficina de confiança para conferir como está o amortecedor”, finaliza.

Paralelepípedo com ‘remendo de asfalto’ descaracteriza ruas

Superfície corrigida com massa asfáltica cria ondulações em regiões mais antigas da cidade e irrita moradores

Samantha Ciuffa
Rua Padre João, quadra 16, é um dos exemplos de ruas que mantém o pavimento

As ruas de paralelepípedo não guardam só as histórias de Bauru, mas a de quem mora nelas. Bairros como Vila Guaggio, Vila Cardia, Higienópolis, Parque Vista Alegre, Jardim Bela Vista, Alves Seabra e até o Centro contam com essa primeira forma de pavimentação do município.

No Higienópolis, a rua Voluntários da Pátria é um exemplo dessas vias que guardam o charme de outros tempos.

"Eu lembro de quando nos mudamos para essa casa. Esse bairro era lindo, tinham acabado de colocar esse piso na rua. Sempre que eu olho, eu lembro daqueles tempos", comenta Zenaide Calderon de Andrade, 85 anos. Ela e a família moram nesta casa, na quadra 6, desde 1964.

Ana Beatriz Garcia
Zuleima Calderon de Andrade mora desde peque na em rua de paralelepípedo e guarda lembranças

"Eu cresci aqui e também lembro muito de brincar na rua, das festas juninas que tinham aqui. Não terem asfaltado até hoje, de certa forma, faz com que essa memória fique viva", diz Zuleima Calderon de Andrade, 59 anos, filha de Zenaide.

Mesmo que com boas lembranças, as moradoras apontam algumas queixas com a rua. "Ao longo do tempo, os consertos foram sendo feitos com asfalto e, além de feio, ainda começou a criar umas saliências, umas ondas na rua. Mesmo assim, acho que esse tipo de pavimento demora bem mais para dar algum problema e criar buracos", acredita Zuleima de Andrade.

REMENDOS

Assim como no caso das ondulações no asfalto, as manutenções no paralelepípedo também exigem um valor mais elevado, fazendo com que se criem alguns "remendos" em ruas com este pavimento. "A mão de obra de aplicação do paralelepípedo é muito mais específica do que a do asfalto. É como acontece no Calçadão da Batista. Opta-se por aquilo que é mais rápido, que é colocar o asfalto, o que acaba descaracterizando a condição original daquele pavimento", afirma o secretário de Obras, Ricardo Olivatto.

Ainda de acordo com ele, essas ruas não são urgências da administração. "As ruas continuam em paralelepípedos porque o custo do asfalto para atender toda a cidade demanda uma verba que ainda não foi disponibilizada. A questão é que essas ruas têm uma urgência de pavimentação muito inferior às ruas de terra. Esse acaba sendo um dos motivos, também, para a demora em asfaltar todos os trechos desse material na cidade", comenta.

E a ‘maldição’?

A rua Batista de Carvalho começou a receber asfalto em 1956. Mas não toda ela. Além do famoso calçadão comercial, essa rua abriga parte da história e até das lendas de Bauru.

Umas das lendas urbanas bauruenses está entre as quadras 12 e 15, na Vila Cardia, e diz respeito a uma maldição relacionada à instalação do Cemitério da Saudade. Reza a lenda que o prefeito que cobrir com asfalto as quadras da Batista entre a avenida Nações Unidas e o Cemitério da Saudade será vítima de uma maldição. O prefeito que tirar as pedras do caminho do cemitério morrerá. Lenda ou realidade, as quadras nunca receberam asfalto.

A maldição teria começado, de acordo com memorialistas, quando o empresário do ramo hoteleiro João Henrique Dix doou terras de sua propriedade para o município construir um cemitério.

A inauguração foi realizada em 26 de julho de 1908. No dia seguinte à inauguração, Dix se matou com um tiro no coração, segundo muitos, para ser o primeiro a ser enterrado no lugar.

Samantha Ciuffa
Na rua São Gonçalo, quadra 5, exemplos de “remendos” de asfalto em rua de paralelepípedos

De volta ao passado...

Em Bauru, a pavimentação teve origem com os paralelepípedos em 1924, na gestão do então prefeito capitão José Gomes Duarte. O calçamento teve início na rua Batista de Carvalho, que terminava na rua Antônio Alves.

Na sequência, receberam paralelepípedos as ruas Primeiro de Agosto e Araújo Leite. A pavimentação alcançou uma grande extensão em Bauru. Do Centro, foi para bairros como Vila Falcão e Jardim Bela Vista, entre outros. As travessas da avenida Rodrigues Alves receberam paralelepípedos até a altura da rua 15 de Novembro, sem alcançar a avenida Duque de Caxias.

Foi na década de 1920 que começaram a aparecer os carros motorizados e a areia deu lugar aos paralelepípedos. O solo arenoso de Bauru dificultava o tráfego de veículos, até mesmo de caminhões. E a circulação dos ônibus trouxe mais paralelepípedos para o município.