Bauru e grande região

Bairros

Vozes do tempo

Parque Vitória Régia, Rua Batista de Carvalho e Estação Ferroviária Noroeste ganham guias em áudio que permitem a bauruense viajar pelo passado

28/07/2019 - 07h00

JC Imagens
Concha acústica do Parque Vitória Régia, que serve de cenário para o primeiro roteiro do audiotour Vozes do Tempo: cenas ‘sonoras’ de batalhas entre indígenas e bugreiros

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Os idealizadores do Audiotour: Luís Paulo Domingues, João Correia Filho e João Flávio Lima

Entre 1850 e 1851, na região onde é hoje o Parque Vitória Régia, o Córrego das Flores fazia as vezes de fronteira entre as propriedades da região. O local também servia de pouso aos pioneiros que se sentiam encorajados a adentrar a Boca do Sertão, como Bauru era chamada em meados do século XIX.

Histórias como essas, esquecidas pelo tempo, agora estão disponíveis a todo bauruense e a quem visita a cidade por meio do Audiotour Bauru – Vozes do Tempo, projeto contemplado pelo Prêmio Municipal de Estímulo à Cultura 2017 e lançado na última quinta-feira na cidade.

O trabalho é composto de três roteiros históricos pelas ruas de Bauru, de aproximadamente 30 minutos cada. Os áudios, que podem ser baixados gratuitamente no site do projeto (https://www.vozesdotempo.com), conduzem o viajante pela cidade através de uma experiência auditiva, que mistura música, ambientação e efeitos sonoros.

No site, também é possível baixar mapas da região por onde o visitante será guiado, os trajetos e acessar imagens históricas de Bauru. Tudo isto feito de forma gratuita.

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Homens do acampamento Jacaré, no ‘picadão’ do Km 100 da Boca do Sertão

Os roteiros abordam três períodos da história de Bauru, contemplando três pontos importantes da cidade: o Parque Vitória Régia, a Rua Batista de Carvalho e a Estação Ferroviária Noroeste (veja mais na página XX).

A linguagem dos áudios é moderna, instigante, e foi pensada para dialogar com pessoas de todas as idades. Este é um dos pontos positivos do projeto, na opinião do jornalista João Correia Filho, criador e diretor do Vozes do Tempo.

“Os áudios têm um aspecto turístico, que interessa a quem quer conhecer a cidade e os locais importantes para sua história, e um aspecto educacional, pois pode ser usado em escolas, como material didático complementar em aulas de História”, explica Correia Filho.

Isto é possível porque nos roteiros em áudio os locutores guiam o ouvinte pelos locais visitados – indicando, inclusive, as direções para onde devem ir – enquanto vão contando histórias sobre a ocupação dos locais e curiosidades.

O radialista e músico João Flávio Lima, diretor de áudio do projeto, destaca que o audiotour é um trabalho de fôlego, que envolveu várias etapas durante a produção. Esse empenho teve como objetivo construir paisagens sonoras que representassem a atmosfera histórica e cultural da cidade e tornassem o conteúdo atraente.

“Um dos grandes desafios foi orquestrar todas as vozes e cenários sonoros e transformá-los num arquivo de áudio único, que vai conduzindo o ouvinte, literalmente, passo a passo pela cidade”, explica Lima. Saiba como participar dessa imersão auditiva pela história da cidade no texto a seguir.

COMO OUVIR

Proposto pelo Instituto Índisce (Instituto Nacional de Desenvolvimento e Integração Social, Cultural e Educacional), o Audiotour Bauru – Vozes do Tempo pode ser acessado por meio do site https://www.vozesdotempo.com.

Lá, os áudios dos três roteiros, no formato mp3, mundialmente utilizado, podem ser baixados gratuitamente e ouvidos em qualquer aparelho de som (player), incluindo celulares, smartphones e tablets. Se preferir, o leitor do Jornal da Cidade pode acessar o site direto pelo QR Code disponível nesta edição do JC nos Bairros.

Para isso, basta ter um leitor de QR Code no celular e colocá-lo frente à imagem ao lado. O código abrirá o site Vozes do Tempo, onde estão os roteiros em áudio. 

Projeto foi selecionado pelo Prêmio Municipal de Estímulo à Cultura

O Audiotour Bauru - Vozes do Tempo teve sua execução proposta em 2017 por meio de participação em edital do Prêmio Municipal de Estímulo à Cultura 2017.

Instituído pela lei municipal nº 5.575/2008, o prêmio tem como objetivo incentivar e fomentar a produção cultural e artística da cidade por meio do financiamento de projetos de pessoas físicas e jurídicas residentes em Bauru.

O audiotour foi um dos projetos selecionados pela comissão julgadora do prêmio, que, como determina a lei, é formada por cinco pessoas: dois funcionários da Secretaria Municipal de Cultura, nomeados pelo secretário de Cultura; e três membros do Conselho Municipal de Política Cultural, indicados por representantes de entidades não governamentais que compõem o conselho.

Contemplado pela edição 2017 do prêmio, o Vozes do Tempo foi desenvolvido ao longo de 2018 e 2019. As etapas do trabalho envolveram pesquisa histórica, redação de roteiros, gravação, edição e montagem do site, que foi lançado oficialmente na última quinta-feira, dia 25 de julho.

Em razão do resultado positivo do projeto, na avaliação da equipe produtora, a expectativa é de recepção positiva do conteúdo por parte da comunidade bauruense.

"O audiotour é uma forma bem criativa e diferente de apresentar a história de Bauru. Esperamos que as pessoas gostem do resultado", diz o jornalista Luís Paulo Domingues, autor do livro "Fronteira infinita: Índios, bugreiros, escravos e pioneiros na Bahurú do século XIX" e responsável pela pesquisa histórica e pelos textos do Vozes do Tempo.

Roteiros têm indígenas, pioneiros e ferroviários

Guias relembram a origem da Bauru, em 1850, a formação do núcleo urbano e a chegada dos trens ao município

O Audiotour Bauru - Vozes do Tempo é composto por três roteiros, que começam em 1850, relembrando a origem da cidade, passam pela formação do núcleo urbano, no século XIX, e recontam a chegada das ferrovias e a transformação do município no maior entroncamento ferroviário do Brasil, no século XX.

O primeiro roteiro, denominado Boca do Sertão, tem como cenário a região do Vitória Régia; Primeiras Vias, aborda a Rua Batista de Carvalho e passa pela Praça Ruy Barbosa; e As Ferrovias, tem início na Estação Ferroviária da Noroeste.

Cada um deles leva o ouvinte a uma etapa da história de Bauru, trazendo locução, música e efeitos, cujo trajeto e ambientação sonora transportam a pessoa sonoramente a cenários que ensinam sobre o passado, o presente e o futuro da cidade sem limites.

Os conteúdos históricos são apresentados em uma linguagem dinâmica e coloquial, que permite ao ouvinte contemplar o som ao mesmo tempo em que é conduzido pelo áudio. "Desta forma, o roteiro fica atraente, sem ser maçante ou cansativo, permitindo que o viajante seja guiado de forma prazerosa pelo passeio", avalia João Flávio Lima, diretor de áudio do Vozes do Tempo.

Boca do Sertão

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Acima, imagem histórica da Fazenda Faca, uma das propriedades rurais da região onde seria criado o município de Bauru, abordado no primeiro audiotour

O primeiro roteiro do Audiotour Bauru – Vozes do Tempo é Boca do Sertão. Com duração de cerca de 28 minutos, o passeio aborda a chegada dos pioneiros e a formação do bairro rural do Bauru.

Esse guia tem início na arquibancada do anfiteatro e contorna toda sua concha acústica, seguindo a pé pelas pontes, áreas arborizadas e calçadas do parque.

No roteiro, as locuções e a ambientação transportam o viajante para a chegada dos primeiros não indígenas à região, às batalhas com os Kaingangues, habitantes da região, e ao processo de ocupação das terras do noroeste paulista.

Por meio da locução e dos sons adicionais, o ouvinte fica sabendo que a batalha entre os indígenas e os invasores durou 62 anos e descobre como Felicíssimo Antônio Pereira chegou às terras hoje conhecidas como Bauru, após vida dura de isolamento no sertão paulista.

Seguindo a caminhada, o viajante conhecerá outras histórias interessantes do entorno do Vitória Régia, como a explosão da avenida Nações Unidas no dia da visita do presidente Ernesto Geisel, em 1976.

Primeiras Vias

Imagem da quadra 12 da rua Araújo Leite em 1908, onde havia poste com ligação telefônica e um lampião de iluminação pública; primeiras vias são tema do segundo guia

O segundo roteiro do Audiotour Bauru – Vozes do Tempo é Primeiras Vias, com duração de 37 minutos. Este guia trata da formação do núcleo urbano no final do século XIX.

O trajeto inicia-se no coreto da Praça Rui Barbosa e segue por toda a Rua Batista de Carvalho, o Calçadão da Batista, contando a história da igreja matriz.

Os casarões da região, em arquitetura Art Decô e no estilo Eclético, bem como a relação desses estilos arquitetônicos com a economia e a política da época, também são abordados nesse roteiro.

Nele, o viajante conhece ainda a história dos homens que deram início à emancipação e urbanização da cidade, como Virgílio Malta, Araújo Leite, Gerson França, entre outros, que denominam ruas importantes de Bauru.

Seguindo a pé pela região central, o viajante escuta como alguns conflitos armados ocorreram nessa época, como a Revolução de 1924, que gerou um episódio importante na rua Monsenhor Claro, com rebeldes entrincheirados para uma emboscada aos soldados do exército que desembarcariam na Estação Noroeste.

As Ferrovias

Família de Joaquim dos Santos, um dos últimos a ocupar a região das corredeiras; cenário mudaria com a chegada das estradas de ferro

As Ferrovias é o nome do terceiro roteiro de Vozes do Tempo. Com duração de cerca de 32 minutos, aborda a chegada dos trens e da riqueza do município no início do século XX por meio das atividades das ferrovias operantes: Sorocabana, Noroeste e Paulista. A grande estação da Noroeste e transformação da cidade no maior entroncamento ferroviário do Brasil também fazem parte do áudio.

O trajeto começa em um banco da Praça Machado de Melo, em frente à Estação Noroeste, e leva o ouvinte a conhecer o período de formação de uma Bauru nos trilhos da modernidade, entre 1904 e 1910.

Unindo passado e presente, o trajeto inclui o interior do edifício, com visitas à Casa de Cultura Hip Hop e demais dependências culturais sediadas na antiga estação, bem como as construções históricas dos arredores.

Para envolver o ouvinte na atmosfera histórica, foi reconstruído sonoramente o ambiente de uma viagem de trem, com as pessoas esperando a hora do embarque, o burburinho da partida e o som dos motores antes da partida.

Trabalho de pesquisa e produção durou 2 anos

Jornalistas, músicos e radialistas integram a equipe do projeto do audiotour bauruense

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Os jornalistas João Correia Filho e Luís Paulo Domingues e o radialista João Flávio Lima no Parque Vitória Régia, conferindo marcações do roteiro

A equipe que responde pela produção e execução do Audiotour Bauru - Vozes do Tempo é formada por profissionais de várias áreas, o que foi fundamental para garantir os aspectos multidisciplinar e multimídia do projeto.

O trabalho tem direção de criação do jornalista João Correia Filho, autor dos guias turísticos-literários "À Luz de Paris", "São Paulo Literalmente" e "Buenos Aires, Livro Aberto" e "Lisboa em Pessoa", vencedor do Prêmio Jabuti no ano de 2012, na categoria turismo, e autor de reportagens jornalísticas e roteiros publicados no Brasil e no exterior.

Guias do Audiotour Bauru podem ser ouvidos em dispositivos móveis

A direção de som ficou por conta do produtor, programador e músico João Flávio Lima, que atua na Rádio Unesp FM e na produção de documentários relacionados ao universo musical.

A pesquisa histórica foi executada pelo jornalista, músico e escritor Luís Paulo Cesari Domingues, autor dos livros "Boca do Sertão - a História de Piratininga na Marcha do Café" e "Fronteira infinita: Índios, bugreiros, escravos e pioneiros na Bahurú do século XIX", que trata da ocupação humana na nossa região, a partir de 1850 e que originou a firmação da cidade. Luís Paulo divide a autoria dos textos com João Correia Filho.

O projeto também teve a locução da jornalista e radialista Camila Ravanelli e do radialista Guilherme Dias, produção executiva de José Vinagre, revisão de conteúdo por Fabiana Biscaro e design por Gustavo Domingues. Emílio dos Santos assina a trilha sonora.

Unir tantos profissionais em torno do projeto justifica-se pelo desconhecimento de parte da população a respeito da história local. "A história da origem de Bauru ainda é desconhecida, está encoberta, pois a maioria das informações dá conta do período das ferrovias", argumenta Luís Paulo Domingues, responsável pela pesquisa histórica e os textos do projeto.

"Tenho percebido nas palestras e aulas que ministro que esse conteúdo aguça muito o interesse das pessoas.

Há um grande interesse neste período da história", destaca Domingues.

Por essa razão, a decisão da equipe foi de que o audiotour Vozes do Tempo abordasse as origens de Bauru, a partir de 1850, como dos indígenas que habitavam a região e dos primeiros não indígenas que chegaram aqui, e também as histórias de meados do século XIX até chegar às ferrovias, no século XX.

Site pode ser usado por escolas de Bauru

A ideia é que o Audiotour Bauru - Vozes do Tempo se torne, além de guia turístico, uma ferramenta pedagógica e de aprendizado em escolas, instituições culturais e de ensino, bem como à população como um todo.

"O conteúdo dos áudios permite várias dinâmicas com alunos de toda rede pública e privada da cidade, atingindo um grande número de crianças e jovens. Além de ser uma opção de passeio turístico pela cidade, incentivando visitantes e a população bauruense a ocupar os locais públicos", afirma o jornalista João Correia Filho, criador e diretor do projeto Vozes do Tempo.

Isto é possível por que o site Vozes do Tempo disponibiliza fotos, mapas, arquivos do Google Maps, transcrições e informações complementares de cada roteiro, que podem tornar a viagem ainda mais enriquecedora.

"Há, inclusive, um Quiz com perguntas sobre os três roteiros, que pode ser usado como atividade em sala de aula", completa o jornalista.

Para isso, tanto o site quanto os áudios foram pensados de maneira bastante cuidadosa. "Buscamos uma linguagem moderna, jovem, para despertar o interesse dos estudantes e de pessoas de várias faixas de idade", explica Correia Filho.

Em https://www.vozesdotempo.com, há material extra, com os textos integrais dos roteiros, imagens históricas e textos complementares, que permitem ao viajante ir além dos passeios guiados pelo áudio.

MUNDO

Os audiotours, ou audioguias, como também são conhecidos, estão presentes nos mais importantes museus do mundo e têm se tornado uma tendência tanto em passeios turísticos quanto em projetos educativos.

Este é o caso da cidade de São Paulo, que lançou recentemente uma série de roteiros a pé, audioguiados, que permitem ao visitante conhecer os patrimônios da capital paulista e sua história. Outras cidades ao redor do mundo também têm criado iniciativas similares.

"O formato é bastante democrático, pois favorece o acesso a conteúdo histórico e informativo a públicos diversos, entre eles analfabetos e pessoas com deficiência visual. Outra vantagem do áudio, quando concebido com linguagem coloquial, é ser acessado por diferentes faixas etárias e formações", avalia Daniela Bochembuzo, professora dos cursos de Comunicação da Universidade do Sagrado Coração e pesquisadora de mídias sonoras.

Ela acrescenta que o áudio, quando combina música, voz e efeitos sonoros a partir de um texto, pode propiciar a criação de cenários sonoros. "Essa ambientação, que chamamos de paisagem sonora, suscita a participação do ouvinte de maneira muito criativa, levando-o a dialogar mentalmente com o conteúdo em áudio", acrescenta.