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Boneco alivia sofrimento de alunos em Bauru

Projeto pioneiro criado por professora da escola estadual Ayrton Busch tem ajudado e até salvo a vida de estudantes

por Marcele Tonelli

15/12/2019 - 06h00

Samantha Ciuffa

Professora de filosofia e geografia, Elaine Mussi virou amiga confidente de alunos; cartinhas do boneco são guardadas em baú que só ela acessa

É na escola que muitos problemas sociais deságuam. E foi pensando no papel da educação para além dos muros e estrutura das unidades que uma professora de Bauru resolveu desenvolver uma ação pioneira que tem ajudado alunos a amenizarem suas dores emocionais, inquietações e angústias. O projeto "Coração" se resume em um boneco de cerca de 40 centímetros, que ganhou este nome e se tornou um instrumento de escuta. Ele recebe, em uma mochilinha, bilhetes nominais e anônimos de estudantes da escola estadual Ayrton Busch. A iniciativa surtiu tanto efeito que tem salvo adolescentes do suicídio e já apontou vítimas de violência sexual.

É que as mensagens, assim que colocadas nas costas do boneco, são lidas pela professora Elaine Mussi Hunzecher Quaglio, que oficialmente ministra aulas de filosofia e geografia na escola desde 2011, mas conquistou a amizade e confiança dos alunos.

As queixas escritas são lidas apenas pela professora e pelo aluno que a escreveu. Elaine, então, conversa e faz a intermediação das situações mais graves junto à direção do colégio e com os pais. "É incrível como todos respeitam e cuidam do Coração. Tem até disputa para ver quem vai ficar com ele no intervalo. E a regra é clara: no fim das aulas, ele deve voltar para mim, ou quando eles sentem que há algum bilhete na mochilinha", cita a professora. As cartas são guardadas por Elaine em um pequeno baú que só ela tem acesso.

E a atividade extra, como é recompensada? "Não me sinto levando trabalho a mais para casa, mas sim plena por ajudar as crianças a se tornarem adultos melhores", afirma a professora.

OS BILHETES

O boneco recebe ainda informações sobre dificuldade escolar, bullying e sugestões de temas de aula. Quando o recado tem nome, Elaine propicia momentos discretos para escuta e, se necessário e com a anuência do estudante, encaminha o caso para a mediação escolar.

Já as mensagens anônimas devem conter a sala de aula do solicitante. Assim, a professora estabelece diálogos temáticos com a classe. "Uma aluna pediu para abordar sobre violência sexual. Outro pediu para abordar sobre HIV. Teve também quem compartilhasse o desejo de pôr fim em sua vida", resume a Elaine. "Conseguimos, recentemente, intervir em uma tentativa de suicídio, em uma madrugada de domingo. A aluna havia se cortado e tomado remédio e soubemos por meio de denúncia feita via Coração. Acionamos a irmã e ela foi socorrida a tempo", observa.

O BONECO

O boneco surgiu em junho de 2011, após Elaine orientar uma aluna. "Percebi que nem sempre eles deixam sinais visíveis de que necessitam de ajuda", detalha a educadora.

Coração é articulado e não se enquadra como menino nem menina, também não tem a cor da pele definida, o cabelo é colorido e seu semblante alegre. "Uma ex-aluna de psicologia da Unesp, a Monique Motta, me ajudou a dar vida à ideia", detalha a professora, ressaltando que a ação tem estimulado alunos a ouvirem, verem, lerem e sentirem a dor dos outros.

"Eles encorajam amigos tristes a escreverem bilhetes ao Coração", completa.

Violência sexual

Samantha Ciuffa

Aluno contou ao boneco ter sido vítima de violência sexual; agressor acabou preso

Vítima de violência sexual cometida por um parente próximo quando tinha 10 anos, um aluno da escola viu no boneco a melhor saída para colocar fim ao seu sofrimento, em maio deste ano. Menos de duas semanas após a denúncia ser lida pela professora, o homem foi preso na escola com a presença da polícia. "Se o Coração não existisse, eu acho que nunca conseguiria falar para ninguém. Tinha medo de as pessoas acharem que a culpa era minha e medo de que espalhassem ou me julgassem", diz a criança, que recebe acompanhamento psicológico. 

Ansiedade atrapalhava estudos

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Após bilhete escrito para o Coração, Layza Batista iniciou terapia

Entre as dezenas de cartinhas, a da aluna Layza Batista, 14 anos, aluna do 9.º ano da escola, pedia ajuda para melhorar nos estudos. Em conversa com a professora e a equipe de mediação, a família entendeu que a terapia ajudaria a garota a lidar com a ansiedade e outros problemas. "Foi muito importante para mim. O Coração é uma forma incrível de ajudar as pessoas sem receber nada em troca", diz a garota.

'Me acalma'

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Linda Araújo não desgruda mais do boneco e procura contar todas as suas aflições para ele

Outra grande amiga do Coração é a Linda Araújo, 15 anos, do 9.º ano. Inquieta e nervosa durante as aulas, ela conta ter se acalmado depois da amizade. "Tudo que não podia contar para alguém conto para ele e ele me ajuda. No início, eu achava a professora doida e o boneco bobo, mas hoje não fico sem, adoro os conselhos. Quero continuar essa amizade mesmo depois que terminar escola", aponta Linda.

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