Bauru e grande região

Ciências

Afinal, quem são os ?animais? ?

por Alberto Consolaro

18/11/2013 - 05h00

Reprodução

Os animais têm um brilho no olhar que se apagam no sacrifício, tal como acontece na morte humana!

O brilho nos olhos, a posição altiva e os grunhidos pedindo compreensão. Era um brilho diferente, como a dizer: estou ciente, entendam! Já me contaram e escreveram sobre o brilho no olhar dos primatas durante os experimentos. Depois de três pesquisas, resolvi não “usar” mais primatas.

Amostras chegam a mim prontos para ser analisados ao microscópio e esquivo-me em levar ao consciente de que sejam de cães. Felizmente, cada vez mais raras são estas situações com cães. O uso de ratos e camundongos substitui cada vez mais animais maiores e domesticáveis nos experimentos e que se aproximam muito do homem na escala evolutiva das espécies.

Mesmo nos ratos, camundongos e coelhos, o brilho no olhar expressa um dizer sem palavras. Fui compreender este brilho quando a morte aconteceu em meus braços. A vida pulsa e brilha nos nossos olhos e quando se esvai, como se um botão desligasse e o brilho se apaga de pronto. O olho continua ali, aberto, mas opacifica-se com a morte, um fenômeno incrível!

O prêmio Nobel de Química foi para três cientistas que há 20 anos deixaram de fazer experiências no laboratório e se dedicaram a criar modelos computacionais para que reações sejam feitas por moléculas em 3D, sem grandes laboratórios e equipamentos. Claro que foram chamados de louco na época!

A droga talidomida foi testada em todos os animais de laboratório sem manifestar-se teratogênica em qualquer um, mas no homem provocou a anencefalia e a ausência de membros em mais de 10 mil recém-nascidos entre 1955 a 1965.

A cultura de células e tecidos e o modelo virtual de funcionamento do corpo humano como de nossas células e organelas deveriam dispensar testes em animais. Aviões, carros e trens andam apenas com computadores e programas. Temos tecnologia para dispensar testes em animais! Os avanços da ciência depende pouco dos animais, quem depende de fato é a “indústria da ciência e da tecnologia farmacêutica”! Fica mais barato animais do que equipamentos!

Testes em animais seriam para casos muito especiais. Antes se deveria perguntar: 1. Alguém poderia se apresentar como voluntário pago ou não? Sempre existirão pessoas para servir à ciência! 2. Presidiários se ofereceriam para testes trocando por dias e meses de liberdade ao se submeterem aos experimentos? Pode ser uma forma de pagar por crimes! 3. Familiares dos portadores de doenças não se ofereceriam para os testes que pudessem beneficiar os entes queridos? 4. Pacientes terminais irremediavelmente comprometidos por doenças não poderiam oferecer seu corpo para testes? Alguns se ofereceriam!

Isto me marcou! Um patologista dizia aos colegas: quando morrerem serão recebidos pelas almas dos animais que mataram em suas experiências. Em uma fila dupla te conduzirão para o caminho do inferno e vocês arderão nas chamas inclementes do fogo incessante das trevas! Entre as almas animais, como batedores a abrir caminho, estarão aquelas que morreram nos seus experimentos por negligência, imperícia ou maus-tratos. E todos baterão palmas ao sentir o cheiro de sua carne queimada! Ele era ateu.

Visitar matadouros de animais em frigoríficos e indústrias deveria ser um exercício prático escolar obrigatório. Come carne quem quer, mas deve-se saber de onde e como vêm! Tão cruel quanto os testes científicos, está a morte desses animais para fins alimentares. Já pensou a angústia dos que sofrem na fila: pressentem a morte, o cheiro e os ruídos do sofrimento. O que Hitler fez com humanos, fazemos com e como animais. Na China e outros países “modelos” “produtivos” asiáticos e africanos continuam fazendo com humanos!

Obrigatório deveria ser alunos ver e entender como morrem os peixes: por falta de ar, sufocamento grosseiro! O debater do peixe na linha ou rede traduz o pedido de ajuda e a agonia da morte pela falta de oxigênio: asfixia requintada, tortura explícita de uma vida! Já assistiu como morrem os carneiros! Quem assistiu entende a expressão: o cordeiro de Deus!

O uso dos animais nas pesquisas me levou a refletir também sobre o seu uso como alimento e a forma como se tira sua vida para saciarmos! Relembremos: até o século passado, índios e negros eram considerados criaturas sem alma pela ciência e religião, animais enfim. A conveniência sempre serviu à hipocrisia!

No dicionário: animal = brutal, voluptuoso, lascivo, físico, material, estúpido, grosseiro e cruel. As notícias diárias me confundem: afinal, quem são os “animais” irracionais!

 

Alberto Consolaro é?professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC.

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