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Ciências

Dente: do osso vim e poderei voltar!

por Ciência no Dia a Dia - Alberto Consolaro

12/05/2018 - 07h00

Quando o homem não existia, algumas espécies estavam se adaptando às condições de vida oferecidas pelo planeta. Pretensiosos, consideramos os humanos a espécie mais evoluída!

Agora imagine um ser com boca sem dente, tudo liso quando se passa a língua nas bochechas, lábios e palato! As criaturas precisam comer, mas as vezes não têm alimentos para todos e nem tudo pode ser ingerido, pois precisam ser mastigados antes de deglutidos. Algumas criaturas iniciaram um espessamento nos ossos em volta da boca, hoje conhecidos como maxilares e puderam se alimentar de produtos mais consistentes não gelatinosos e líquidos. Essa elevação hoje é o processo alveolar.

Apesar do enrijecimento local do osso, abaixo da mucosa, algumas criaturas, ao longo dos séculos, precisavam de alimentos mais duros. O osso abaixo da mucosa bucal começou a irromper e aparecer em pontos na boca. Duros e pontiagudos, algumas criaturas passaram a ter dentes de osso, mas era osso enrijecido exposto.

Os séculos passavam e algumas criaturas precisavam comer alimentos rígidos como carnes e frutos. Os pontos de osso expostos precisavam ser mais rígidos e ao mesmo tempo maleáveis. As células abaixo da mucosa que fabricavam o osso, se adaptaram para produzir algo diferenciado, rígido, compressível que corresponde à dentina.

A necessidade de alimentos mais duros ainda, induziu as espécies a criar um tecido mole entre o osso exposto na boca e sua base abaixo da mucosa. Era uma faixa de tecido conjuntivo para amortecer os impactos dos alimentos duros sobre os pontos de exposição dos ossos ou a agora dentina. Este tecido foi se adaptando nos séculos e se chama ligamento periodontal e separa dentes do osso.

Todas as raízes dentárias têm em volta da dentina um tecido mole conjuntivo ligado ao dente por uma camada bem fininha de cemento e ao maxilar, por outra camada fininha dita osso fasciculado. O cemento, o ligamento periodontal e o osso fasciculado são estruturas dentárias. Por isto que todos os dentes têm uma irrisória capacidade de mobilidade, mas nem percebemos! Esta mobilidade amortece os impactos dos alimentos sobre os dentes.

No entanto, algumas criaturas ou animais precisavam comer alimentos mais duros ainda como osso, cartilagem frutos e sementes. Aí a mucosa bucal se especializou em criar uma camada muito mais dura sobre estes pontos de ossos tipo dentina. Esta camada como verdadeiro cristal e resistente é o mais mineralizado e indestrutível dos tecidos: o esmalte dentário!

Em alguns animais, como tubarão e jacarés, formam dentes que vão se revezando, perde e irrompe novos, sem parar, a vida toda! O homem não tem esta capacidade. Troca-se uma vez quando criança, e os dentes ficam de forma permanente na boca.

INTERESSANTÍSSIMO

Olha que interessante: se traumatizar o dente e machucar suas raízes, lesando o ligamento periodontal que une o dente ao osso, poderá ocorrer uma união entre eles chamada de anquilose alveolodentária. Interessante é que o dente, na origem da espécie, veio do osso e volta a ficar integrado ao osso. O osso acolhe e incorpora o dente e, gradativamente, vai reabsorvendo e o substitui por completo.

Isto mesmo, o dente traumatizado e lesado em suas raízes pode virar osso novamente! Depois da anquilose alveolodentária vem a reabsorção por substituição, que pode demorar alguns meses ou anos para se completar, mas sempre acontece.

A Odontologia contemporânea incorporou este conceito. Se vira osso, estes dentes traumatizados com anquilose e reabsorção por substituição, se não contaminados, nem precisam ser extraídos! Deixem eles internalizados por que, agora, devem ser considerados como se fossem tecido ósseo! É só tirar a coroa do dente e recobrir as raízes envolvidas com a mucosa e este procedimento se chama "decoronação".

Alguém pode perguntar: mas poderia se colocar implante nesta região? Daria certo? Sim e isto já se faz com resultados estéticos e funcionais maravilhosos! Conceitos e técnicas evoluem muito rapidamente e a Odontologia como ciência não ficaria para trás! A decoronação seguida de implantes imediatamente colocados já é uma realidade!

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC.