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Ciências

Previna-se do câncer na eleição! Por Alberto Consolaro

06/10/2018 - 07h00

Primeiro vou contar três histórias reais.

1ª). A mulher de um amigo lhe disse mil vezes: se morreres, o máximo que a universidade fará como reconhecimento é enviar uma coroa de flores no velório! E repetia à exaustão: pare de se matar aos poucos, trabalhando como louco, produzindo artigos científicos que ninguém mais lê! Você já tem tempo para se aposentar!

2ª). No corredor do megacongresso, três velhos amigos animados conversavam, fazia tempo que não se juntavam! Um, há 6 anos teve câncer de próstata que superou. O segundo, câncer de testículo e o superou há 4 anos. O terceiro, câncer de intestino há três anos sem mais problemas. Fazem controle e estão superbem!

Apavorado, o casal se aproximou da roda de amigos, dizendo que loucura, colocaram as palestras longe uma das outras, estavam chateados por que iriam perder ou se deslocarem rapidamente para cá e acolá, sem curtir os intervalos. Que falta de respeito! E ainda ficaram mais de 40min na secretaria, onde se viu! Saíram correndo como zumbis pelos corredores!

Depois que o casal se foi, os três amigos se entreolharam e quase em coro disseram a mesma coisa: - nada que um câncer não resolvesse! E deram muitas gargalhadas, afinal estiveram na linha da morte, na beira do precipício e, agora, sabem que o que vale é o que aprendemos e não o que temos ou seremos!

3ª). As pessoas jogavam damas, xadrez, baralho e outros jogos de tabuleiros ou mesa. Eram comuns reuniões para se jogar nos finais de semanas, férias e praias. Me lembro do Imagem e Ação, War, Banco Imobiliário e Varetas. Achava que eram recordações de infância. Me enganei! Passeio pela rua quase todos os dias. Era mais uma loja de videogame e nada mais. Parando com a cachorra, vi crianças de 7 anos, mas outras vezes tinha adultos. Os meninos jogando na mesa, logo procurei celulares e computadores, não vi; só tinha dados, bonecos, cartelas e tabuleiros.

Da loja saiu um rapaz alegre e cabeludo, de bermuda e camiseta, tipo jogador de videogame. Parece que leu minha indagação mental e disse: interessante estes meninos jogando passatempos sem nada de eletrônico, não é? Na hora já engatei na conversa e ele foi me explicando. A loja não tem games eletrônicos, apenas jogos de tabuleiro. Nas estantes lotadas, cada um mais bonito que o outro. E perguntei: como funciona? As pessoas vêm até aqui, pagam na entrada para ficar jogando, sem se importar com o tempo. Fiquei mais encantado ainda, quando li o nome da loja: Lúdica. O educado rapaz ainda disse: ninguém se lembra aqui que existe celular! Mergulham no divertimento e interação!

SE MATANDO!

Vivemos para não se estressar! Estresse era uma vez por ano quando se encontrava um perigo real. Muitos anos passava-se sem estresse. Para situações de estresse agudo e pontual, o organismo fez com que duas glândulas localizadas sobre os rins secretassem elevadas doses de hormônios nas suas corticais e referidos como cortisol, corticosteroides e outros nomes.

Os hormônios da cortical das suprarrenais param com tudo: a prioridade é sangue para músculos, coração, cérebro e os sentidos. O resto perde prioridade para a luta ou fuga. Inflamação e sistema imunológico ficam quase apagados para que possamos sobreviver. Passado o perigo, em minutos ou algumas horas, tudo volta ao normal. O estresse eventual, não faria mal algum! No estilo de vida atual, se é que possamos chamar isto de estilo, toda hora e dias nos estressamos com descargas de hormônios das suprarrenais. Em outras palavras, estamos o tempo todo com inflamação e sistema imunológico deprimidos! E qual o problema?

Todos os dias células defeituosas potencialmente cancerosas aparecem entre os 10 trilhões de células proliferantes. Devem ser reconhecidas, atacadas e destruídas pelas células Natural Killer e linfócitos T, assim como pelos anticorpos. Se estamos deficientes no sistema imunológico estes mecanismos falharão e com facilidade teremos maior probabilidade de contrair câncer na vida! Simples assim.

PERGUNTA FINAL

Vou lhe perguntar com toda sinceridade do mundo: você tem certeza que vale a pena se estressar por causa de eleição? Vale a pena aumentar sua chance de ter um câncer pela eleição? Reflitemos!

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC.