Bauru e grande região

Ciências

Osso bovino impede as doações? Por Alberto Consolaro

16/02/2019 - 07h00

Doar sangue e órgãos requer que a pessoa tenha algumas condições prévias

Perguntaram: é verdade que depois da colocação de "biomateriais", como o osso bovino, nos maxilares não se pode fazer doações de órgãos, incluindo sangue, por toda a vida ou por um ano? O que se coloca no corpo, os pacientes e profissionais devem saber a procedência, os riscos e as consequências!

BASES

Na vida intrauterina construímos uma memória ou lista de proteínas com as quais entramos em contato. Só as proteínas, mas não carboidratos, metais, resinas, silicones e outros. Após o nascimento, nada mais entra na lista. As proteínas que entrarem agora são conferidas para checar se são iguais às nossas. Se forem estranhas, serão eliminadas por fagocitose, reabsorção, dissolução ou necrose.

Quem fica alerta são células macrófagos que, juntos com linfócitos, fazem esta reação chamada imunológica que ocorre todos os dias contra as proteínas dos microrganismos. Quando se coloca osso bovino nas cirurgias para repor partes perdidas e otimizar o reparo, se adiciona muitas proteínas que serão reconhecidas como estranhas. Em meses ou anos o osso bovino será eliminado e no lugar se formará osso do paciente, um tecido em constante remodelação.

O objetivo de se transplantar osso bovino nas áreas operadas é ajudar o coágulo sanguíneo a ficar no lugar e dar origem a novo tecido ósseo mais espesso. O transplante ósseo não ficará para o resto da vida e será reabsorvido e renovado pelo osso do hospedeiro.

Não vai ter resposta imunológica contra o osso bovino de espécie tão diferente? Sim! As células irão reconhecer a estranheza das proteínas e se mobilizarão para reabsorver silenciosamente. Levará meses ou anos, mas aí as partículas ósseas já cumpriram a função de suporte para formar novo osso.

Esse transplante ósseo não poderá influenciar negativamente a realização de outros transplantes? Não, pois as respostas imunológicas são muito específicas para cada proteína. Se receber outro osso bovino, será de um outro animal! Se receber um rim humano, as proteínas são diferentes. Uma resposta imunológica não interfere na outra.

POR QUÊ?

Por que alguns bancos de sangue e nas doações de transplantes não recomendam ou aceitam como doadores as pessoas que receberam osso bovino? O transplante de osso bovino em humanos é muito usado na odontologia em procedimentos cirúrgicos, mas o risco não é 'absolutamente' zero. Sempre haverá um risco, apesar de muito baixo, em se passar doenças por "príons".

As doenças priônicas mais frequentes são Doença de Creutzfeldt-Jakob, Alzheimer e a Síndrome da Vaca Louca ou Encefalopatia Espongiforme nos humanos. Se o osso bovino for bem preparado, seguindo normas internacionais, o uso é seguro, mas sem risco zero. Por isso se deve adquirir produtos com número Anvisa, jamais sem rótulos e bulas, e usá-los em locais não contaminados.

O osso bovino, nos procedimentos, pode ainda ser contaminado por microrganismos da rica microbiota bucal ou do seio maxilar. Nas contraindicações de doações, os procedimentos cirúrgicos anteriores são muito importantes, incluindo, os odontológicos como exodontia e endodontia (https://www.prosangue.sp.gov.br). Nos locais com osso bovino aplicado, pode se ter ainda a anacorese.

A pessoa pode ficar indignada quando souber que não pode mais doar sangue ou órgãos por um tempo por causa do transplante de osso bovino no seu maxilar. Por 4 meses ou 1 ano? É uma janela de tempo, mas não dá para garantir que o osso bovino não exista mais e nem que as doenças não foram transmitidas neste período.

REFLEXÃO

Ao usar "biomateriais" tipo transplantes heterólogos ou xenogênicos como os ossos bovinos, é mandatório explicar de forma simples e repetidamente, até que o paciente tenha plena consciência do que vai ser colocado no seu maxilar ou ao redor do implante. O paciente tem que saber que aquele "biomaterial" é osso bovino e que, ao se propor doar sangue ou órgãos, poderá ter restrições aplicadas com base em protocolos muito bem fundamentados, como têm as tatuagens e piercings! Isto é pelo biomaterial e pelo procedimento cirúrgico!

Quem recebe uma doação não pode ser colocado em risco, pois a sua situação já é de risco! Lembremos que "na medicina e no amor, não há nem sempre e nem nunca!"

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC.