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Ciências

Corpos estranhos em você: e agora? Por Alberto Consolaro

23/02/2019 - 07h00

Cada vez mais os “corpos estranhos” compõem nossas partes!

Além das doenças, temos acidentes! Ficamos feios, moles, flácidos e injeta-se produtos para segurar a pele, diminuir rugas, aumentar partes e até substituí-las. Enfiamos uma variedade enorme de materiais na pele, ossos, mamas, vasos, etc. São membros, válvulas, marca-passos, implantes dentários e capilares e silicones. Há uma indústria de produtos e uma rede de serviços profissionais para atender as necessidades, mas tem-se de uma regulação para manter a qualidade de produtos e serviços. Ganhar dinheiro deve ser a motivação secundária, o estímulo primário deve ser suprir as necessidades humanas.

Quando se coloca algo no interior dos tecidos, o corpo pesquisa na hora: o que é isso? Se for proteína, reconhece e sabe se é própria do corpo ou diferente. A proteína diferente desencadeia uma resposta ou reação imunológica, que a elimina em semanas. Isto acontece com os transplantes ou enxertos de órgãos quando o doador não tem proteínas semelhantes ao do receptor. Esta resposta imunológica, nestes casos, se chama rejeição! Essas proteínas diferentes podem ser chamadas de antígenos.

Se ao checar o que entrou nos tecidos, não tem proteína diferente, não haverá resposta imunológica e nem rejeição ao metal, resina, vidro, cerâmica e outros, haverá sim uma inflamação ao redor. Este mecanismo de defesa atua em volta do material e pode ter dois tipos de evolução.

1ª EVOLUÇÃO

A inflamação leva ao redor do material células poderosas que comem de tudo, a ponto de ser chamadas de macrófagos ou "grandes comedores". Se conseguirem comer ou dissolver o material, em alguns meses não haverá mais nada no local. Isto acontece com gel de ácido hialurônico, colágeno, alguns materiais de tratamento de canal e outros.

Se os macrófagos não conseguirem comer o material, não irão desistir, persistirão para o resto da vida. Ao redor do material e macrófagos na superfície do mesmo, vai se formar uma delicada cápsula fibrosa para delimitar e isolá-lo do resto corpo. Os tecidos vizinhos até ficam normais, mas o material não vai se integrar aos tecidos. Este tipo de inflamação se chama Reação ou Granuloma do tipo Corpo Estranho.

Estes materiais chamados de "corpos estranhos" não têm proteínas na composição! Eles são compatíveis com a vida de quem os possuem no corpo, ou seja, são biocompatíveis, mas não são inertes! É o caso do silicone nas mamas, algumas válvulas, parafusos e pinos, material que extravasam no tratamento de canal, resinas, cerâmicas, vidro, fios de suturas, enxertos de ossos liofilizados e outros. Ao seu redor fica sempre uma fina camada de tecido mole rico em macrófagos, vasos dilatados e fibras colágenas. E se tirar o material? A inflamação desparece e volta tudo ao normal.

2ª EVOLUÇÃO

A inflamação pode desaparecer depois de algumas semanas da colocação e vai deixando os tecidos do corpo se integrarem completamente com o material como se fosse do próprio organismo. Infelizmente, deste jeito, apenas alguns poucos materiais assim conseguem fazer, como por exemplo o titânio dos implantes, zircônio e, quiçá, outros que possam ser descobertos! Este tipo de material pode ser considerado inerte! O ideal seria que todos materiais colocados no corpo fossem inertes!

CONCLUSÃO

Pode-se afirmar que: 1. Quando se aplica um material inerte que se integra aos tecidos normais, a região fica normal, sem inflamação, como se aquele material fosse do próprio corpo, tal como ocorre com o titânio. 2. Quando o material introduzido induz uma inflamação e encapsulamento, sempre haverá chance maior de bactérias chegarem ao material pelo sangue e provocar problemas como sintomatologia com desconforto, vermelhidão e formação de pus. Isto se chama "Anacorese" ou fixação de bactérias, via sangue, em locais previamente inflamados!

Ao colocar qualquer material no corpo tem que se perguntar: 1. Para que? Por quê? Como? O que pode acontecer? É seguro? Você pesquisou antes com outras pessoas? O corpo de cada um é a casa sagrada de sua mente, pensamentos e sentimentos que permitem dizer: estou vivo e mereço respeito! Perfeito é o corpo natural, o que se colocar dentro dele até pode melhorar, mas pode piorar também.

Fique atento!

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC.