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Ciências

É você que sabe muito, amigo! Por Alberto Consolaro

02/03/2019 - 07h00

Com o tempo, algumas pessoas ficam desanimadas quando convivem ou trabalham com adolescentes e jovens. As três frases mais comuns destas pessoas quarentonas são:

1 - os jovens estão muito despreparados, pouco sabem e parecem que não querem nada com nada!

2 - Quando era jovem, nós sabíamos muitas coisas e hoje eles não sabem nada!

3 - No meu tempo, as crianças e jovens eram mais inteligentes e cultos!

Quem trabalha com crianças, adolescentes e jovens, a cada ano eles se renovam e novas turmas ou pessoas adentram no trabalho ou na escola com esta mesma idade. Alunos por exemplo de uma universidade, tem sempre 17 a 23 anos. O seu grau de conhecimento e de experiência corresponde a uma bola pequena.

A interface desta bola pequena da juventude com todo o conhecimento, acumulado na evolução da civilização, é muito pequena. Tão pequena que pode passar a este adolescente a impressão que ele sabe muito, pois o contato que tem com o conhecimento universal é tão restrito à superfície da pequena bola, que parece a ele ter pouco a aprender! A coragem, o destemor e a quase irresponsabilidade tem a ver com o pouco conhecimento e cultura. Por isto que os mais jovens são mais ousados e destemidos, pois não tem ideia real da magnitude do mundo.

RACIOCÍNIO

Você com mais de 40 anos olha e diz: que pena, no meu tempo eu não era assim! Mas, era. O tempo foi passando e sua bola pequena foi crescendo e ficando cada vez maior. A sua interface com o conhecimento universal foi aumentando e a cada vez, aumenta mais e a bolinha dos mais jovens que estás em contato, como alunos e funcionários, continua sempre como os que tem 17 a 23 anos.

Não é a bolinha dos adolescentes e jovens que não crescem, é por que, na sua realidade, eles se renovam sempre e estão com 17 a 23 anos. E a sua bola não para de crescer, ficando cada vez maior que a deles. Pode te dar a impressão que não evoluem, mas é você meu caro e velho amigo, que está ficando melhor e crescendo.

Quando começou a trabalhar e ter contato com jovens e adolescentes, vocês se achavam sabidos, inclusive você cuja bolinha era semelhante às deles. Agora os consideram piores do que os jovens e adolescentes de sua época e é claro que não são. Podem ser iguais e diferentes, piores nunca e, bem provavelmente, são melhores com a tecnologia e evolução do tempo. Agora já sabes: não são os adolescentes e jovens que estão cada vez piores, é você que ficou e está ficando cada vez melhor! Admire-se rapaz!

Esta é a razão daquela sua impressão de quanto mais estuda, mais se tem a impressão que nada sabe. Claro que é assim mesmo! Quanto mais você aumenta sua bola de conhecimento e saber, em relação ao conhecimento universal, você vai aumentando sua interface com ele, lhe passando a ideia de que ainda tem muito a aprender. Sempre terás!

Se a interface de sua bola de conhecimento e saber fosse pequena, você teria a impressão de que sabes muita coisa e teria pouca coisa a aprender! Por isto que os incultos e ignorantes são soberbos e autoritários. Se "acham", pois, pensam que sabem muito e tem pouco aprender, mas a sua bolinha de interface com o conhecimento universal é ridícula, de tão pequena. Assim nasce o orgulho, pedantismo e todos os seus lamentáveis derivados. Quem sabe muito tem a noção de que por mais que saiba, ainda é muito pouco diante do todo.

INCRÍVEL

Quem nos ensinou a pensar, refletir e ver o mundo, como ainda fazemos hoje, foram os gregos, especialmente Sócrates, o pai do pensamento ocidental. É de Sócrates esse pensamento: "quanto mais eu sei, mais sei que eu nada sei!". A medida que aumentamos nosso conhecimento individual aumenta a interface com o desconhecido no saber universal, e mais sabemos que ainda há muito o que aprender. Essa sensação captada por Sócrates significa que estamos no caminho certo!

As evidências indicam que Sócrates não era alfabetizado, por isto não deixou nada escrito. Tudo sobre ele e dele, foi escrito por um de seus mais brilhantes alunos que foi Platão. Quando falamos, lemos e escrevemos estamos praticando o pensamento socrático! Sócrates e Cristo não liam e nem escreviam, mas foram o máximo em tudo que se possa pensar! Eles indicam que escolaridade, não necessariamente, tem a ver com inteligência, ciência e cultura.

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC.