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Ciências

Implante dentário faz bem e não mal! Por Alberto Consolaro

09/03/2019 - 07h00

Maquiavel ensinou que para ganhar uma discussão basta desqualificar o adversário! Quando se lança um produto, alguns desqualificam o concorrente em vez de ressaltar as suas vantagens. Na política, muitos usam desta estratégia, o que me parece lamentável. É por isso que lançamentos e novidades se conhece lendo trabalhos imparciais em revistas científicas, livros e outras mídias, já que a literatura fornecida pelo fabricante tende a ser parcial.

Se tem mais de duas mil marcas comerciais de implantes dentários de titânio, um metal que o organismo não reconhece como agressivo e nem como estranho ao corpo. Os tecidos o aceitam como fosse mais um dos seus componentes. Os implantes mudaram por completo a Odontologia como antes e depois do seu surgimento. A indústria farmacêutica e de produtos relacionados à saúde representam a maior movimentação financeira mundial, muito mais do que qualquer outra área, incluindo-se a de energia que fica em segundo lugar.

Quando se procura, e com certeza se achará, outros produtos como zircônia, biovidro, cerâmicas e metais para substituir o consagrado titânio, os concorrentes procurarão achar defeitos para desqualificá-lo. Na guerra comercial, Maquiavel encontra seus mais leais admiradores.

Os lançamentos de novos materiais devem seguir os preceitos científicos. As pesquisas que mostram os resultados bons ou ruins devem ser publicadas em revistas e mídias independentes de interesses, não deveriam ser financiadas ou realizadas em laboratórios dos próprios fabricantes. Parece óbvio que o fabricante de um medicamento não vai financiar trabalhos para mostrar resultados ruins de seus produtos. Até podem financiar pesquisas para desqualificar o produto concorrente, usando-se o modelo maquiavélico!

Em ciência, as pesquisas devem ser feitas por pessoas independentes, livres de interesses. O leitor de um trabalho deve ser informado, mesmo que nos rodapés, o local onde foi feita a pesquisa, quem financiou e em que universidade. Deve-se levar em consideração quais são os interesses possíveis daquelas pessoas com os fabricantes que se beneficiariam daqueles resultados.

TRÊS REAÇÕES

1. A resposta imunológica e suas células, como linfócitos e macrófagos, apenas reagem com componentes diferentes que apresentem proteínas na estrutura. Os implantes de titânio não têm proteínas, ficando impossível imaginar o sistema imunológico reconhecer e combatê-lo, rejeitando! A rejeição é um evento imunológico contra órgãos, tecidos e produtos que tenham proteínas diferentes. Os implantes osseointegráveis de titânio são "corpos inertes" que não induzem reações ao redor e permitem a integração dos tecidos nas superfícies.

2. Outros metais como aço, platina ou níquel e materiais como vidro, resinas e cerâmicas quando entram no corpo também não induzem rejeição, mas o organismo reconhece-os como diferentes e pedem para as células inflamatórias isolarem-no, formando um aglomerado de células ao redor conhecido como granuloma de corpo estranho. Os tecidos não se integram na sua superfície, embora não tenham proteínas. Estes produtos são chamados de "corpos estranhos".

3. Se o que entrar no corpo, tiver proteínas estranhas, o sistema imunológico reconhece e faz as células e seus produtos destruírem, acabando com o que foi colocado. Isto acontece com órgãos e tecidos transplantados, bactérias, fungos e parasitas. O que tem proteína chama-se "antígeno" e vai ser imunocombatido e rejeitado.

REFLEXÃO

Tem uns poucos trabalhos de pesquisa que procuram desqualificar os implantes de titânio, como a preparar terreno para novos materiais. Os implantes osseointegráveis de titânio até hoje representam a forma mais segura e eficiente de substituir dentes perdidos! Se outros materiais funcionarem, serão mais uma opção para os profissionais e pacientes! E, para ser bons, se for o caso, não precisam seguir Maquiavel.

Induzir confusão nos pacientes e profissionais não interessa a ninguém, a não ser que se queira imitar o gato Garfield quando diz: "se não puderes convencê-los, confunda-os". Credo!

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC.