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Ciências

Você é gentil e educado ou um ogro? Por Alberto Consolaro

16/03/2019 - 07h00

Esta é a frase e o ensinamento mais marcante do Profeta Gentileza: o Agradecido!

Nestes dias, a lembrança do "Profeta Gentileza" não me sai da cabeça. As boas maneiras, gentileza e elegância têm testes que podem ser fatais:

1º) O modo de dirigir no trânsito, a paciência e o palavreado para se referir ao carro da frente que não sinaliza ou que freia bruscamente, é um belo teste para se conhecer uma pessoa;

2º) O comportamento ao participar de passatempos competitivos, como jogos de baralho, futebol e biribol, pode revelar que és um grosseiro enrustido. Palavrões e xingamentos te denunciarão;

3º) Passar minutos ou horas com fome até chegar a refeição permite conhecer o humor e a elegância das pessoas. Alguns se tornam ogros nestes momentos e distribuem patadas e grosserias.

QUEM FOI?

Em dezembro de 1961, houve um incêndio criminoso no "Gran Circus Norte Americano", em Niterói, no qual morreram 500 pessoas, a maioria crianças. Uma semana depois, o empresário José Datrino foi consolar as vítimas, abandonou sua vida e mudou-se para o local, criando-se ali um jardim florido onde morou.

A partir daí, tornou-se um andarilho pelas ruas, ônibus e barcas do Rio de Janeiro, pregando a bondade para as pessoas com mensagens simples. A sua marca e frase maior ficou gravada na memória dos mais antenados e intelectualizados até hoje: "GENTILEZA GERA GENTILEZA!". Era comum ele oferecer flores para as pessoas que cruzavam seu caminho como um gesto de gentileza.

Nascido no Interior de São Paulo, em Cafelândia, José Datrino amansava animais e, quando optou por viver nas ruas do Rio e pregar boas mensagens às pessoas que acessava, ele dizia ser "um amansador dos burros-homens da cidade que não tinham esclarecimento." Para Gentileza, o nome que foi dado a este filósofo popular, a falta de sabedoria e a maldade do homem eram culpa do "capetalismo", em alusão ao capitalismo.

LIÇÕES

Estão assustadores o ambiente e as formas de tratamento entre as pessoas, de um modo geral, nos dia de hoje. A grosseria, desconfiança, maltratos, preconceito e intolerância campeiam por entre todos os contatos pessoais e virtuais nas chamadas redes (anti) sociais. Em muitas situações, eu simplesmente me calo e, discretamente, se der, saio de fininho para não compartilhar ou testemunhar estas manifestações da estupidez humana.

Para o grande público, as mensagens mais famosas de Gentileza foram as pintadas em 1980 nas 56 pilastras do Viaduto do Gasômetro, quase um painel de 1,5 km de extensão, perto da rodoviária carioca, talvez propositadamente para receber os turistas da Cidade Maravilhosa. Elas diziam: "Meus filhos, bem-vindo ao Rio... Gentileza gera gentileza, amor beleza perfeição bondade e riqueza". Depois de sua morte, as obras e pertences do filósofo popular foram valorizados pelo projeto Rio com Gentileza, da Universidade Federal Fluminense, e do qual gerou-se o livro "Brasil: Tempo de Gentileza", do professor Leonardo Guelman.

Gentileza também era conhecido como "José Agradecido, o Profeta". Suas frases e visões de mundo eram espetaculares e de uma clareza e explicitude cirúrgicas. Coisas do dia a dia, ele usava para induzir as pessoas a refletir, como:

1 - Não use "por favor", pois sugere troca de conveniências. Diga "por gentileza" por sermos gente;

2 - Fale "agradecido" no lugar de "obrigado", para não passar a ideia de obrigação ou dever;

3 - Não use problemas e pobreza para justificar nada; no lugar, use amor e gentileza para conseguir ou dar o que queiras!

4 - Aos que lhe ofereciam esmolas, recusava dizendo: "Não quero seu dinheiro. Quero seu espírito para Deus!"

Na história, Gentileza é referenciado como um célebre pregador urbano por suas túnicas brancas e barba longa, mas, verdadeiramente, foi um consolador voluntário para familiares e vítimas de tragédias com suas palavras de bondade, amor e respeito ao próximo e à natureza. Aos que o chamavam de louco, ele respondia: "Sou maluco, mas é para te amar e louco para te salvar".

Como seria bom ter um "Gentileza" em cada bairro para nos ensinar e dar exemplo! E você, és gentil ou se comporta como um ogro?

Reflitemos!

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC.