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Ciências

Aposentadoria e a escolha da morte! Por Alberto Consolaro

30/03/2019 - 07h00

Quando se discute aposentadoria, lembramos das condições de vida das pessoas idosas. A partir de quando a pessoa merece um descanso e vida mais tranquila, sem os agitos diários, incluindo os financeiros e sociais. Se não for assim, para que aposentar?

Talvez fosse interessante discutir não só a idade mínima, mas uma idade máxima para a aposentadoria. Claro que é cruel um profissional com 65 anos, na plenitude da sabedoria, se aposentar obrigatoriamente, mas talvez seja necessário para planejarmos melhor a vida e termos a humildade para pensarmos mais cedo sobre esta característica marcante da espécie: a sua finitude. Já pensou: a partir de tal idade, ninguém mais poderia trabalhar em qualquer atividade! Pense nisto e verás que surgirão posições e reflexões muito interessantes: afinal, aposentar é prêmio ou castigo? O que achas?

Algumas frases são comuns: - Acho que Deus esqueceu de mim! Ou: - Estou aqui a esperar o chamado dos céus! Tem ainda: - Ah, se eu pudesse já teria ido embora! Isto leva à reflexão: - Até quando vale a pena viver? Qual seria o critério mais comum que as pessoas usariam para dizer: - Este é o limite, a partir de agora o melhor seria morrer!

REFLEXÕES

É comum o político dizer: - O aposentado vai viver mais de 20 anos depois dos 60 e vai sobrecarregar o sistema financeiramente! A sociedade quer ou não que as pessoas vivam mais? Se sobrecarregam o sistema, que parem as pesquisas para prolongar a vida, dar mais saúde aos idosos e os tratamentos contra o envelhecimento!

Se o sistema reclama dos velhos e suas necessidades, talvez, como algumas sociedades já fizeram, devemos pensar em dar o direito e a liberdade de decidirmos até quando queremos viver! Claro que citarão dogmas e preceitos religiosos e filosóficos sobre a vida, mas discutir como aposentar e como viver depois disto, também envolve sentimentos como generosidade, bondade, aceitação, abnegação financeira e padrões de vida em favor do outro.

Aposentar e morrer são coisas próximas e é isto que está em discussão. Devemos ou não dar prioridade ao lado humano ou ao sistema financeiro preocupado com os investimentos, especialmente os bancos e seus planos de previdência? A decisão está para ser tomada e devemos refletir muito, pois é mais amplo que imaginamos!

TIPOS

Por estas e outras, é interessante lembrarmos alguns tipos de morte que podemos discutir e autorizar junto com a reforma da previdência:

Eutanásia: morte voluntária que pode ser induzida por uma injeção aplicada pelo médico a pedido da pessoa. Serviço disponibilizado em alguns países para doentes considerados terminais pelos serviços de saúde pública. O processo é livre de dor e riscos. Ao chegar o paciente toma o coquetel de drogas via bucal, juntamente com uma bebida doce, ou a mesma é injetada na veia. Em dois a cinco minutos o paciente dormirá, entra em coma profundo e para de respirar.

Ortotanásia: procedimento no qual, a pedido do paciente terminal ou seu representante legal, o médico cessa o tratamento que lhe mantem vivo em condições precárias. Está autorizada inclusive no Brasil com orientações do Conselho Federal de Medicina.

Suicídio assistido: uma pessoa auxilia a outra a se matar voluntariamente na forma escolhida. A pessoa que auxilia não pode ser remunerada por esta atitude e nem ser beneficiário da herança deixada. Procedimento regulamentado na Suíça, inclusive para estrangeiros.

Suicídio assistido por médico: o profissional médico receita uma droga letal ao paciente que escolhe o melhor momento para ingeri-la. Este procedimento está autorizado e regulamentado em vários países e alguns locais dos EUA.

Na Suíça, a empresa Dignitas ajuda centenas de pessoas a abreviar vidas e sofrimentos e conta com mais de seis mil pessoas cadastradas que pagam um plano de morte. Quando decidirem, se dirigem até o país e morrem assistidas por profissionais. A inscrição segue um protocolo com informações e análises detalhadas, mas se tenta induzir o paciente a desistir por convencimento.

No caso do suicídio assistido, 14% dos pacientes acabam se matando, mas os demais desistem.

AFINAL

Aposentar é prêmio ou castigo?

Reflitamos!

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC.