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Ciências

O sarampo começa pela boca! Por Alberto Consolaro

06/04/2019 - 07h00

Manchas de Koplik ficam internamente nas bochechas, duram 24 a 48h e desparecem quando a pele começa a ser afetada pelo sarampo!

Não consigo acreditar que um continente ou país inteiro que estava livre de uma doença como o sarampo, volte a apresentar milhares de casos, ameaçando suas crianças e adultos.

PARALELO

Vejo campanhas para tirar criadouros dos mosquitos para se evitar a dengue, zika e outras doenças virais. Lá vem caminhões recolhendo lixo dos quintais e terrenos, mas uma tampinha de garrafa de água ou cerveja, representa uma piscina para larvas e mosquitos. Os pequenos acúmulos de água sutis, explicam porque não adianta "limpar" o macro, tem que se remover o micro! Mas aí, só com consciência coletiva, o que me parece muito difícil.

Quando passo pelas ruas, vejo inúmeros criadouros despercebidos. Irregularidades na calçada, buraquinhos no asfalto, defeitos nas sarjetas, sem contar tampas, canetas, capinhas, botões, grampos, enfim o que possa acumular gotas de água limpa! Têm ainda calhas, telhas e tijolos expostos: será que tem algum lar sem acúmulos que possam criar mosquito?

SARAMPO

Na entrada da cidade alemã estava escrito: "Aqui a cidade é limpa, por que não a sujamos", simplesmente assim! Não precisa limpar, por que as pessoas não jogam nada, nem pequeninos papéis ou fragmentos do que seja! Com o sarampo não tem jeito de culpar mosquitos ou sujeiras, pois o contato interpessoal é o que contagia! A culpa é do próximo que não se vacinou. Por que não se vacinou? Inacreditável e só resta a ignorância como explicação. O sarampo é uma doença viral altamente contagiosa e o homem é o único reservatório na natureza. Não podemos culpar animais e vegetais! Temos que assumir.

Em 8 a 13 dias depois do contato com o "Paramixovirus", pode se iniciar os primeiros sinais e sintomas do sarampo que duram 3 a 5 dias. Estes sinais iniciais são chamados de "prodrômicos" e representam a antessala da doença. São febre de 40-41 graus, conjuntivite, dor de garganta, espirros frequentes, coriza e tosse seca. O contágio é feito com secreções e objetos com o vírus, especialmente as gotículas microscópicas que saem da boca e nariz durante a respiração, tosse e na fala. Elas são conhecidas como gotículas de Pflugge ou Flügge, descritas pelo bacteriologista alemão Carl Flügge quando estudava a transmissão da tuberculose. Elas podem secar nos objetos e permanecerem contagiosas.

Doenças como o sarampo, assim como a rubéola, dengue, zika e outras são chamadas de "febres exantemáticas", pois depois de três dias de febre alta, vem um vermelhão em manchas irregulares da pele chamado de exantema e que caracteriza o período clínico ativo da doença.

O exantema no sarampo começa da cabeça para baixo, iniciando-se atrás das orelhas, se direcionando da face para o pescoço e o corpo. Os linfonodos inflamam e geram a popular "íngua" e o baço aumenta o seu volume, acentuando os sintomas respiratórios. O sarampo pode levar ao óbito em até 10% dos pacientes, sendo mais grave nas lactantes e nos adultos. Depois de 4 a 7 dias de doença ativa, o exantema tende a secar e ocorre a descamação cutânea.

NA BOCA

Dos sinais prodrômicos ou iniciais do sarampo, o mais inicial deles, aparece na boca, especialmente na bochecha internamente, embora possa acontecer no palato mole e lábios. São conhecidos como pontos ou machas de Koplik. O médico nova-iorquino Henry Koplik (1858-1927) foi o primeiro a perceber em 1898 que, antes do sarampo aparecer na pele, surgem pontos ou manchas pequenas brancas na mucosa das bochechas.

As manchas brancas de Koplik têm 1 a 3mm e uma base eritematosa ou vermelha, localizadas na altura dos primeiros molares superiores e da abertura do ducto parotídeo. Duram 24 a 48h e representam uma necrose focal do epitélio das glândulas salivares mucosas menores que forma vesículas cheias de liquido seroso cheio de células de defesa e vírus. Quando começa o exantema na pele, as manchas de Koplik desaparecem e a mucosa volta ao normal.

REFLEXÃO FINAL

As manchas de Koplik são típicas ou patognomônicas e muito úteis para o diagnóstico clínico precoce do sarampo. Os antigos diziam, e ainda continua valendo dizer, que a boca reflete a saúde da pessoa como um todo! Qualquer bom exame clínico em todas as especialidades, começa pela boca: aprendamos!

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC.