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Ciências

Alinhador transparente funciona? Por Alberto Consolaro

13/04/2019 - 07h00

O primeiro tratamento ortodôntico na história foi descrito pelo enciclopedista romano Celso (25 aC - 50 dC). Em 30 dC, relatou o alinhamento de um incisivo central superior no arco dentário de um menino, pela pressão continuada e repetitiva dos dedos, provavelmente de sua mãe. O primeiro aparelho foi descrito em 1728 pelo francês Pierre Fauchard.

Os alinhadores dentários transparentes representam uma forma bem suave e discreta para alinhar os dentes discretamente deslocados no arco dentário, sem interferir muito no visual facial. Estes pequenos deslocamentos dentários nem sempre interferem na oclusão e nem tanto na estética. Peças publicitárias dizem que o "alinhador transparente é um aparelho ortodôntico substituto do tradicional braquete!". A maioria dos problemas ortodônticos não são resolvidos desta forma, apenas os desalinhamentos no contexto do arco dentário. Os alinhadores transparentes se encaixam aos dentes externamente como uma placa acrílica ou de plástico. Eles têm limitações de indicação e aplicações que, nem sempre são respeitadas, mas podem ser considerados procedimentos ortodônticos.

Molda-se ou escaneia a boca do paciente e envia para a empresa. Por um programa/software, ela fabrica placas sequenciais para um deslocamento gradual do dente. Em uma das faces onde se encaixa o dente, o material do alinhador é "aumentado" para empurrar o dente para o local desejado. A cada placa se desloca um pouco mais o material, forçando o dente chegar onde se quer! O software/ortodontista que recebeu o modelo ou as imagens 3D do paciente, calcula o quanto adiciona de deslocamento de material a cada placa sequencial e as enviam para o ortodontista clínico aplicar no paciente.

Ganha o profissional que molda ou escaneia, a empresa e o paciente, se satisfeito. O planejamento não é feito diretamente pelo ortodontista, mas sim pela empresa via software/ortodontista. A maior crítica que os sistemas de alinhadores recebem, é que não corrigem todos os casos e não entregam o que prometem, pois é comum a indicação não ser adequada. Algumas empresas se abstém de confeccionar alinhadores para situações clínicas equivocadas enviadas por profissionais menos informados. Os alinhadores transparentes não servem para substituir os aparelhos ortodônticos, mas para corrigir casos específicos e de pequenas dimensões.

QUESTIONAMENTOS

Um profissional que aplica alinhadores em placas transparentes deve ter a capacidade precisa para indicar bem esta técnica, pois no final do processo pode não atender às expectativas iniciais do paciente, mas algumas perguntas inquietam: 1) Se o planejamento é feito pela empresa para a qual o profissional da odontologia captura as imagens no escaneamento ou nas moldagens, um ortodontista especialista seria mesmo necessário? 2) Não se poderia capturar os pacientes na internet, shopping center, parques, lojas e quiosques, em que a captura de imagens dos dentes seria feita por funcionários treinados? Os alinhadores seriam, depois, entregues aos clientes em casa ou na loja, sem intermediação do ortodontista!

REALIDADE

Exatamente isto ocorre nos EUA: a empresa SmileDirectClub abriu mão dos ortodontistas e envia os alinhadores diretamente aos pacientes pelo correio, barateando o custo final. Os kits para o registro de imagens e impressões de pacientes são vendidos em lojas famosas e redes de farmácias. A SmileDirectClub tem participação acionária da Align Technology, dona da Invisalign, a marca mais famosa.

E agora? Deixemos isto por conta do mercado sem a participação de ortodontistas e sem regulação e fiscalização dos Conselhos? A dermatologia convive com empresas e profissionais não médicos que oferecem serviços e produtos sem interferência. Deveríamos ser assim com os alinhadores e clareadores?

POR FIM

Alinhadores transparentes funcionam, desde que muito bem indicados e utilizados de forma adequada pelos pacientes, o que representa uma pequena parte dos que os utilizam, segundo especialistas ouvidos. Os pacientes devem estar muito bem esclarecidos sobre estas limitações para o bem da ciência e arte!

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC.