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Ciências

A essência: nascemos para pensar! Por Alberto Consolaro

por Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC.

04/05/2019 - 07h00

A essência é algo que caracteriza unicamente um ser ou objeto. Essência é a mais básica, a mais central, a mais importante característica de um ser ou de algo, que lhe confere uma identidade, um caráter distinto. A essência do ser humano é pensar! A pedra não percebe, o animal percebe e sente, o ser humano percebe, sente e além disso associa suas percepções e experiências, dando-lhe significado, um sentido geral, uma explicação. O humano pensa e essência de João é pensar! A partir daí todas as suas características decorrem desta essência como o sorrir, falar e chorar.

A filosofia é a filha da razão e a mãe de todas as demais ciências. Quando o ser humano se viu diante de um meio desconhecido e assustador, procurou se apaziguar para se sentir mais adaptado, interpretando e explicando-o. Para isto o humano usa as palavras que podem substituir coisas e fatos, desta forma, pensa-se de olhos fechados longe dos acontecimentos e de forma abstrata.

A ESSÊNCIA

Quando se refere à essência da universidade é muito comum se confundir com suas finalidades ou objetivos. Repetidamente se ouve que a universidade tem que cumprir o tripé "ensino, pesquisa e prestação de serviços à comunidade". É triste ouvir discursos de dirigentes universitários como diretores, pró-reitores e reitores nos quais afirmam que a universidade se baseia neste tripé. Triste porque denota uma ignorância sobre a essência da instituição "universidade".

Eis o tripé! 1. O ensino não é atividade privativa da universidade, ocorre nos colégios, escolas profissionalizantes, centros de estudo e outras organizações, sem com isso assumirem um caráter universitário. 2. A pesquisa também pode ser realizada em institutos e centros de pesquisa, nas indústrias e outras instituições com produção de alto nível e nem por isto são universidades. 3. O caráter assistencial de serviços de saúde, jurídico, espiritual e administrativo em várias entidades sociais como clubes de serviço, serviços sociais e igrejas, não dá a estas organizações um caráter universitário.

O que caracteriza exclusivamente a universidade na sociedade é a sua essência que está na missão de formar cidadãos com capacidade analítica crítica, seres pensantes com competência para decidir com sabedoria e julgar com precisão. Não há nada mais destituído de qualquer propósito alguém afirmar que a universidade está aí para dar um ofício ao aluno, ensinar uma profissão, para depois voltar para sociedade e ganhar o seu dinheiro! Este pensamento é uma negação da essência da universidade!

A universidade existe para ensinar a desenvolver o espírito crítico de seus estudantes e o seu próprio julgamento. Educar para a universidade significa ensinar a pensar sozinho.

Os indivíduos assim formados devem ser capazes de pensar e criticar com independência e saber transmitir à sociedade este espírito. Esta é a essência da universidade. O produto da universidade não é a quantidade de trabalhos publicados, o número de pacientes atendidos e nem mesmo a quantidade de graduandos. O produto da universidade deve ser a quantidade e a qualidade de profissionais que forma como cidadãos pensantes, críticos, analíticos e participativos na sociedade. A vida não cabe no Lattes!

REFLEXÃO

A principal peste a campear e semear na universidade está na soberba intelectual, produto da petulante superioridade, geradora dos donos da verdade ou eminências pardas. Na universidade exige-se o pensar com a liberdade para a discussão, para seja um excelente centro de ensino, pesquisa e prestador de serviços, mas a sua essência será sempre o pensar! E pensar exige discordar, criticar e ser diferente!

Quando se vem a público dizer que quer acabar com o ensino da filosofia e das ciências humanas nas escolas e universidades, é o mesmo que afirmar que se quer seres acéfalos, sem cérebros com capacidade para pensar, apenas que trabalhem e não contestem! Mas, verdades absolutas assim não existem, já dizia Raul Seixas. Os verdadeiros faróis da espécie humana não falam ou escrevem livros com verdades absolutas e jamais orientariam pessoas a obedecê-las e sim a questioná-las, a não ser que seja um "pseudo-farol", ou mesmo, um idiota!

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC.