Bauru e grande região

Ciências

Por que erramos com as vacinas? Por Alberto Consolaro

11/05/2019 - 07h00

Por tabus, preconceitos, ignorância e conveniência, não gostamos de reconhecer que erramos, resistimos até o fim e não damos o braço a torcer! Por isto que adoro a resposta de Adriana Calcanhotto quando lhe perguntaram: Por que você faz cinema? Ela disse: Para chatear os imbecis. Para não ser aplaudido depois de sequências de dó de peito. Para viver a beira do abismo. Para correr o risco de ser desmascarado pelo grande público. Para que conhecidos e desconhecidos se deliciem. Para que os justos e os bons ganhem dinheiro, sobretudo eu mesmo. Porque de outro jeito a vida não vale a pena. Para ver e mostrar o nunca visto, o bem e o mal, o feio e o bonito. Porque vi "simão no deserto". Para insultar os arrogantes e poderosos quando ficam como "cachorros dentro d'água" no escuro do cinema. Para ser lesado em meus direitos autorais!

1-BIN LADEN

Tudo que aqui comemos, vestimos, assistimos e votamos na colônia é comandado pelo capitalismo selvagem da matriz que escolhemos para seguir! Bin Laden não era localizado e apelaram para a área da saúde. Em relatos da Science e The Guardian, a CIA aliciou Shakil Afridi, um médico do serviço público do Paquistão. Suspeitava-se que na cidade de Abbottabad viveria Bin Laden, mas desconheciam o local exato. A CIA já tinha o DNA da sua irmã. O médico e técnicos de saúde "anunciaram" e armaram uma campanha de vacinação contra a hepatite B na cidade, especialmente onde suspeitavam que morava Bin Laden.

Técnicos eram orientados a administrar a vacina e colher o sangue das crianças, numa manobra rápida e disfarçável. Ao comparar o DNA das crianças "vacinadas" com o da irmã de Bin Laden, identificaram seus filhos e moradia. O governo estadunidense confirmou que a vacinação fez parte da estratégia para localizar e capturar o inimigo número um!

Será que certas pessoas podem pronunciar a palavra ética? Prometi a um amigo nunca mais implicar com o fato dele recusar-se a tomar vacinas!

2-AUTISMO

Vacinas envolvem muitos interesses. Alguns são comerciais, envolvendo dinheiro e outros, a fama! Em 1998, o médico Andrew Wakefield, do "Royal Hospital School of Medicine", de Londres, publicou na prestigiada revista científica "Lancet" um estudo que relacionava a vacina tríplice antiviral (sarampo, rubéola e caxumba) com o desenvolvimento de autismo nas crianças.

Outros pesquisadores médicos tentaram observar o mesmo efeito, mas não conseguiram. O médico desonesto Andrew Wakefield teve seu diploma de médico cassado, pois comprovou-se que ele e o hospital recebiam dinheiro de advogados para "pesquisar" o assunto e embolsaram gordas indenizações do governo britânico.

Os pais das 12 crianças também participavam do esquema. Esta "verdade" ganhou o mundo e até hoje alguns pais acreditam nisto, mas foi uma fraude escandalosa. Lamentável!

3-HPV-CRIANÇAS

A vacina para HPV (vírus do papiloma humano) foi lançada em 2006 para as meninas e assim evitar-se o câncer cervical uterino. Apenas 6 anos depois, os médicos passaram a recomendar a vacina para os meninos. A vacina foi criada para prevenir o câncer uterino, mas hoje há uma crescente onda de câncer de boca e orofaringe nos meninos, 5 vezes maior e mais vulneráveis do que nas meninas. As pessoas têm mais parceiros e iniciam-se no sexo oral mais novas, transferindo o vírus para a boca e garganta.

Depois de muitos anos, a taxa de vacinação dos meninos se "igualou" à das meninas com 68,56% e 62,6%, que eu diria ainda muito baixas para ambos. Ainda se tem muitos "tabus religiosos e familiares" para se vacinar as crianças para o HPV. Muitos adultos não tomaram a vacina e ela é profilática, e não curativa. O câncer bucal ligado ao tabagismo, incluindo o narguilé, o cigarro eletrônico e o tabaco de mascar estava e está caindo desde 1960, no entanto, o HPV suplantou, em muito, o tabaco como a principal causa. O álcool e o sol, além de produtos químicos que passam pela boca, continuam atuando do mesmo modo!

REFLEXÃO

Erramos e continuamos a errar, mas será que erramos apenas com as vacinas? Não gostamos mesmo de reconhecer que erramos, resistimos até o fim e não damos o braço a torcer! Isto me faz pensar: nascemos bons e pioramos ou nascemos ruins e melhoramos com o tempo?

Reflitemos!

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC.