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Ciências

A anestesia geral e a consciência! Por Alberto Consolaro

01/06/2019 - 07h00

Um anestesista inglês chamado Ian Russel não era uma pessoa comum. Inquieto, participava de partos e cirurgias em um hospital a quatro horas de Londres e ainda escrevia artigos sobre o tema. Em 1993, Ian resolveu fazer algo menos ortodoxo e se propôs a monitorar 32 mulheres para descobrir se na mesa da cirurgia a pessoa sob anestesia geral perderia a consciência.

Obviamente você logo relaciona anestesia geral com algo sedativo, analgésico e relaxante muscular, pois em segundos a pessoa apaga totalmente. Antes de toda cirurgia ela colocava um manguito ou aparelho de medir pressão bem apertado no antebraço direito da paciente para evitar que o relaxante muscular chegasse até a mão da mulher.

Em seguida, a mulher recebia a anestesia geral, apagava e os médicos começavam a cirurgia. Ian colocava um fone de ouvido na mulher com os seguintes dizeres: "Se você consegue me ouvir, abra e feche os dedos de sua mão direita". Se a mulher mexesse a mão, ele tiraria o fone de ouvido e lhe diria ao ouvido: "Se você puder me ouvir, aperte meu dedo". Se a paciente fizesse isso, ele pediria que apertasse de novo, caso estivesse sentindo dor. Caso isto ocorresse, ele daria um pouco mais de sedativo para dormir mais profundamente.

O resultado do trabalho de Ian foi impressionante! Das mulheres, 70% das mulheres apertaram o dedo, pois estavam conscientes mesmo sob anestesia geral. Em 60% dos casos, as mulheres apertaram pela segunda vez, indicando que estavam com dor. Depois de acordarem, todas as mulheres não se lembravam de mais nada. Ian ficou tão abalado com os resultados, que de 60 mulheres a ser estudadas, abreviou para 32 pacientes.

Mais tarde, ele escreveu: "A definição de anestesia geral inclui inconsciência e ausência de dor durante a operação, mas estes fatores não são assegurados por esta técnica." Para Ian Russel, o procedimento nem deveria ser chamado de anestesia, melhor seria chamá-lo de amnésia geral. Este relato ele descreveu no livro "Anestesia: o dom do esquecimento e o mistério da consciência" da australiana Kate Cole-Adams.

ORELHAS

O psicólogo Henry Bennet da Universidade da Califórnia colocou fones de ouvido em pessoas com anestesia geral em cirurgias para operações de vesícula biliar e coluna vertebral. Em uma metade colocou sons de salas de cirurgia como nada tivesse acontecido. Na outra metade, Bennet gravou uma mensagem: "Quando eu vier conversar com você daqui a alguns dias, você vai puxar sua orelha."

Alguns dias depois, recuperados ou em recuperação, Bennet foi conversar com os pacientes. Os pacientes praticamente não se lembravam do evento ou da mensagem, mas quem tinha ouvido o recado na mesa cirúrgica deu, em média, seis puxadinhas na orelha. Impressionante!

ROBINSON

Na Universidade de Ludwig-Maximilians na Alemanha, os cientistas e anestesistas colocaram fones de ouvido em 30 pacientes submetidos a cirurgia cardíaca em 1993. Os pacientes ouviam um resumo do clássico Robinson Crusoé com a seguinte mensagem: Quando você for perguntado sobre a palavra "sexta-feira", você vai mencionar Robinson Crusoé. Ninguém se lembrava de nada após três dias da cirurgia, no entanto, quando ouviram a palavra "sexta-feira", um personagem dessa história, sete pacientes a relacionaram com Robinson Crusoé!

E AGORA?

Será que os pacientes anestesiados um dia tiveram uma amnésia posterior à anestesia geral? Será que todos pacientes anestesiados, escutam tudo o que ocorre no centro cirúrgico e depois esquecem? Isto me parece com histórias de pessoas que tomaram drogas tipo "boa noite cinderela" ou que beberam demais: eles não se lembram mais, mas estavam conscientes durante o episódio, ou seja, tem uma memória implícita!

Uma coisa é certa: não sabemos ao certo o que ocorre ou como funcionam os anestésicos gerais! Eles nos mandam para o andar de baixo ou simplesmente desligam nossa mente? Claro que sabemos os mediadores e as sinapses envolvidas, mas o que desejamos é saber exatamente o que acontece durante a anestesia geral no centro cirúrgico: temos consciência do que acontece com a gente? O que é consciência? Mesmo anestesiados, continuamos ligados de alguma forma com a vida que passa?

O que achas?

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC.