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Ciências

Doar órgãos: os medos e alegrias! Por Alberto Consolaro

08/06/2019 - 07h00

Quando pensamos em doar ou receber órgãos, sempre vêm muitas emoções!

Quais partes de uma pessoa morta podem ser doadas? A resposta deveria ser nenhuma, mas listou-se uma ilustração com mais de 16 tipos de tecidos e órgãos. A pessoa morta não pode ser doadora, pois as partes doadas devem ter circulação sanguínea nos seus vasos. Geralmente, a pessoa na hora da remoção dos órgãos mantém estas partes vivas a ser transplantadas com metabolismo próprio. Quase sempre deve ter ocorrido parada cerebral ou quase isto por algumas horas.

MEDULA

Entre as partes está a medula óssea, um tecido que fica dentro dos ossos e muitas vezes é chamado de "tutano". Este prato culinário é muito valorizado por ser forte e conter muitas vitaminas, proteínas e gorduras, além de muitas células-tronco. Dizem até que fortifica aqueles que estão um pouco mais fracos pelo estresse crônico da vida e ou mesmo pela idade.

Várias células são produzidas na medula óssea. Transplantar a medula óssea implica em puncionar com uma agulha grande, o interior do osso e aspirar aquele conteúdo ou tecido que produz sangue e seus componentes, jogando-os diuturnamente no sangue. Do doador, transfere-se o tecido para o interior do sangue do receptor, por onde se distribui para o corpo inteiro.

Na medula óssea são produzidos os componentes do sangue que primariamente reconhecem tudo que são produzidos por nós de forma quase individual sobre a terra, desde o tempo mais inicial de nossa formação intrauterina. Podemos até dizer que imunologicamente é a medula óssea que reconhece e nos dá uma identidade própria e quase que exclusiva. Mas, às vezes, a medula óssea transplantada não aceita o doador, uma coisa incrível, chamando-se de "Reação Enxerto versus Doador". Na verdade, é ela que nos tolera!

IMUNODEPRESSÃO

Tirando a medula óssea, tem cada parte do corpo que pode ser transplantada que você fica de cara! Exemplo: transplantar a face inteira ou ainda transplantar o crânio e couro cabeludo. Ou mais chocante: transplantar o pênis e o escroto ou ainda a laringe e a traqueia. Cada vez mais estamos trocamos órgãos e partes como autopeças de carros, sem contar com a possibilidade de colocarmos partes artificiais de metal, plástico e outros produtos.

Para quem não está acostumado com os transplantes, sempre fica a pergunta: mas como organismo ou o sistema imunológico aceita? Não há risco de imunorrejeição? Sim, afinal não existe pessoas compatíveis em seus corpos e com componentes disponíveis de forma tão completa e perfeita. O sistema imunológico do doador vai ter que ser apagado ou deprimido. Por meses ou anos, o paciente vai ter que ingerir drogas imunodepressoras para deixá-lo hipo-reacional ou quase zero. Neste período, qualquer infecção leve ou banal pode ser fatal para o paciente e neoplasias malignas podem aparecer, mas o transplante recebido não será rejeitado.

Por um período variável de tempo, este apagamento do sistema imunológico pode ter uma consequência altamente desejável: ao suspender os medicamentos, ele pode recatalogar o transplante recebido e o paciente pode retomar sua vida normal! No corpo cada um tem a sua própria imunotolerância, quase individual, que se apagada por um tempo e "resetada" ou reiniciada, pode incorporar órgãos transplantados.

CHOCANTES

Os casos externos e aparentes são os mais chocantes, como transplantar a face, pênis, mãos e braços ou outras partes. Estes não acontecem com mais frequência por falta de oportunidades, pois muitos necessitam, mas a maioria da população mundial nem sabe que isto existe! Quantas cabeças, faces, mãos e braços íntegros, jovens e saudáveis não perdidos ou "enterrados" por dia nas batalhas da vida!

Pode ser necessário transplantar a face ou mãos de um branco em um negro ou asiático e o seu semelhante mais compatível pode estar muito longe ou, muito mais perto que imaginemos. O sentimento antimigratório esquece que somos uma aldeia global, apenas os ignorantes e incultos não se dão conta da estupidez que é dividir os seres humanos em países e raças! Brasileiros, venezuelanos, haitianos, africanos, asiáticos, chineses, estadunidenses, europeus e ingleses: somos todos iguais e afrodescendentes.

Ajudemo-nos!

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC.