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Ciências

A negritude de Machado de Assis! Por Alberto Consolaro

22/06/2019 - 07h00

Foto oficial de Machado de Assis antes e depois do tratamento para retirar o efeito sépia de envelhecimento!

Aqui em Paris, logo de manhã desta terça-feira, olhei para a mesa do café e vi o jornal em papel "The New York Times" com uma matéria ilustrada na capa falando sobre Machado de Assis, o maior escritor da língua portuguesa no Brasil que viveu de 1839 a 1908. Ao ler a matéria, li sobre Ricardo Pavan Martins, que viveu em Bauru até os 29 anos de idade, questionar a foto oficial de Machado de Assis em livros e postagens.

A foto preto e branco podia ser modificada para adquirir um aspecto meio chocolate, castanho velho ou marrom dando-lhe um aspecto envelhecido chamado de "sépia". Hoje também, nos aplicativos, se faz isto. Antigamente usar deste recurso era quase um "efeito especial". A sépia também é conhecida como "foto envelhecida".

As fotos oficiais de Machado de Assis são quase todas em sépia e, ao mesmo tempo representou um truque para fazer crer que ele não era um homem negro, como Ricardo insistiu, divulgou e convenceu! Em suas declarações Ricardo diz que se soubessem que Machado de Assim era um homem negro, seus amigos negros se sentiriam mais valorizados e com auto estima maior. Machado era filho de escravos.

Este projeto de esclarecimento sobre Machado de Assis foi feito com a ajuda da agência publicitária Gray em parceria com a Universidade Zumbi dos Palmares de São Paulo. Em um projeto para o instagram e pelo #MachadoDeAssisReal você pode baixar e ou imprimir a foto sem o efeito sépia, revelando toda a negritude de nosso maior escritor.

Machado de Assis é reconhecido mundialmente como o maior escritor brasileiro, sem contar ainda que foi o fundador da Academia Brasileira de Letras. O projeto pretende "trocar" as fotos manipuladas antigas e oficiais de Machado de Assis pelas novas e reais. E começou presenteando a ABL por seu presidente atual com um novo quadro para ficar exposto nos murais da entidade.

REFLEXÕES

A história de Machado de Assis me traz várias reflexões. Uma delas diz sobre o autodidatismo que imprimiu. Nascido de uma família pobre, frequentou poucas escolas e exclusivamente as públicas e nunca frequentou universidades. Para que tivesse a inserção social, procurou ter autossuficiência e superioridade intelectual e cultural. Assumiu diversos cargos públicos nos ministérios da agricultura, do comércio e das obras públicas.

Hoje quase todos nós frequentamos escolas públicas e as privadas, mas se tem dificuldades de escrever. A cada dia mais pessoas preferem se comunicar com mensagens de áudio nos aplicativos Whatsapp, Viber e Telegram. Quando questiono porque fazem isto, dizem que escrever "dá" muito trabalho! Nisto inclui, os políticos mais citados na política brasileira atual, que quando falam é uma lástima pelas palavras erradas e frases incompletas!

ESCREVIA BEM!

Para escrever bem se requer capacidade de abstração, criatividade, concentração e cultura. Mas é comum se dizer aos jovens e iniciantes na arte de escrever, que necessário se faz ler muito, para escrever bem! É triste dizer, mas isto não corresponde à realidade. Quem lê muito, vai ler melhor cada vez mais! Se houver serenidade para refletir e criar, vai cada vez mais ter argumentos para criar textos, mas não irá escrever melhor apenas por que se leu mais! A leitura pode propiciar cultura, mas depende de concentração, abstração e muita serenidade.

Na realidade, eu respondo a quem pergunta como, o que é necessário ou como se faz para escrever bem: - para escrever bem, se deve escrever cada vez mais! O primeiro texto será quase sempre ruim. A medida que se vai escrevendo, vai se familiarizando com a arte de escrever, para as letras atingirem as retinas e os cernes emocionais de nossas mentes!

Quanto Machado de Assis leu em sua época? Talvez menos do que se tem nas páginas de um mês dos jornais diários de nossos dias! Com certeza, o que ele mais fez, foi escrever repetidamente. Machado de Assis é exemplo a ser seguido, mas lembrem que não fez faculdade, nem frequentou escolas privadas e foi obstinado na ideia de fazer da cultura e da sabedoria o seu objetivo final!

POR FIM

O projeto e o trabalho descrito sobre Machado de Assis no "The New York Times" revelaram ao mundo de forma explícita que o maior escritor brasileiro é um homem negro e que nos sirva de exemplo. E sem maquiagens, por favor!

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC.