Bauru e grande região

Ciências

Mediram a ignorância na sociedade? Por Alberto Consolaro

06/07/2019 - 07h00

A pesquisa analisou o pensamento dos jovens brasileiros sobre a importância da ciência em suas vidas

A causa de todos os males é a ignorância. Dela nasce a intolerância, egoísmo, racismo, violência e vingança. Os ignorantes ficam soberbos e odeiam os cultos confrontando desrespeitosamente os professores, intelectuais, artistas e jornalistas, chamando-os de privilegiados. Ditadores são ignorantes, pois sabem que não conseguem vencer pelo argumento e coerência de suas ideias, precisam impor manipulando e subjugando as pessoas pelo medo, mentira e perseguição dos que discordam de suas atitudes.

O debate das ideias, a discussão dos fatos e a possibilidade de que sua ideia não seja dominante, aflige ao extremo o ignorante. Falta-lhe inteligência e raciocínio para o debate, fazendo-o gritar, humilhar, ironizar aquele que disse o diferente! Geralmente o ignorante é corajoso e valentão, especialmente com aqueles que sabe ter menor poder de reação, ou seja, com os mais fracos. O ignorante foge do debate franco e da exposição de ideias, sem conseguir articular seus argumentos, não sabe convencer pelo conhecimento, pois não o tem!

O contrário de ignorante é aquele que sabe, reflete e aprende desde cedo a viver com o diferente e o contrário. Se aprende isto no meio familiar e social em que se vive, especialmente da escola. É importante a escola onde se viva com os diferentes e não apenas com os que pensam, vestem e se comportam como a família e os amigos associados a ela. Os que vivem com os iguais desde cedo, tendem a ser intolerantes com os diferentes a medida que crescem, uma tendência muito natural.

A escola, em todos os níveis, deve fornecer bases da ciência, pois ela amplia horizontes, aumenta a tolerância e treina argumentar com dados e coerência, inserindo uma ideia de vida multifacetada. Se deve ensinar desde cedo o que é ciência, o que é pesquisa! Não devemos replicar opiniões, mas mostrar os critérios e métodos que constroem e conferem o conhecimento velho e novo!

MEDIDAS

A ignorância tem que ser combatida, pois é a mãe de todos os males! Analisemos o resultado de uma pesquisa feita pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Comunicação Pública e que ouviu 2.2016 jovens entre 15 a 24 anos, entre março e abril, em 21 estados e no distrito federal. Destes, 87% não conseguiam citar uma única instituição nacional de pesquisa e 93% não souberam dizer um nome sequer de um cientista brasileiro!

Incrível, 40% dos jovens não concordam que humanos descendam de outros animais como revelou Darwin ao mundo. Mais chocante: 25% acreditam que vacinar crianças possa ser perigoso! Os assuntos que mais interessam aos jovens são 80% meio ambiente, medicina e saúde 74%, religião e ciência vem depois, ambas com 67%. Dos jovens, 60% não sabem que os antibióticos não atuam nos vírus, e ainda, 40% concordaram com a afirmação de que, "se a ciência não existisse, meu dia a dia não mudaria muito"!

A pesquisa revelou que os jovens não acreditam que recebem notícias falsas pela rede. Para se atualizar ou informar-se sobre ciência eles usam Google, Youtube, WhatsApp, Facebook e Instagram. As fontes de informações mais confiáveis para eles são os professores, médicos e cientistas das universidades publicas, mas em seguida vem os jornalistas. Nos políticos, 81% não confiam e 35% desconfiam dos artistas.

Os jovens revelaram que jornais, televisão, rádio e revistas leigas ou científicas não são lidas por eles. Sobre a ciência e a pesquisa não tem qualquer paradigma, exemplo ou modelo para seguirem! Pode até parecer incrível, mas a quantidade de pessoas que não acreditam na evolução biológica do homem a partir de outras espécies e que acham que a terra é plana é muito grande entre nós.

POR FIM

A ignorância é o celeiro da intolerância, preconceito, racismo, violência, grosseria e da falta de consciência com o planeta, via preservação do meio ambiente. Sobre sua pesquisa, Luisa Massarani da Fundação Oswaldo Cruz, disse: "é importante entender a percepção dos jovens, porque eles são nossos futuros cidadãos."

E isto me fez pensar: - e se a pesquisa fosse feita paralelamente com os pais, quais seriam os resultados?

Resgatemos nossa esperança, amém!

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC.