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Ciências

É privatização das universidades? Por Alberto Consolaro

20/07/2019 - 07h00

Como nos estádios, as universidades federais poderão vender os nomes dos campi para empresas

Na disputa para o cargo de primeiro-ministro britânico, chegou-se ao número de oito concorrentes. Os candidatos se dividiam entre os que fizeram a Universidade de Cambridge e os que cursaram a Universidade de Oxford. São universidades públicas em que durante anos de vida os estudantes discutem os problemas do país, fazem ciência e aprendem a conviver e se dedicar à sociedade. Eles vivem 24 horas por dia no câmpus de uma verdadeira universidade. Qual é a diferença entre uma universidade de verdade e um colégio ou escola profissionalizante para pessoas adquirirem um ofício e que também são "chamadas" de universidades?

DIFERENÇA

No colégio e nestas escolas se tem aulas teóricas e práticas. Terminou a aula, o professor vai para sua casa ou outros lugares, sendo que alguns destes colégios e escolas profissionalizante obrigam o professor a não permanecer no campus com medo de alegar horas de trabalho se ficar, afinal elas pagam por horas de aulas dadas. Nos colégios e nas universidades profissionalizantes, as discussões, os seminários, a polêmica, a diferença e as pesquisas não existem ou são mínimas.

Nas universidades verdadeiras, os alunos e professores permanecem o tempo que quiserem no campus, onde se tem bibliotecas, laboratórios, museus, teatros e muitas outras atrações intelectuais e físicas que lhe prendem atenção às missões repassadas. Os alunos da graduação participam de pesquisas juntos com mestrandos e doutorandos, sob orientação de professores com formação sólida que lhes deram os títulos de doutorado, livre docência e titular. Nos intervalos das atividades intelectuais e práticas de seus programas de graduação, nas universidades verdadeiras os alunos fazem pesquisas financiados por agências de fomento à pesquisa e por bolsas de empresas.

A diferença entre uma universidade verdadeira ou um colégio ou universidade "profissionalizante" é a ambiência ou ambiente científico que existem nas primeiras e não nos colégios. Esta ambiência científica induz e dá tempo aos cérebros refletirem sobre a vida, a sociedade e a ciência, permitindo reflexões e análises críticas bem fundamentadas. Nos colégios e nas universidades profissionalizantes este tempo não existe, esta ambiência não é estabelecida, pois acabou-se a aula, todos vamos para a casa ou para o bar, afinal se tem que divertir!

PARA QUÊ?

Na história da criação e evolução das universidades verdadeiras, seu objetivo ou a sua essência, é formar pessoas e não profissionais. É formar cidadão para a sociedade e não mão de obra para o mercado. A essência da universidade verdadeira é formar o cidadão pensante, crítico, analítico e que saiba julgar ou decidir para o bem comum. Na universidade tipo colégio e ou profissionalizante, se forma o profissional, sem preocupação com a parte intelectual, filosófica, crítica, analítica e social, o importante é dar um oficio para trabalhar e sustentar sua família!

Muitos entre nós, a grande maioria, "fazem" faculdade ou graduação em colégios e universidades profissionalizantes. Nenhum mal, se soubessem isto! Mas não sabem e se comportam como intelectuais, sabedores de tudo, com nível superior e desprezando as demais pessoas com suas posições autoritárias, sem tolerância com o diferente! Diria que esses "formados" se comportam como pseudossábios!

PERIGOSOS

O perigo não são os que não sabem, mas o que pensam que sabem, mas não são sábios coisa nenhuma! Eles não conseguem compreender o mundo como está, querem reformatar e destruir tudo para fazê-lo ao seu modo, pois o planeta é como o quintal de sua casa! Incrível!

Pelas propostas apresentadas "corajosamente" pelo ocupante do Ministério da Educação, irão privatizar a universidade pública, para que elas virem "profissionalizantes" como colégios a serviço de empresas e grupos organizados. Isto acontece, porque quase todos no comando do país, estados e municípios se "formaram" nestas "universidades-colégio" sem ambiência cientifica e sem a prática diária da ciência, onde a diversidade é o ponto de partida para qualquer análise!

Como iriam valorizar o que nunca viveram? Onde se "formaram"? Como seriam os seus históricos escolares?

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC.