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Ciências

O que entrou em você e suas paredes?

Ciência no Dia a Dia - por Alberto Consolaro

14/03/2020 - 05h17

Somos um tubo e a parte oca começa na boca e termina no ânus. Ao passar pelo tubo, os alimentos sólidos e líquidos são absorvidos pela parte interna que o reveste e se chama epitélio. Se joga enzimas, ácidos e outros produtos para dissolver e leva um tempo grande para o alimento desfilar da boca até sair como excremento.

MEIO SAGRADO

Quando se diz que algo entrou no corpo, na intimidade estrutural, implica dizer que houve uma ruptura do epitélio da pele e das mucosas que revestem as cavidades, inclusive o tubo digestivo. Podem ser traumatismos, agulhadas, bisturi, queimaduras e picadas. No interior do corpo ou tecidos não temos e nem podemos ter microrganismos.

As partes ou o ambiente revestido pela pele e mucosas constituem um "meio sagrado" onde não se deve ter nada que não seja nosso! Se acontecer, mecanismos são utilizados para eliminar o que entrou, como a inflamação e a resposta imunológica: as células irão fagocitar e os anticorpos com enzimas, dissolver.

O cirurgião tem que tomar providências ao cortar e abrir o paciente para não entrar microrganismos como a violar o meio sangrado, tal como a esterilização, desinfecção, antissepsia e outros meios de preparo do paciente. Este conjunto de procedimentos se chama assepsia e quando ordenada, se chama cadeia asséptica. Se desconfiar que algo entrou no momento cirúrgico, se prescreve antibióticos cujas moléculas são muito pequenas e serão absorvidas pelo tubo digestivo e acabará com os microrganismos.

TRÊS ENTRÕES

1. O corpo tem reações diferentes de acordo com a composição do que entra em nós. Se algo entrar e conter proteínas, o organismo promove inflamação e resposta imunológica para acabar com ele! Este tipo de agente proteico que não nos pertence se chama "antígeno" e os exemplos clássicos são bactérias, fungos, parasitas, vírus e transplantes.

2. Outros produtos, entram e não tem proteínas como os fragmentos de vidro, metais de projetos de arma de fogo, espinhos, fios de sutura, silicone, piercings, cimento obturador de canal e resinas para preenchimento. Ao entrar, induzem uma resposta inflamatória e as células chamadas macrófagos ficam ao seu redor e, no conjunto, é chamado de granuloma de corpo estranho. Quem entra e não tem proteína, apenas provoca esta inflamação, sem resposta imunológica, sem rejeição e se chama "corpo estranho".

3. O inquieto ser humano descobriu que ainda existe um terceiro tipo de material que pode entrar no corpo sem produzir inflamação e muito menos resposta imunológica ou rejeição. Nossas células abraçam este material, se integrando a ele, como ocorre com os metais titânio e a zircônia. Estes materiais são chamados de "corpos inertes". Desta forma, se pode fazer implantes, placas, parafusos, pinos e outros artefatos deste material e aplicá-los na intimidade de nossos tecidos, sem provocar qualquer reação!

Eita ser humano danado!

Alberto Consolaro é professor titular da USP - Bauru. Escreve todos os sábados no JC. 

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