Bauru e grande região

Cultura

Luciano sem censura

Cantor fala de seu último CD/DVD, relembra dos shows em Bauru e dos bons e maus momentos da carreira, revela quais duplas sertanejas não gosta e, ainda, ?bate? pesado em artistas brasileiros que criticam os ?paparazzis?

por Marcelo Ferrazoli

01/08/2012 - 00h01

Os “20 Anos de Sucesso”, último CD/DVD da dupla Zezé di Camargo e Luciano, foi um dos temas principais da longa entrevista, anteontem à noite, concedida por Luciano ao Jornal da Cidade. Mas o cantor que integra uma das parcerias mais consagradas do universo sertanejo romântico não se limitou a falar somente desse recente trabalho. Extremamente simpático e bem-humorado, Luciano detalhou as principais características e novidades do novo CD/DVD, relembrou dos shows em Bauru, deixando aberta a possibilidade da dupla se apresentar aqui em 2013, elegeu o melhor e o pior momento da carreira e disse que a dupla não tem o costume de fazer planos a longo prazo.

Mas Luciano também “bateu”, e pesado, em artistas brasileiros, como o ator Pedro Cardoso, que criticam a atuação dos chamados “paparazzis” na cobertura do mundo das celebridades. Ele criticou, ainda, o fato de celebridades, como o ex-jogador Ronaldo e o humorista Bruno Mazzeo, condenarem os “paparazzis” e, ao mesmo tempo, se aproveitarem das redes sociais para faturar com propagandas.

Com a língua afiada, também não escondeu suas predileções musicais, revelando não gostar das duplas João Lucas & Marcelo, intérpretes de “Eu Quero Tchu, Eu Quero Tcha”, e Fernando & Sorocaba, de “Ta Ta Ta Ta”. Também revela nunca ter perdoado o apresentador Carlos Massa, o Ratinho, por conta de sua atuação no programa que comandava no SBT na época do sequestro de seu irmão Wellington Camargo, em 1999.

 

Novo CD/DVD

O novo CD de Zezé di Camargo e Luciano, no mercado desde abril, não traz apenas músicas do DVD. São 14 faixas, sendo seis gravadas em estúdio somadas a outras oito extraídas de gravação ao vivo. Destaques para a regravação de “Tudo Deu Em Nada”, “As Coisas Mudam” e, principalmente, a música de trabalho “Sou Seu Amor e Você é A Minha Vida”, composição de Zezé. Já o DVD, que chegou às lojas há pouco mais de 20 dias, tem no repertório canções que marcaram a trajetória dos irmãos goianos, como “Mentes tão bem”. Dez músicas inéditas marcam o DVD, além das participações especiais do maestro Eduardo Lages em “Sem Medo de Ser Feliz” e Paula Fernandes em “Criação Divina”. Confira a seguir os principais trechos da entrevista com o cantor:


JC - Quais as lembranças que vocês têm dos shows em Bauru?

Luciano - Do público. Bauru é uma das regiões mais bonitas de São Paulo e, quando você faz show em Bauru, você recebe uma legião de fãs de várias outras cidades menores. O melhor de Bauru é isso. Das festas que nós fizemos de peão, agropecuárias, o que tem de melhor é isso, é trazer outras regiões. Se você vai fazer show em Ribeirão Preto, o público maciço é de Ribeirão. Mas Bauru abre isso. Não sei se era a festa ou se era Zezé di Camargo e Luciano, mas quando perguntávamos tinha gente de todas as regiões.


JC - E vocês têm alguma previsão de vir pra cá este ano ou ano que vem?

Luciano - Este ano, em agosto, temos alguns shows em São Paulo, mas nenhum para Bauru. Mas ano que vem com certeza. Acho que a última vez que estivemos aí foi há cerca de quatro anos.


JC - Qual o maior destaque do novo CD e DVD? Críticos consideram como o melhor trabalho da carreira de vocês...

Luciano - O artista sempre considera como o melhor da carreira. Não sei se é porque tem uma contribuição, principalmente na música de trabalho “Sou Seu Amor e Você é a Minha Vida”, que insisti muito para que entrasse no repertório. Falo que insisti muito porque é uma música do Zezé di Camargo. Se ele fala que não quer gravar a música, não há Cristo que o faça gravar. Eu falava para ele gravar, mas ele foi me enrolando e fizemos o DVD e ele não colocou. Aí quando decidimos gravar o CD, consegui convencê-lo a gravar. O CD já está com quase 200 mil cópias e o DVD, para nossa surpresa, saiu há pouco mais de 20 dias e já vendeu 50 mil cópias e está tendo reposição de mais 50 mil, ou seja, acredito que esse DVD deve bater a marca de 450 mil cópias. Temos uma venda assegurada de, pelo menos, 250 a 300 mil cópias por ano, mesmo com a pirataria. Para a gente está sendo uma surpresa porque o mercado não favorece hoje esse tipo de trabalho com temática romântica.


JC - E a participação da Paula Fernandes? Qual o motivo da escolha dela?

Luciano - Muitos podem pensar que ela foi convidada por causa somente ao sucesso dela. Em um show em Belo Horizonte, nós a chamamos para cantar duas músicas no nosso show. E a convidamos para participar do DVD nessa época, mas como ela “estourou” a agenda dela não permitiu marcar.


JC - E vocês perceberam ali que a química foi boa...

Luciano - Foi tão boa que antes dela cantar com a gente nesse DVD. A música mais tocada ano passado pela Crowley foi “Eu Quero Ser Pra Você”, composição do Zezé e a segunda foi a “Mentes Tão Bem”. Por isso gosto de contar essa história. Já aceitamos gravar com pessoas que não tinham sucesso nenhum. Por exemplo, o Michel Teló, quando gravamos com ele, fomos para Campo Grande cantar com ele no Grupo Tradição, porque nós acreditávamos. Ele não era sucesso. O Zezé virou para o Michel Teló e disse: “O dia que o Brasil descobrir a sua voz e o som da sua sanfona, o Brasil inteiro vai se render a você”. E foi o que aconteceu.


JC - Ele foi profético...

Luciano - É. Não acho que a música “Ai Se Eu Te Pego” pode ser a música de maior sucesso do Michel Teló, porém não é a melhor música dele. Para mim, ele, assim como o Lulu Santos, é um showman. O que esse cara faz com a sanfona no palco é algo que o Cirque du Soleil teria o maior prazer de ter o show desse cara dentro. Estou falando sério, porque ele é realmente um showman. Além de cantar bonito, ser humilde, compõe muito bem. Não convidamos e não participamos de um trabalho de uma pessoa pelo sucesso dela. Se fosse assim, não teríamos gravado com Guilherme & Santiago antes dele se tornarem sucesso. E eles têm 20 anos de carreira.


JC - E quais os planos da dupla para o futuro?

Luciano - Cantar (risos). Nunca fomos de fazer projetos, pois eles foram acontecendo. A ideia surgia e fazíamos. Nunca fomos de projetar a longo prazo. O filme (Dois Filhos de Francisco) as pessoas trouxeram a proposta e nós na época a única coisa que falamos foi que não queríamos participar como atores, mas disse que queria participar de todo o processo de produção e direção por gostar e ser o cara que mais conhece a história da família de Zezé di Camargo e Luciano, além de que o Zezé escrevesse a trilha sonora. Então, por não pensarmos muito em projetar coisas muito à frente é que acaba dando muito certo.


JC - Nesses mais de 20 anos de carreira, qual você considera o melhor e o pior momento?

Luciano - O melhor não dá para classificar porque são muitos. Acho que o “É o Amor”, o primeiro disco de ouro nosso, foi momento muito emocionante porque o disco vendeu 100 mil cópias e não tínhamos feito nenhum programa de televisãoFicamos três meses com aquele disco guardado sem poder mostrar em nenhum programa de televisão, porque a música era sucesso mas ninguém sabia quem era Zezé di Camargo e Luciano. Até que começamos a fazer o programa da Xuxa, da Angélica e daí a dupla estourou. Para mim, foi o momento mais emocionante. Agora um momento, que nós e todo o Brasil sofreu, e que acabou, não diretamente a carreira, mas afetando nossa vida profissional foi o sequestro do nosso irmão. Foi o pior momento. Se não fosse o nosso sucesso, meu irmão não teria sido sequestrado. Mas, nenhum momento, nem eu e o Zezé condenamos isso. Pelo contrário. Graças a Deus podemos resolver aquele problema, sermos vitoriosos, e mostrar para o Brasil que não se deve render para bandidos.


JC - Como você analisa a cobertura das celebridades feita pela imprensa?

Luciano - Nunca sofri nenhum assédio pejorativo da imprensa, a não ser na época do sequestro do nosso irmão, até porque não podíamos falar o que estava acontecendo e éramos limitados tanto pela Polícia como pelos sequestradores. Naquela época, algumas pessoas, principalmente o Ratinho (o apresentador Carlos Massa), que é uma pessoa que não desejo mal pra ele, mas se um dia você me ver do lado dele fazendo um programa dele pode ter certeza que estou doente ou louco. Ele foi o responsável para que cortassem a orelha do meu irmão. Ele falou no ar que ia fazer um tele 900 e as pessoas mandaram a orelha do meu irmão cortada para o SBT de Goiânia endereçada para o Ratinho. Isso é uma verdade, é provado e na época foi divulgado. Todo mundo soube disso. Esse cara eu não o perdoo.

O artista tem de entender o seguinte. Hoje no Brasil não tem paparazzi como tem no resto do mundo. O fotógrafo que está na beira da praia é o sustento dele. Acho até ridícula (a discussão). Esses dias assisti a um programa, o Na Moral, do Pedro Bial, falando dos paparazzis e daí um cara entrou lá, aquele que faz “A Grande Família” (o ator Pedro Cardoso, intérprete do personagem Agostinho), e falou assim: “Não posso aceitar que seu sustento seja em cima da minha imagem”. O (solta um palavrão) isso, porque se ele (o fotógrafo) não tivesse projetado a imagem dele, ele não estaria hoje comendo. Há uma hipocrisia muito grande dos artistas brasileiros. Fui à praia há um tempo atrás, quando houve o problema comigo em Curitiba (ele passou mal após tomar medicamentos e teve de ser internado na cidade), e um monte de gente fotografando. Peraí gente. Estava com a mulher mais linda do mundo, que é a minha esposa, andando com minhas filhas no Calçadão, eu vou achar ruim que um cara tire uma foto e comente? O cara que tem que se preocupar com isso é o que fica cheirando e fumando na frente de todo mundo, quebrando máquinas fotográficas, dando escândalos em hotéis, o que já vi vários artistas fazendo isso. Eu não! Agradeço aos poucos paparazzis que têm no Brasil, pois nenhum deles invade tanto a vida dos artistas assim como tantos falam.


JC - É preciso ter espírito de pessoa pública...

Luciano - Claro. O que tenho de ter cuidado, no momento em que abro a porta da minha casa à imprensa, é saber o que mostrar. Não é tudo que as pessoas querem ver. É engraçado. Tem pessoas que falam mal da mídia, da imprensa e dos paparazzi, mas tem Twitter em que posta (fotos) até no banheiro. O Bruno Mazzeo da vida. Não quer ser clicado na praia, mas ele tem lá, fazendo propaganda de vários produtos em seu Twitter. O Ronaldo, que é amicíssimo da minha sobrinha, não quer ver a vida dele sendo invadida por paparazzi, mas está lá fazendo propaganda no Twitter, que é onde as pessoas terão acesso. Ou seja, a maioria dos artistas quer usar as pessoas para comercializar seus produtos. Acho isso uma grande hipocrisia.

O Brasil não tem paparazzi f.d.p. Se você quiser saber o que é um paparazzi, vai na Inglaterra e você verá. Temos é de agradecer, pelo amor de Deus. Se você perguntar para mim quem gosto e não gosto do sertanejo, vou falar. Eu vou responder e sofrer as consequências depois de ser interpretado falando mal da pessoa ou entendendo meu gosto.

Gosto de Jorge e Matheus, Victor e Léo e não gosto de jeito nenhum desses caras que cantam “tchu tchu tchu tchá tchá tchá” (a dupla João Lucas e Marcelo). Ridículo. Voz ridícula, postura ridícula e a música. Não gosto de uma dupla que canta “tá tá tá tá tá” (Fernando e Sorocaba), não gosto da voz, não gosto da postura. A única música que gosto dos caras é uma que o segunda voz canta, que é uma tal de “Madri”. Agora, quem vai sofrer as consequências de ser entendido ou não sou eu e não posso querer que todas as pessoas que leem o que estou falando entendam da forma que estou falando, porque existem pessoas que vão se doer. O artista tem de ser um pouquinho inteligente para saber quem fala e saber o que lê. Hoje, com essas redes sociais, você tem uma matéria e tem lá o item para comentar a matéria. Para que vou ler esse comentário?


E, se ler, deve aceitar o que está lá?

Luciano - É lógico. O artista brasileiro é hipócrita. A maioria dos artistas brasileiros. Conheço muitos, principalmente ator. Já vi uma pessoa falando que para enganar os paparazzi ela vai correr na praia com a mesma roupa. Coisa ridícula. Me dou super bem com a imprensa e, mesmo quando agiram com injustiça comigo, não retaliei e não fui atrás. Pelo contrário. Passou um tempo, procurei a pessoa. O importante é que fale de você. A partir do momento que falem com maldade, você tem dois olhos, um para fingir que leu e o outro para relevar. Não dou importância pra isso. Acho o artista brasileiro muito hipócrita. Muito sem noção.


A LÍNGUA AFIADA DE LUCIANO

“O artista brasileiro é hipócrita.”

“Gosto de Jorge e Matheus, Victor e Léo e não gosto de jeito nenhum desses caras que cantam “tchu tchu tchu tchá tchá tchá”. Ridículo. Voz ridícula, postura ridícula e a música.”

“Não gosto de uma dupla que canta “tá tá tá tá tá”, não gosto da voz, não gosto da postura.”

“O Bruno Mazzeo não quer ser clicado na praia, mas faz propaganda de vários produtos em seu Twitter. O Ronaldo, que é amicíssimo da minha sobrinha, não quer ver a vida dele sendo invadida por paparazzi, mas está lá fazendo propaganda no Twitter, que é onde as pessoas terão acesso.”

“A maioria dos artistas quer usar as pessoas para comercializar seus produtos. Acho isso uma grande hipocrisia.”

“O Brasil não tem paparazzi f.d.p. Se você quiser saber o que é um paparazzi, vai na Inglaterra e você verá.”

“O Ratinho não desejo mal pra ele, mas se um dia você me ver do lado dele fazendo um programa pode ter certeza que estou doente ou louco.”

“O Michel Teló, assim como o Lulu Santos, é um showman.”