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Cultura

Jair Rodrigues: ?Inventei o rap?

por Mariana Cerigatto

23/08/2012 - 01h50

Além de um verdadeiro “showman”, o cantor brasileiro Jair Rodrigues se considera um dos criadores que alavancou o primeiro rap no mundo. “Você sabia disso? A primeira pessoa que pensou no rap fui eu”, brinca o músico em entrevista ao JC. 

Jair, que será atração no próximo dia 21 de setembro, às 22h30, na Sociedade Hípica, em Bauru, se refere à música que ajudou a despontá-lo na carreira, “Deixa Isso Pra Lá”, cantada por ele e composta por Alberto Paz e Edson Menezes. Alguns de seus trechos: “Deixa que digam/que pensem/que falem/deixa isso pra lá/vem pra cá/o que é que tem/eu não estou fazendo nada /você também”.

‘Entoada’ por Jair de maneira bastante gesticulada com a palma das mãos, pode-se arriscar dizer que “Deixa Isso Pra Lá” leva características de um rap, mas em ritmo de samba. A canção, então, foi apontada como precursora do rap brasileiro por seu refrão “falado”. Chegou a ser regravada em 1999 com a participação do grupo paulistano de rap Camorra.

“Essa música acabou se tornando o primeiro rap feito no mundo. Eu a gravei em 1964, e quem descobriu essa questão do rap foi o Paralamas do Sucesso, o Emicida, o Charlie Brown, o pessoal do hip-hop... e, analisando melhor, de repente podemos dizer que o rap nasceu aqui no Brasil através dessa música”, afirma. “Então, quando perguntarem quem inventou o rap, pode responder: foi o Jair Rodrigues!”, diverte-se.

Em tom brincalhão e demonstrando uma imensa disposição mesmo com 73 anos (53 só de carreira), foi assim que Jair Rodrigues conversou com a reportagem do JC Cultura. Confira a entrevista com o artista:

 

JC - Você já passou por Bauru inúmeras vezes. Algo ficou marcado?

Jair - Sim, já passei muitas vezes por Bauru, perdi a conta. E a primeira vez você não era nem nascida! (risos). A primeira vez que estive na cidade foi no ano de 1960, 1961. Eu não era tão conhecido. E eu me lembro que, no final dos anos 50 e início dos anos 60, Bauru era tida como uma cidade racista, assim como outras do Interior. Fiquei com isso na cabeça, mas depois que cheguei na cidade, vi que era tudo papo-furado. É uma cidade que trata bem quem quer que seja, não importa a cor. Na verdade, nunca tive um sequer olhar de desaprovação de alguém. Falavam também que São Carlos tinha fama de racista. Gozado, e eu morei lá cinco anos e não vi nada disso. Tudo papo-furado!


JC - Suas apresentações são caracterizadas por se tornarem grandes bailes, em que as pessoas adoram dançar. Como será o show em Bauru e o repertório? Você seguirá o formato de ‘baile’?

Jair - Olha, eu já tenho 53 anos de carreira. Fiz meu primeiro disco em 1962, e a partir daí formei um repertório imenso, de todos os ritmos brasileiros. Então tenho em meu repertório samba de enredo, samba bossa nova, música sertaneja, seresta... é algo bem vasto. Então é muito difícil selecionar determinada música e afirmar que não vou cantar outra. No show, sempre tem as canções mais pedidas. Mas claro, há as músicas que a gente não pode deixar de cantar de maneira nenhuma, como por exemplo, “Disparada”, “A Majestade, O Sabiá”, “Tristeza”, “Boi da Cara Preta”... Sobre o fato do baile, sim, o show acaba sendo dançante. A maioria dos artistas que faz show não gosta quando o público dança. Mas eu gosto! (risos). Às vezes, até eu mesmo convido! Oras, pois o público está lá, em um salão enorme, o artista está em cima de palco, as pessoas bebendo e conversando, sentadas em mesas... e às vezes saem dançando em direção ao palco como uma forma de se aproximar do artista... De vez em quando, vou até as mesas, desço do palco, danço junto... Não é um show dançante, mas é um show em que convido o público para ficar mais próximo de mim.


JC - A Elis Regina, que foi marcante em sua trajetória. Já viu a Maria Rita, filha de Elis, cantando? 

Jair - Já vi sim Maria Rita cantando. Mas considero a Elis a primeira e única desde quando começou a cantar. Entre todos os artistas e músicos da minha geração, a Elis era tida como fora do comum, fora do normal. Ela nasceu para ser a única. Jamais vai aparecer uma outra Elis Regina.


JC - Você já passou por várias vertentes da MPB, incluindo o samba e o sertanejo. Como analisa o cenário da música brasileira hoje?

Jair - O Brasil é o País que mais tem ritmo musical no mundo. E desde a década de 20 até a década de 80, podemos ver que o som se multiplicou bastante. A crítica que faço é em relação à qualidade musical. Hoje, nós sofremos com as letras das músicas por falta de qualidade; o próprio ritmo, às vezes, é confuso. Fazem uma ‘mistureba’ que ninguém entende e de repente cantam umas letras que falam de bunda, citam palavras de baixo calão... Isso sempre existiu, mas em épocas passadas bastava alguém falar uma bobagem no ar que era censurado. Hoje a censura ficou ‘aberta’ demais, e isso acabou prejudicando o cenário musical brasileiro.


JC - A Rita Lee anunciou, no início deste ano, sua ‘aposentadoria dos palcos’. E você, também tem planos de “se aposentar”?

Jair - Eu vi sim o que ela disse e pensei - ‘poxa, a Rita Lee recebeu de Deus o dom de cantar. E no que ela faz, não tem ninguém melhor que ela’. Se ela recebeu esse dom, só Deus pode tirar. A Rita Lee sempre fez coisa boa e faz tempo que não grava nada novo. Eu acho que tá na hora dela repensar, porque eu tenho certeza que ela não perdeu a ‘forma’. E eu estou firme e forte! Meu mais recente CD foi lançado em 2009, “Festa para o Rei Negro”, em homenagem aos 50 anos de carreira e aos meus 70 anos. Nesse disco, levei ao palco grandes amigos e músicos. E agora estou me preparando pra fazer outro disco, que se chamará “Jair Rodrigues: Samba Mesmo”. E isso significa que vai ter só samba dentro do CD. Estou firme e forte fazendo shows e eu só não estou melhor porque não quero. Assim já está bom demais! A todo o momento agradeço a Deus por ele ter me dado esta carreira.

 

  • Serviço

As mesas para o show de Jair Rodrigues já são vendidas na secretaria da Hípica no valor de R$ 280,00 para quatro pessoas. A Hípica fica na avenida José Henrique Ferraz, 7-15. Informações: (14) 3236-1255

 

Paulista de Igarapava

Nascido em Igarapava (SP), o ícone passou também pelas cidades de Nova Europa (SP) e São Carlos (SP). O paulista começou a carreira na década de 60. Gravou seu primeiro disco em 1962, com duas músicas para a Copa do Mundo: “Brasil sensacional” e “Marechal da vitória”. Seus primeiros LPs foram “Vou de samba com você” e “O samba como ele é”, lançados em 1964. Nessa época, atingiu grande popularidade com sua interpretação da música “Deixa isso pra lá”.

Em 1965, substituiu Baden Powell no show realizado no Teatro Paramount, em São Paulo. Foi nesta ocasião que cantou pela primeira vez ao lado daquela que seria sua parceira, a estreante Elis Regina, com quem lançou em seguida o LP “Dois na Bossa”, gravado ao vivo.

Sua popularidade não se restringiu somente ao Brasil, tendo-se apresentado com frequência no Exterior. O músico também transitou pelo sertanejo, chegando a gravar, nos anos 90,  o LP “Lamento sertanejo” (1991). Em 2006, foi o artista homenageado no 4º Prêmio Tim de Música, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. No mesmo ano, recebeu indicação ao Prêmio Grammy Latino, na categoria Álbum de samba Brasileiro com o Álbum “Alma Negra”.