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Cultura

Perdido no humor

JC localizou Carlos Roberto Escova em Ourinhos, nome consagrado do humor nas décadas de 80 e 90 que se dedica atualmente à participação em programas jornalísticos em rádio

por Aurélio Alonso

21/09/2013 - 05h00

Jornal Debate

O humorista já está há quatro anos na Rádio Melodia-FM, em Ourinhos

Nome conhecido no rádio de São Paulo nos anos 80 com passagem pela televisão no “Perdidos na Noite”, Carlos Roberto Escova, 58 anos, vive atualmente em Ourinhos (120 quilômetros de Bauru), mas não abandonou o que mais gosta de fazer: o humor. Atualmente, participa de dois programas na rádio Melodia-FM, emissora ligada à evangélicos onde acumula ainda o departamento comercial. Ele lembrou ao JC do período de fama no rádio paulista e na TV.

Imitador de políticos e celebridades, Escova integrou a equipe do Balancê da Rádio Globo sob comando de Osmar Santos e, entre 1985-1988, esteve com o humorista Nelson Tatá Alexandre no palco do “Perdidos da Noite”, que revelou Fausto Silva, o Faustão, à Rede Globo. Na Jovem Pan foram 20 anos e pelo menos oito na Rádio Globo. No “Show de Rádio”, participava das esquetes de humor com Nelson Tatá Alexandre, Serginho Leite e Osvaldo Sangiardi.

O “Balancê”, criação de Osmar Santos, foi a tentativa de recriar os programas de auditório no rádio. O País vivia a transição da ditadura militar para o regime civil e o programa radiofônico influenciou a criação do “Perdidos na Noite” (1985-1988) na televisão, inicialmente em horário comprado na TV Gazeta, depois Record e Bandeirantes. Tatá Alexandre e Escova improvisavam as apresentações. Fausto Silva lia a programação da concorrente, dava bronca na equipe e falava palavrões no ar.

De acordo com Escova, foi Goulart de Andrade quem teve a ideia de levar a dupla para esquetes no “Plantão da Madrugada”, quando o programa estava na TV Gazeta, e dali chegou ao “Perdidos da Noite”. O nome do programa foi inspirado no filme norte-americano de 1968, Midnight Cowboy, que, no Brasil, também é conhecido como “Perdidos na Noite”.


Chegada em Ourinhos

Antes de residir em Ourinhos, morou um ano em Miami e depois em Porto Alegre, onde trabalhou na RBS, no “Programa X”, e apresentou sozinho o “Perdidos na Atlântida”, pela Rádio Atlântida, até se separar de sua mulher após casamento de 38 anos e se transferir para o município de pouco mais de 100 mil habitantes na divisa de São Paulo e Paraná. “Tenho uma irmã em Ourinhos, tirei uns dias para esfriar a cabeça e voltar ao normal, acabei ficando aqui”, contou Escova ao JC. Inicialmente foi contratado pela Rádio Clube no horário da madrugada em programa sertanejo e depois se transferiu para a Melodia-FM, onde está há quatro anos.


‘Não gosto do humor atual’

Carlos Roberto Escova bate na tecla que existem grandes artistas no País, mas “falta texto”. “Não gosto desse humor atual. Não tem piada, então começam a xingar as pessoas”, diz. Para ele, o humor do programa Pânico é “agressivo”, como também não acha graça no “Casseta e Planeta”.

Escova chegou a trabalhar na rádio Jovem Pan. Em meados de 1991 e 1992, com Emílio Surita, no programa humorístico chamado “Boi na Linha”, onde faziam brincadeiras passando trotes em ouvintes e em personalidades conhecidas do público.

Na opinião dele, humor é preciso ter talento e a piada final. “Aprendi com Chico Anysio. A piada tem que ter 1 minuto e meio para passar para outra. Se não agradar, vai fazendo até achar a linha do personagem. Sem agredir outros”, conta.

Ela afirma que o rádio não está se conseguindo trazer novidades na era da Internet e se adaptar ao cinema e a televisão como no século passado. “Falta criatividade. A Internet vai acabar com o rádio. Em Ourinhos, o AM é só rádio, não tem mais atrações”. vaticina. 


Início no rádio

Escova começou aos 16 anos na Rádio Jovem Pan-AM no programa “Curtição”, das 6h às 7h, com o jornalista  Nelson Tatá Alexandre. “A gente acordava as pessoas com barulhos de panelas, apitos. Eu só fazia as imitações, contava piadas”. Depois dali, Escova participou do “Show de Rádio” e depois foi convidado por Osmar Santos para o programa “Balancê”.


Programa cult

“Perdidos na Noite” ficou na história da televisão brasileira como programa cult. Consagrou Fausto Silva, mas não resta dúvida que a dupla Nelson Tatá Alexandre e Carlos Roberto Escova tiveram papel importante para levantar a audiência.

Estreou em rede nacional pela Rede Gazeta, em 1984, gravado no antigo Teatro Brigadeiro (atual Teatro Abril), dentro do longo espaço noturno ocupado pelo Programa Goulart de Andrade (que também serviu de abrigo, no mesmo período, para as criações da produtora Olhar Eletrônico).

Em setembro de 1984, foi transferido para a TV Record, no antigo Teatro Záccaro e, no dia 16 de abril de 1986, passou a ser exibido em rede nacional pela Rede Bandeirantes, Também no antigo Teatro Záccaro.


Diretas já

O “Balancê” transmitidos pelas rádios Globo e Excelsior ficou marcado nos tempos das Diretas Já e da democracia corintiana de Sócrates e Casagrande. “O programa era um cartum pré-produzido com quatro esquetes. Havia paródia, política e besteirol”, lembra.

É também a fase de imitações de vozes de Jânio Quadros (que se elegera prefeito de São Paulo e ameaçou processar o programa), Paulo Maluf, Lula, entre outros. Escova se considera “vidente espiritual”. “Eu pego a voz emprestada. Pego o ponto franco dessas pessoas”, diz. Ele acredita que consegue fazer centenas de vozes. “Desde o Papa Francisco, Barack Obama, políticos que já morreram, jogador de futebol e celebridades”. Escova gravou o elepê “Perdidos no Disco” com a faixa título Melô do Sai Capeta, Tarzan é Gay, Chicrinha (show de imitações), Lobo Informa, Introdução ao Sexo, Vagabunda, entre outras.


Barraco no palco

Escova conta que “Perdidos na Noite” era puro improviso. Recentemente, o cantor Ovelha contou ao programa “Nasi Noite Adentro” no canal Brasil que saiu no braço com os dois comediantes - Escova e Tatá Alexandre - em uma das apresentações ao vivo. Depois de beber muito no camarim, o cantor não aguentou as gozações. “Ele estava no camarim bebendo. A gente satirizava os artistas antes de entrarem no palco. Na hora de anunciar: agora vem aí a cabra e imitamos o som. O Ovelha não gostou. Partiu para cima”.

Não foi o único. O cantor Agnaldo Timóteo estava cantando. Os dois humoristas fingiram uma briga. “Não deu outra. Sem querer acertamos o Timóteo. Ele abandonou o microfone e começou a bater na gente. Achou que era verdade”. Entrou a turma do “deixa disso” para segurar o cantor.

A produção era bastante precária do “Perdidos na Noite”, justamente o que atraia o espectador e permitia a improvisação, a irreverência, criatividade e o humor, muitas vezes, chulo e politicamente incorreto.


Afastado

Tatá Alexandre (foto acima) teve isquemia cerebral e não consegue mais falar. Foi, no entanto, o grande parceiro de Carlos Escova. Ficaram conhecidos no “Show de Rádio” da Jovem Pan quando participavam das esquetes de humor com Serginho Leite e Osvaldo Sangiardi. Escova participava da rádio Camunducaia, cuja abertura quem fazia era Odair Batista. Depois os dois se consagraram no “Perdidos na Noite”.

 

  • Serviço

Atualmente na rádio Melodia, o comediante continua fazendo apresentações em empresas. Telefones para contato são o (14) 3324-4923 e o (14) 99783-4718