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Cultura

A mulher faquir que passou por aqui

Presença da faquiresa Yone em Bauru, na década de 1950, é contada no livro ?Cravo na Carne ? Fama e Fome?, lançado por dois pesquisadores

por Aline Mendes

27/10/2015 - 09h05

Divulgação
A faquiresa Yone

Durante o século XX, foram populares no cenário artístico brasileiro os faquires que se exibiam em urnas de cristal, deitados sobre pregos ou cacos de vidro, cercados por serpentes e em jejum por longos períodos.

Nesse meio predominantemente masculino, também algumas mulheres se dedicavam à exótica profissão: eram as chamadas faquiresas.

Tal prática era ainda mais ousada para elas, pois naquela época ser atriz ou cantora já era o bastante para que uma mulher fosse discriminada. Suas vidas, envoltas em mistérios e tragédias, geralmente contavam também com romances arrebatadores.

Praticamente extinta, a arte circense do faquirismo é resgatada por histórias de 11 de suas representantes femininas pelos pesquisadores Alberto de Oliveira e Alberto Camarero, no livro “Cravo na Carne – Fama e Fome”, lançado recentemente pela editora Veneta.

Um dos capítulos é dedicado à faquiresa Yone e retrata sua passagem por Bauru em maio de 1957, com o marido, o faquir Lookan. Saiba mais sobre o casal no quadro abaixo (“Vidas intensas”).

O Jornal da Cidade conversou com o historiador paranaense Alberto de Oliveira sobre a fascinante arte.

“Embora fale do passado, o assunto é novo para a maioria das pessoas, que ficam curiosas ao saber que esta arte exótica já teve tanta popularidade no Brasil”, comenta.

Jornal da Cidade: Por que o faquirismo foi extinto?
Alberto de Oliveira: “São vários fatores. Nos anos 60, o Brasil entrou em um processo de modernização. As diversões foram se ampliando e alcançando um número maior de pessoas, o que gerou um desinteresse pelas artes circenses em geral. Além disso, a Ditadura Militar foi instalada. É difícil imaginar que fosse permitido a uma mulher se exibir seminua com serpentes dentro de uma urna de cristal. Por isso, talvez, as mulheres abandonaram o faquirismo bem antes dos homens”.

JC: O que despertavam e hoje se perdeu?
AO: “Talvez as pessoas fossem mais crédulas, mas mesmo no auge do faquirismo, nos anos 50, o público já duvidava do jejum dos artistas. Hoje se conhece o truque da cama de pregos, tão juntinhos que acabam formando, praticamente, uma superfície reta. Também as cobras, anunciadas como “perigosas serpentes” eram inofensivas jiboias. De toda forma, acredito que se um faquir ou faquiresa surgisse, nos moldes de antigamente, despertaria fascínio, encanto, horror, interesse, polêmica, medo, paixão...
Há quase 40 anos o público brasileiro não assiste a um espetáculo com jejum, pregos, cobras e urna de cristal. O último registro de faquiresa data de 1965. Já o último faquir foi Silki, popular nos anos 50, que voltou a jejuar em 1980, em São Paulo”.

JC: Afinal, qual a importância histórica dessas apresentações?
AO: “É importante realizar esse resgate, pois o faquirismo circense foi extremamente popular no Brasil nos anos 50 e seus adeptos integravam o imaginário popular. Os faquires são citados em canções de compositores brasileiros, que quando crianças vivenciaram a forte experiência de assistir a um faquir. Também nos quadrinhos nacionais já foram referência.
O faquirismo já fez parte da cultura geral brasileira e é a ela que pretendemos devolvê-lo com esse livro. É uma face interessante e praticamente esquecida da História do Brasil. E as histórias pessoais que a envolvem são incríveis”.

E o marido mata Yone

 
Expostos à curiosidade pública em saguões de teatro e cinema, salões comerciais, galerias ou pavilhões montados em terrenos baldios para esse fim, alguns faquires se propunham a bater recordes de jejum e tortura. Ao fim de suas provas, eram aclamados como heróis. O casal que se exibiu em Bauru alcançou tal sucesso. Em 1958, um ano depois da passagem por aqui, Yone e Lookan se tornaram campeões mundiais de jejum nas modalidades masculina e feminina, ele com 134 dias sem comer e ela com 76.

Anos depois, ela foi assassinada por Lookan. “O motivo nunca foi esclarecido. Alguns diziam que ela tinha descoberto que ele a traía. Outros diziam que tinha sido o contrário. O fato é que no dia 19 de maio de 1966, Lookan disparou quatro tiros contra Yone, que morreu na sequência”, conta Alberto de Oliveira.
Para saber mais sobre o livro e suas curiosas histórias acesse https://cravonacarnefamaefome.blogspot.com.br. O livro é vendido nas principais livrarias virtuais.