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Cultura

Coração cala o inimitável bauruense Marciano

Ele, que marcou época com João Mineiro e vinha cantando ao lado de Milionário, morreu em São Caetano após sofrer infarto

18/01/2019 - 09h15

Cadu Fernandes
Marciano (sempre de branco) com Milionário: sucesso a partir de 2015 em afinada parceria que rendeu muitos shows e DVD

Marciano - cantor de Bauru para o Brasil com voz marcante e coautor do hit sertanejo "Fio de Cabelo" -, morreu na madrugada de sexta-feira (18), após jantar com amigos e a esposa, Alexandra, em seu apartamento em São Caetano do Sul.

Estava feliz, segundo relatos, e animado com projeto de um disco todo de inéditas. Horas depois, por volta de 2h, sofreu infarto enquanto dormia. Ele deixa dois filhos.

O "Inimitável", como era conhecido, marcou época ao lado de outras duas lendas do sertanejo.

O primeiro foi João Mineiro, com quem gravou vários sucessos desde os anos 70 até o falecimento do parceiro, em 2012. Um dos maiores êxitos foi "Ainda Ontem Chorei de Saudade" (composição de Moacyr Franco).

Um fato curioso é que Marciano compôs, com Dárci Rossi (morto em 20/1/2017), "Fio de Cabelo", mas João Mineiro não gostou.

A música foi para as mãos de Chitãozinho e Xororó e se tornou um divisor de águas no pop sertanejo a partir dos anos 80. Marciano também é autor de "Crises de Amor" e "Paredes Azuis", entre outras.

Em 2015, intermediado por Sorocaba, Marciano formou dupla com Milionário - então sem parceiro musical fixo após morte de José Rico.

Juntos, realizaram dezenas de shows, inclusive em Bauru - no Rastro Music. O projeto Milionário & Marciano ganhou o nome de "Lendas" e rendeu DVD.

Recentemente, Marciano também viu seu nome na mídia por um impasse com um filho, Fabiano Martins, que gerou disputas judiciais. Fabiano disse, nessa sexta-feira (18), ter sido barrado no velório do pai. Segundo comunicado divulgado pela equipe do cantor, seu velório, na Câmara Municipal de São Caetano do Sul, foi aberto ao público. Corpo foi enterrado no fim da tarde no Cemitério das Lágrimas daquela cidade.

Maria, a irmã: 'Era carinhoso e o único da família com dom de cantar'

Fotos: Ana Beatriz Garcia
Maria Marciano Soares mostra as fotos antigas do irmão

Marciano com carro cuja foto a irmã guarda em casa

Alguns amigos e parentes também se emocionaram, nesta sexta-feira (18), ao saberem da morte de Marciano. Por conta da distância e do horário do sepultamento, não puderam estar no adeus do sertanejo.

A irmã, Maria Marciano Soares, 68 anos, é a única viva entre oito filhos e relembra o início da história do artista. "Eu era a caçula e ele escondia a idade, pois tinha agora 77. Mesmo assim, sendo eu mais nova, sempre cuidei muito dele".

Em Bauru, os filhos de Pedro Marciano e Sebastiana da Conceição moraram na Vila Santista (região da Vila Independência).

Divulgação
Renan Augusto e João Miranda fazem tributo a JM e Marciano

"A gente não teve muito estudo. Alguns ficaram aqui, já ele foi pra São Paulo com uns 22 anos. Ele voltava bastante, no começo, para visitar a gente. Vendia roupa com o João Mineiro e vinham para cá. Depois começaram a fazer sucesso e foi ficando mais difícil, mas mesmo assim, sempre que fazia um show por perto, dava um jeito de passar em Bauru para me ver", conta a irmã, que também morou seis anos e meio em São Paulo, em um apartamento alugado por Marciano.

"Ele me ajudou muito. Era um irmão querido, carinhoso e de coração muito bom", destaca.

Na casa de Maria, no Colina Verde, ela guarda fotos antigas. "Lembro quando ele comprou esse carro, ficou tão feliz", diz enquanto aponta para o irmão, ainda jovem, dentro de um carro vermelho, o primeiro dele.

"Ele gostava de cantar desde menino. Era o único da família com o dom. Não sei como aprendeu, mas cantava bonito", comenta.

Além disso, segundo ela, Marciano tinha um grande ídolo, ao qual fazia questão de homenagear. "Ele só usava branco por causa do Roberto Carlos. Se você reparar, até o cabelo dele ele fazia questão de deixar igual. Era muito fã", relata.

Maria ainda diz que o irmão mantinha uma propriedade rural por aqui, onde recebia a família e amigos.

"Já passamos as festas de final de ano reunidos lá, foram momentos muito bons em família", lembra.

JOTHA E RENAN

Arquivo Pessoal
Último encontro entre cantor Marciano e Jotha Luiz, na Hípica, no ano passado

Quem também teve a oportunidade de estar na fazenda é o compositor de Bauru, Jotha Luiz, 68.

"Éramos muito amigos e, sempre que ele estava aqui em Bauru, dava um jeito de me avisar. Nós fizemos cinco músicas juntos, na fazenda, da última vez que fomos pra lá. A última vez que estive com ele foi no ano passado, quando ele esteve na Hípica", detalha o amigo e compositor.

Para ele, o sertanejo perdeu um grande nome. "A família do sertanejo está com um grande buraco agora, foi uma grande perda e eu lamento muito", diz.

Nos palcos, Marciano emplacou grandes sucessos ao lado de seu companheiro, também falecido, João Mineiro e, posteriormente, com Milionário.

Essas canções, não só ficarão no coração de milhares de fãs, mas na voz de cantores como Renan Augusto e Joâo Miranda, que fazem shows como cover de João Mineiro e Marciano em Bauru e região.

"Sou muito fã dele. O Marciano sempre foi uma grande inspiração para mim. A voz romântica e aveludada passava mensagens bonitas e, interpretar ele, é uma honra. Agora faremos nosso trabalho como uma verdadeira homenagem", diz João Ailton Leite, o Renan, de 57 anos.

"Eu sempre falava com ele por telefone, também éramos amigos, sentirei saudades", finaliza.

Você sabia?

João Mineiro e Marciano venderam mais de 12 milhões de discos e se tornaram reconhecidos como precursores do sertanejo romântico.

Veja os vídeos: