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Cultura

'Nossas histórias terão significância?'

Já familiarizados com o isolamento para produzir, escritores se deparam com outros dilemas durante a quarentena

por João Pedro Feza

02/05/2020 - 06h00

Reprodução/Facebook

Rafael Gallo, que mora em São Paulo, passou adolescência em Bauru: questionamento aberto

Eles já são familiarizados com o isolamento. Isso ocorre mais notadamente nos decisivos períodos em que precisam de máxima concentração para tirar histórias e personagens da cabeça e passar tudo para o computador. Em tese, os escritores deveriam se sentir menos afetados com fases de confinamento. Não contavam, contudo, com novos dilemas gerados pela constatação de que toda uma sociedade está impactada, acuada e indecisa.

"Será que nossas histórias terão significância diante do que está acontecendo, será que nossas reflexões continuarão a ser pertinentes?", questiona Rafael Gallo - vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Sesc e indicado ao Jabuti.

Ele mesmo busca respostas: "Talvez o mundo mude tanto, que nossas histórias percam ressonância. Ou pior: talvez o mundo não mude nada, o que será outra falência da humanidade. É difícil escrever quando aquilo do que a literatura é feita - o humano e a linguagem - parecem sob o fio de tamanha ameaça".

"Talvez a única vantagem que escritores tenham, nesse momento de quarentena, é o fato de já estarem um pouco mais habituados a ficarem em casa, a se contentarem com um espaço físico restrito, onde a imaginação é que se expande, com liberdade", avalia.

"O problema, me parece, é que esse âmbito imaginário também está sob quarentena. São outras as formas de se restringir as movimentações do pensamento, claro, mas elas podem ser tão cerceadoras quanto as físicas, ou mais. Não há máscara ou álcool gel que permita à criatividade ir aonde precisa, se ela não tem potência para sair do lugar", prossegue.

Autor de romances e contos, Rafael - que mora em São Paulo, mas passou infância e adolescência em Bauru -, compartilha: "Tenho conversado com colegas e alunos escritores, a maioria tem me revelado os mesmos problemas: dificuldade de concentração para ler ou escrever, quebra de propósito na relação com ficções, dispersão em meio a tanto ruído de notícias e preocupações cotidianas, ansiedades demasiadas, inadaptação ao desmonte da rotina e - pior do que tudo - um senso de esvaziamento do mundo tal qual o conhecíamos".

'Amarrado'

Autor de 12 livros com temática espírita pela Editora Ceac, de Bauru, Sidney Fernandes também tenta assimilar essa época de novo coronavírus e distanciamento. "Não gosto da expressão 'matar o tempo', pois fico procurando, às vezes na madrugada, tempo para escrever, gravar vídeos, colocar a correspondência em dia e fazer palestras virtuais. O tempo é algo precioso", pontua.

Ele reconhece que "o isolamento é realmente o sonho de todo escritor, para que sua criatividade possa se manifestar livremente", mas também faz ressalvas: "Confesso, no entanto que, mesmo 'amarrado' ao computador, em 'cárcere privado', ainda não consegui tomar as providências finais de meu próximo livro e não dei andamento a dois outros, em fase de construção".

Pedro Salomão: um dia por vez

Divulgação

Pedro Salomão: comportamento humano em tempos desafiadores

O escritor e palestrante carioca Pedro Salomão prevê lançar seu terceiro livro, "Valor Presente", no segundo semestre. Todo o conteúdo inicial foi escrito durante a quarentena e tem, como pano de fundo, o comportamento humano em tempos difíceis,

Após tratar, nas duas obras anteriores, da felicidade como estratégia empreendedora e da liderança como um exercício, o autor agora fala do valor de se viver um dia de cada vez.

Finalista do Prêmio Jabuti, ele busca uma reflexão sobre a pressa do dia a dia e a "desconexão com a nossa capacidade básica de sermos humanos". Segundo seus divulgadores, "sempre traz um olhar otimista, atento e simples sobre as diversas atitudes que sem perceber nos afastam de uma vida mais plena e leve".

Trecho de 'Valor Presente' (livro inédito de Salomão)

"Eu jamais compararia essa quarentena a um presente, afinal, o coronavírus tem causado sofrimento a muita gente. Estamos vivendo uma crise muito difícil, é inegável. Mas, como a minha própria trajetória me mostrou, as crises trazem grandes oportunidades e, se soubermos e estivermos dispostos a aproveitá-las, podemos, sim, sair dessa muito melhores. Pronto, o mundo parou. Agora só falta a gente descer.

Descer do mundo, a essa altura do campeonato, pode ter diversos significados. Basta que a gente se lembre de quando desejou com toda a força que tudo parasse de vez: durante uma crise no casamento, depois de ler uma notícia sobre a violência urbana, ouvindo um parente discordar furiosamente de nós quando o assunto era política, exaustos depois de um dia inteiro de trabalho, sofrendo com a pressão e a competição no escritório. Será que, agora que o mundo parou, nós já mudamos ou, pelo menos, repensamos as atitudes que nos levaram a todas essas situações no passado?"

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