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Cultura

O delivery de sorrisos dos Doutores da Alegria

Série de mais de 40 vídeos curtos feitos em casa são publicados no YouTube e encanta pessoas de todas as idades

por Caio Nascimento

28/06/2020 - 05h00

Doutores da Alegria

Os Doutores da Alegria acharam um jeito de entreter as crianças na quarentena

Depois de mais de um milhão e meio de intervenções em hospitais ao longo de três décadas, a ONG Doutores da Alegria se reinventou para continuar despertando sorrisos em crianças durante a quarentena. O grupo de 72 palhaços, que atua em São Paulo, Rio e Recife, estreou o Delivery Besteirológico, uma série de mais de 40 vídeos curtos feitos em casa e publicados no YouTube e grupos do WhatsApp.

As gravações incluem brincadeiras e formas lúdicas de explicar para os pequenos a importância de se proteger do novo coronavírus, lavando as mãos, usando máscara e passando álcool em gel. Segundo o diretor artístico Ronaldo Aguiar, que se transforma no palhaço Dr. Charlito, essa é uma forma de continuar garantindo às crianças internadas o acesso à cultura e ao brincar.

"As brinquedotecas estão fechadas por causa da pandemia e isso nos preocupa, porque a humanização ressignifica os hospitais desde a década de 1990. Esses lugares viraram espaços de brincadeira também", explica ele, que trabalha na Doutores de Alegria há 17 anos. "Agora, o foco é entreter as crianças pela internet para assegurar a elas o direito à infância", completa.

A ideia vem surtindo efeito: segundo Aguiar, os vídeos já tiveram mais de 59 mil interações e 3,5 milhões de visualizações desde o início do isolamento. Sarah Martins, de 5 anos, é uma das que se divertem com as palhaçadas. A menina está internada com leucemia linfóide aguda no Instituto de Tratamento do Câncer Infantil (Itaci), em São Paulo, e não recebe visitas desde abril por ser do grupo de risco da covid-19, devido à baixa imunidade. Assim, uma das formas de ela amenizar a falta da família e o tédio é rindo com os Doutores da Alegria. "Eu vim para cá porque fiquei com um bichinho no sangue. Quando recebo coisa para brincar, sinto muita felicidade", diz a menina "Ela se diverte. É muito importante que os palhaços continuem levando felicidade para as crianças, porque a atmosfera [do hospital] é muito pesada. Mesmo a distância, eles conseguem transmitir calma e paz", diz a mãe, Ariane Martins, que se isola no hospital com a filha desde o começo da quarentena para evitar o risco de contágio pelo coronavírus.

Além do Delivery, os Doutores da Alegria começaram há pouco tempo o projeto piloto Consultório Besteirológico Online, no qual o palhaço faz chamadas de vídeo ao vivo para os pacientes. Fora isso, a ONG está preparando para este mês a festa virtual São Joãozinho, improvisando em casa barracas de quermesse para brincadeiras juninas online.

"Antes fazíamos isso presencialmente. Agora, vamos nos reinventar para que a criançada, mesmo internada e no meio da pandemia, não esqueça do contexto cultural do nosso País", explica Ronaldo Aguiar.

SERVIÇO

Veja os vídeos do Delivery Besteirológico em https://www.youtube.com/watch?v=RXR2XJ4ocz4&list=PLbGYBqIX5vaYMO1wfyn6os5tUNKvOz5Xi">

Mensagem e cultura

O alto-astral dos palhaços não é apenas para animar pacientes diante de um momento difícil. Por trás de cada artista fantasiado existe um cidadão sonhador e preocupado em formar uma criança sensível à arte, sem que os problemas de saúde a impeçam de ter acesso à cultura que existe fora do hospital.

"Quando a criança brinca de presidente, médico, rei, ela cria perspectivas futuras e um leque de possibilidades na vida dela. A criança em contato com a arte deixa de ser limitada. Ela se projeta para além da situação que está vivendo. Então é importante que isso chegue na área da saúde, assim como chega nas escolas", analisa Aguiar. Nesse sentido, o diretor artístico explica que os doutores atuam exclusivamente em hospitais públicos, com famílias mais pobres. "Na maioria das vezes, trabalhamos com pacientes que nunca tiveram acesso a alimentação e educação de qualidade, então muda muito o formato do discurso da criança na brincadeira. Muitas delas têm o primeiro contato com a arte quando são internadas no hospital. Então o nosso trabalho se faz necessário, mesmo que a distância."

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