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Cultura

Bauru redescobre o seu Chopin

O já falecido maestro Miguel Ângelo Ruiz foi comparado a este e outros gênios por um pianista de renome nacional

por Cinthia Milanez

18/10/2020 - 05h00

Reprodução

Maestro Miguel Ângelo Ruiz

Valsa, choro, tango e canções orquestradas ou para pequenos grupos fazem parte do acervo de mais de 100 partituras compostas pelo já falecido maestro Miguel Ângelo Ruiz, que passou a viver em Bauru desde os dois primeiros meses da sua vida. Recentemente, ele foi comparado a gênios da música erudita, como Schumann, Chopin, Mendelssohn e Debussy, por uma das maiores referências do piano brasileiro: Flávio Augusto de Oliveira.

O instrumentista, que também integra a Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), frisa que o primeiro contato com a obra de Ruiz se deu no final de 2018, quando ele foi convidado pelo amigo, maestro e violinista Jean Reis para fazer um concerto, em janeiro de 2019, durante o 1º Festival de Música de Bauru (Fimub), apresentando a sua "Sonata n.º 1 em Dó Menor para Violino e Piano".

Ainda de acordo com Oliveira, o pianista costuma receber pedidos de produtores para executar obras de compositores locais em suas apresentações, fato que facilita as negociações com os patrocinadores e apoiadores dos eventos. Ao mesmo tempo, é possível criar um vínculo maior entre o público e o trabalho do instrumentista. Porém, o profissional confessa que estas solicitações nunca o agradaram, afinal, na maioria das vezes ele se deparava com obras sem conteúdo técnico-musical relevante.

Por isso, Oliveira alega que sentiu um grande frio no estômago quando Jean Reis pediu que ele apresentasse, em Bauru, uma composição de um maestro que, até então, desconhecia por completo. Todavia, o pianista se surpreendeu. "Ao dedilhar a 'Sonata', eu percebi claramente que não se tratava de um compositor qualquer. A escrita para piano era extremamente bem elaborada. Enfim, constatei, na mesma hora, que estava diante de uma obra que poderia ter sido escrita por qualquer um dos grandes gênios da nossa música brasileira, como Ernesto Nazareth, Lorenzo Fernândez, Francisco Mignone etc", exalta.

Depois da apresentação, Oliveira conheceu a maestrina Sônia Berriel. Na ocasião, ela disse que a sua filha, Maria Júlia Berriel Soares Ruiz, e o seu genro, Márcio Augusto de Souza Ruiz, neto de Miguel Ângelo Ruiz, assumiram a curadoria da obra do maestro. "Eu fiquei interessadíssimo em conhecer tal acervo", revela.

Assim, em 2020, o pianista começou a receber partituras digitalizadas de Ruiz, trabalho desenvolvido pelo regente da Orquestra Sinfônica de Bauru, o maestro Paulo Gomes. "Um dos momentos mais emocionantes foi quando dedilhei a música 'Voo da Garça', que poderia ter sido escrita por Schumann, Chopin, Mendelssohn ou Debussy", elogia.

Desde então, o instrumentista toca e grava todas as partituras do maestro que chegam às suas mãos. "O mundo precisa conhecer a história deste grande compositor e apreciar o seu belíssimo acervo", complementa.

'PAI MUSICAL'

Segundo Sônia Berriel, Ruiz foi um grande amigo e, ainda, um "pai musical". "Em 1968, eu pedi para que a grande maestrina Terezinha Bortoni fizesse alguns arranjos para o coral da ITE e ela me indicou o maestro. Na época, ele disse que não produzia músicas vocais, mas acabou cedendo. Eis que nasceu uma amizade que perdurou por anos", narra.

Sônia lamenta o fato de Ruiz nunca ter sido reconhecido como um grande compositor em vida. "Agora, nós trabalhamos para juntar as músicas feitas por ele, que costumava presentear os mais chegados com canções inéditas", observa.

Miguel Ângelo Ruiz nasceu em 31 de maio de 1909, em Santos, filho de Miguel Ruiz e Jesus Cortijo Ruiz. Em julho daquele mesmo ano, a família se mudou para Bauru.

Em 1942, ele se formou no Curso de Piano do Conservatório Dramático e Musical de Bauru. O hino "Avante Noroeste", a sua composição para o Esporte Clube Noroeste, é tocado até hoje no início das partidas das quais o time participa.

Em 1980, Ruiz recebeu o Título de Cidadão Bauruense da Câmara em reconhecimento ao seu trabalho musical. O maestro faleceu em 29 de março de 1981, vítima de um infarto.

Buscando partituras e histórias

Filha da mestrina Sônia Berriel, Maria Júlia Berriel Soares Ruiz, de 48 anos, relata que a primogênita de Ruiz, a senhora Maria Zuleika Dias Ruiz, cuidou das suas partituras até 2019, quando resolveu passar tal responsabilidade ao neto do maestro, Márcio Augusto de Souza Ruiz, de 47 anos. O casal, que vive em Foz do Iguaçu, no Estado do Paraná, pretende reunir as 130 partituras de Ruiz em um endereço eletrônico e, futuramente, publicar um livro. "Eu tinha 9 anos quando o maestro faleceu, mas consigo me lembrar dele em vários ensaios na casa da minha família. Coincidentemente, conheci o seu neto depois de adulta e nós nos casamos", relata Márcio.

Se alguém tiver qualquer partitura assinada por Ruiz ou alguma história com o mesmo, basta entrar em contato através dos telefones (45) 99916-1407 (Maria Júlia), (45) 99147-0907 (Márcio Augusto) ou (14) 99702-8097 (Sônia).

Existe, ainda, a possibilidade de enviar um e-mail para os seguintes endereços: [email protected][email protected] ou [email protected]

 

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