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Cultura

Olga Tokarczuk trata do descompasso entre alma e corpo em livro infantil cheio de beleza

por FolhaPress

13/10/2020 - 20h55

"Se alguém pudesse nos olhar do alto, veria que o mundo está repleto de pessoas que andam apressadas, suadas e exaustas e também veria suas almas, atrasadas e perdidas no caminho por não conseguirem acompanhar seus donos", diz uma mulher ao protagonista de "A Alma Perdida", conto da polonesa Olga Tokarczuk, laureada com o Nobel de Literatura de 2018.

O protagonista é João, um homem que, andando depressa, acabou perdendo a alma no caminho. Quando esquece até o nome, passa por uma consulta com essa espécie de médica nada ortodoxa.

"A Alma Perdida" é um livro infantil, mas também uma ótima leitura para pessoas de todas as idades. No plano simbólico, ao menos para os adultos, a interpretação é tão direta que poderia empobrecer a experiência literária. Por isso, o maior desafio da obra talvez tenha sido o de desenrolar o enredo de maneira vivaz, fazendo uma costura entre a dimensão mítica e a concreta.

Mas, em poucas páginas, Tokarczuk e a ilustradora Joanna Concejo nos apresentam não só a ação --que é quase nenhuma, pois essa é a premissa--, como representam, esteticamente, o descompasso entre mundo externo e mundo interno que marca tanto a vida de João quanto a nossa.

O livro recupera o sentido etimológico do termo "alma" -- do latim, animu ou anima, que significa o que anima, o que dá vida-- em oposição a automatização, uniformização e segmentação próprios da atualidade. No conto, a explicação para o divórcio entre a pessoa e a alma é a de que "a velocidade com que as almas se movimentam é muito menor do que a dos corpos".

Então, o conselho que João recebe da velha sábia é "achar um lugar só para si, sentar-se e aguardar com paciência a sua alma". "Ela deve estar, neste momento, no lugar onde você passou há dois, três anos."

Com um pouco de humor e melancolia, a fábula encontra um tom híbrido equilibrado.

A desaceleração que então passa a ocorrer no campo do enredo também se dá no campo da linguagem. O livro, que começa com páginas recheadas de texto, vai sendo tomado por ilustrações bucólicas detalhadas, entrecortadas por uma ou outra frase, como se o tempo estivesse se distendendo e, assim, nós também estivéssemos tomados pela lentidão, à espera da alma junto com o protagonista.

Mas, se ainda não podemos enterrar relógios para ver nascer flores, como faz João, talvez possamos observar as páginas sem pressa, com atenção e presença, contemplando as imagens que vão contando, de forma poética, uma parte dos "muitos dias, semanas, meses" em que a alma do protagonista fez o caminho de volta e de como ele mesmo foi se preparando para a receber.

Com sorte, pelo brevíssimo intervalo em que estivermos lendo essa beleza que é "A Alma Perdida", quem sabe não reencontremos a nossa.

A Alma Perdida

Autor: Olga Tokarczuk. Trad.: Gabriel Burowski.

Ilustrações: Joanna Concejo. R$ 48 (48 págs.); R$ 32 (ebook)

Avaliação: Ótimo

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