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Cultura

O grande salto: bauruense de coração chega ao Cirque du Soleil

Aos 33 anos, Hugo Giampietro alcança o sonho de participar de uma das maiores companhias de circo do mundo

por Samantha Ciuffa

25/10/2020 - 05h00

Arquivo Pessoal

Hugo quando chegou ao México, única foto que pôde publicar

Do esporte às artes, Hugo Giampietro, 33 anos, natural de São Bernardo do Campo, mas bauruense de coração, conseguirá realizar um grande sonho: apresentar sua arte em um dos maiores palcos circenses do mundo, o Cirque du Soleil. Desde criança, Hugo escolheu a ginástica artística e competiu em diversos campeonatos ao longo dos anos. Logo, o ginasta voltaria o olhar para as artes, após assistir ao primeiro espetáculo do Soleil. Foi quando teve certeza de que seu futuro estaria ali. Passou por diversas companhias de circo e viajou o mundo fazendo o que ama, mas foi só durante a pandemia que recebeu a ligação tão esperada. Foi junto dos pais, em Bauru, que foi convidado para participar do elenco do grande espetáculo. Atualmente, ele está no México, se preparando para sua estreia, no dia 11 de novembro. Confira o bate-papo sobre esta trajetória.

Quando você entrou para o esporte?

Hugo Giampietro - Eu tinha 8 anos quando assisti a uma competição na TV de ginástica artística. Peguei a lista telefônica, achei o telefone da Prefeitura de Bauru e liguei para pedir informação sobre lugares para treinar. Comecei na escolinha de ginástica e competi muitos anos por Bauru como atleta em jogos regionais e abertos. Só depois me especializei e fui para o circo.

Quando foi essa passagem?

Giampietro - Um pouco antes de fazer faculdade, por volta dos 17, fiz teatro e na mesma época assisti ao primeiro espetáculo do Cirque du Soleil. Na época, aluguei um DVD e fiquei encantado. Fiz faculdade de Educação Física e dei aula de ginástica olímpica, mas logo consegui meu primeiro trabalho em uma companhia de circo americana. Fui para as Filipinas trabalhar em um parque temático.

Foi quando começou sua trajetória rumo ao Soleil?

Giampietro - Sim. Desde então, tenho trabalhado com um monte de companhias diferentes. Teve essa companhia americana, depois comecei a trabalhar com o circo Roda Brasil, seguido da Companhia Rudá, de Santos, e depois fui para o navio Royal Caribbean, onde trabalhei em muitas produções. Fiz duas turnês pelas Bahamas e uma pela Europa. No Brasil, em 2018, estava na primeira produção da Turma da Mônica, com shows musicais. Participei do Circo da Mônica, onde trabalhei com o Dedé Santana. Foi no mesmo ano que fiz audição para o Cirque du Soleil.

E o caminho até conseguir entrar?

Giampietro - Em 2018, enviei alguns vídeos e fui selecionado para as audições. Depois que fui para o Rio para fazer os testes presenciais na Escola Nacional do Circo, consegui entrar para o banco de dados de artistas em potencial para trabalhar nas produções do Soleil. Em 2020, essa produção do México que chama Joyà teve de ser fechada depois da Covid, mas um tempo depois eles entraram em contato comigo, falando que tinha essa vaga disponível. Passei por algumas entrevistas online e agora estou aqui ensaiando para a reabertura do show. Vou trabalhar nesse espetáculo durante pelo menos um ano.

Foi a realização de um sonho, certamente.

Giampietro - Eu tinha muitos trabalhos programados para esse ano, e quando chegou a pandemia, eu fiquei por meses sem perspectiva nenhuma de trabalho. Quando aliviou um pouco, eu fui ficar um tempo com meus pais em Bauru. Foi quando recebi a ligação. Durante todas as negociações e entrevistas, eu estava em Bauru com eles. Foi uma alegria enorme, era um chamado que eu esperava há muitos anos, todos ficamos muito felizes. Eu sempre sonhei em trabalhar com o Soleil.

Como é o preparo para um espetáculo desse porte?

Giampietro - No meu caso, eu fui chamado para uma produção já existente, o perfil que eles queriam já estava adequado ao meu como artista. Eu já tinha a formação de teatro e dança, mas os treinos são bem intensos e está sendo corrido, porque eles vão encaixar o elenco novo na reestreia do show. Tenho ensaiado por volta de seis horas diárias, durante cinco dias da semana. Metade do tempo treino trampolim, que é meu número específico, e na outra metade, fico na formação geral, para aprender as outras cenas.

Como ensaiar durante a pandemia?

Giampietro - O Soleil mandou grande parte do elenco embora, e tem bastante artista nessa situação de instabilidade. Esse show está voltando porque nessa região do México a pandemia está mais controlada. Mesmo assim, estamos tomando muitas precauções diferentes. Máscara o tempo todo, no palco e também no backstage, estamos lavando a mão toda hora, usando álcool gel, enfim. Tiveram que ser criados muitos protocolos novos de higiene e de cuidados para evitar a contaminação entre os artistas.

A equipe reduzida interfere na construção do show?

Giampietro - A situação afetou bastante a parte do pessoal de produção e equipe técnica. Vamos voltar com menos espetáculos por semana até tudo ir se regularizando. Diretamente, na qualidade do espetáculo, eu acredito que não vai influenciar. A princípio, é mais pela quantidade de shows que vão ser feitos, porque com uma equipe técnica maior e mais completa é possível fazer mais shows devido ao revezamento. A demanda agora está sendo menor também, o resort onde essa produção é fixa, chamado "Vidanta - Riviera Maya", fica entre Porto Morilo e Playa Del Carmen, Estado de Quintana Roo, aproximadamente a 50km de Cancún. As pessoas ainda estão receosas, então o público diminuiu. O retorno será gradual.

E os planos para o futuro?

Giampietro - Talvez no futuro eu volte para o Brasil, penso em criar minha própria companhia e dirigir meus próprios espetáculos. A mensagem que eu deixo é para nunca desistir dos sonhos. Nada cai de bandeja, a gente precisa estar sempre se atualizando, buscando melhorar, evitar ouvir comentários de julgamento de pessoas que acham que você não é capaz. Nem sempre só o destino final é o mais interessante, às vezes o caminho para conseguir chegar lá pode ser uma jornada incrível. Hoje consegui chegar no meu objetivo e a partir daqui vou ver o que o futuro me prepara. É preciso ter fé nos seus sonhos e continuar lutando. Uma hora os resultados aparecem.

 

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