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Cultura

Fernanda Abreu revisita os 30 anos de carreira

Prestes a lançar, no dia 3 de dezembro, DVD "Amor Geral (A) Live"

por Eduardo Vanini

18/11/2020 - 05h00

Marina Benzaquem/Agência O Globo

Fernanda Abreu: "Só vejo que o tempo está passando quando olho para minhas filhas"

Fernanda Abreu teve o seu pioneirismo reconhecido pela gravadora, quando decidiu alçar voo solo depois de deixar a Blitz. "Disseram: 'Fernandinha, ainda não temos esse mercado de pop e dance music brasileira. Você vai inaugurar isso aí'", recorda-se ela, que entrou na década de 1990 com o pé na porta, ao lançar o seu "SLA radical dance disco club". Trinta anos depois, num 2020 em que a Humanidade anseia por celebrar a chegada de uma vacina nas pistas de dança, cá está a heroína pop tupiniquim, cheia de projetos. Fernanda lança, no dia 3 de dezembro, o DVD "Amor Geral (A) Live", registro de sua última turnê, enquanto guarda outras novidades na manga. Prepara um álbum de remixes e uma exposição comemorativa pelas três décadas de carreira.

"Só vejo que o tempo está passando quando olho para as minhas filhas", diz a cantora, que chega aos 60 no ano que vem e é mãe de Sofia, de 28, e Alice, de 20, ambas com o ex-marido, Luiz Stein. "Mas continuo com a mesma energia. Sinto o mesmo tesão em fazer música nova e mergulhar em um projeto inédito."

O novo DVD traduz bem esse posicionamento de Fernanda diante da vida. A gravação foi feita no Imperator, e a artista já estava no camarim quando soube que um decreto, baixado naquela sexta 13 de março, havia fechado todos os equipamentos culturais no Estado do Rio, em função da pandemia. O público, que já estava na porta, não pode entrar, mas a cantora decidiu gravar mesmo assim, com a casa vazia.

"Juntei a equipe e falei: 'Imaginem 5 mil pessoas na nossa frente e vamos dar o nosso máximo'", conta. "Fizemos o show direto, sem parar. Só repetimos uma canção por causa de um ruído no microfone. Foi incrível." A atitude revela também a segurança de quem viu o showbiz nascer no Brasil. "Outro dia, minhas filhas me perguntaram como era a Blitz, e respondi: 'tipo Justin Bieber'. Eram shows em estádio, gente gritando embaixo dos hotéis", relembra Fernanda. Ela só viu a referida indústria se consolidar após o primeiro Rock in Rio, em 1985.

A memória também a faz se teletransportar até uma cena em que o Rio "era uma meca", nos mesmos anos 1980. "Estávamos saindo da ditadura, éramos jovens e tínhamos um desejo enorme de criatividade. Conseguimos isso por meio da música, do teatro, do cinema, da poesia e das artes gráficas", elenca, em meio a citações a Cazuza, Asdrúbal Trouxe o Trombone e Fausto Fawcett.

Ao lado dela, uma outra virginiana assistia a toda essa efervescência de camarote: a amiga Deborah Colker. "Quando a Fernanda começou, já havia grandes shows, como Prince, Madonna e Michael Jackson, mas no Brasil ainda não tinha essa coisa de apresentações com canto e dança. Ela foi uma das primeiras a correr atrás disso", recorda-se a coreógrafa. "Íamos a bailes na Mangueira e em Madureira para caçar bailarinos. "Ela trouxe o black, o soul, a dança de rua, e eu trouxe a coisa de misturarmos tudo para inventar algo novo."

O caminho das duas se cruzou pela dança, já que Fernanda começou a fazer balé clássico aos 9 anos, prática que considera definidora de sua personalidade. "O balé ensina que você nunca está pronto. Se deu sete piruetas hoje, pode dar oito amanhã", diz. Mas, desde que pegou chikungunya no ano passado, a cantora ainda se recupera de algumas dores no corpo, intensificadas por uma capsulite aguda nos ombros. Por causa disso, precisou pegar mais leve nas tais piruetas, mas não deixou o corpo adormecer.

Faz ioga, pilates e longas caminhadas entre o Horto e o Jardim Botânico. A "senhora sangue bom", como ela mesma se apresenta durante a entrevista, acena para os 60 anos com a positividade de quem está satisfeita com o que vem construindo. Um dos projetos que mais a empolga é a exposição pelos 30 anos de carreira, completados em julho deste ano. "Será um passeio pela trajetória visual do meu trabalho, trazendo todos os elementos do Rio que o permeiam. Esse que é um mini-Brasil, no sentido dos contrastes. Também não haverá somente Fernanda Abreu para lá e para cá, mas uma mistura de linguagens, com sons e imagens que marcaram esses anos de produção cultural", adianta.

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