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Cultura

O novo velho

Conheça a Dark Academia, estética que cultua os clássicos da literatura e é febre entre os jovens

por Mariana Coutinho

21/11/2020 - 05h00

Estantes de madeira apinhadas de livros, velas, jornais, diários com caligrafia caprichada e uma xícara de chá. De uma vitrola saem notas de música clássica e jovens com boinas, blazers de tweed e saias xadrez invadem o quadro, refletidos nos espelhos com molduras em arabescos. Poderia ser um cenário saído dos anos 1940 ou do filme "Sociedade dos Poetas Mortos" (1989), mas é a nova estética que brilha nos vídeos do TikTok - a rede social preferida da geração Z (nascidos depois de 1996).

A modinha tem nome e sobrenome: Dark Academia. Trata-se de uma subcultura que idolatra o conhecimento acadêmico e pode se manifestar em roupas, decoração e estilo de vida, especialmente para o público entre 14 e 25 anos. A pandemia e as aulas transferidas para o online parecem ter impulsionado a hashtag #darkacademia, que já soma 90 milhões de visualizações no TikTok e quase 250 mil publicações no Instagram.

A estudante Mayara Batista, 19 anos, conheceu a estética no fim do ano passado, quando estudava para o vestibular. Inspirada pelo estilo, montou um canto de estudos nessa "vibe" e passou a compartilhar sua rotina com os livros nas redes sociais. "Tem uma romantização dos estudos", reflete a jovem, que conseguiu uma vaga na Universidade de São Paulo (USP), no curso de Publicidade. "Mas acho que se incentiva a busca pelo conhecimento já é positivo."

Mayara encontrou pouco material em português sobre o assunto e resolveu, então, produzir conteúdo para o YouTube. Em um mês, seu vídeo sobre o tema coleciona 3 mil visualizações. Prova de que o estilo vem ganhando mais adeptos no Brasil. E, além da geração Z, tem inspirado millennials (nascidos entre 1981 e 1995).

No caso dessa segunda turma, o sentimento é mais de identificação do que de descoberta. A produtora de conteúdo Melina Souza, 33 anos, por exemplo, achou um nome para definir seu lifestyle. Com diversas resenhas de livros no YouTube e um feed caprichado em tons terrosos no Instagram, ela foi oficialmente apresentada à Dark Academia há dois meses. "Tem uma questão introspectiva, reflexiva. É um culto ao analógico, mas que vive do compartilhamento intenso nas redes sociais." 

DARK ACADEMIA

O termo apareceu como rótulo para histórias de crime com clima sombrio, por volta de 2014, nos EUA. Um expoente do estilo é o livro "A história secreta", de Donna Tartt, citado por 10 entre 10 aficcionados. A narrativa se passa em uma universidade norte-americana, envolve um assassinato e um grupo de estudantes que parecem deslocados de sua época e emulam os autores clássicos e seus personagens.

Em contornos góticos, o culto às artes foi se expandindo com o tempo e ganhou referências como os clássicos gregos (os adeptos da Dark Academia valorizam muito o aprendizado de línguas, inclusive), Shakespeare, Oscar Wilde, Emily Brontë, chegando até a cultura pop com Harry Potter e filmes como "Sociedade dos poetas mortos", "O Sorriso de Monalisa" e "Os sonhadores".

Algumas subestéticas também aparecem dentro da tribo, como a Light Academia, versão mais leve e luminosa, que suaviza os tons sombrios com roupas mais claras e pegada mais outonal. A versão light se aproxima, inclusive, de outro estilo popular entre os jovens no TikTok, o Cottagecore. Esse também aposta na nostalgia, mas se volta para a vida mais simples do campo. 

Embora o escapismo seja uma marca do estilo, os adeptos garantem que não se trata de alienação. "Fazemos leituras críticas de livros mais antigos. O objetivo é usar o conhecimento para lidar com questões atuais", diz a estudante Ana Paula Alves, citando debates sobre racismo e o movimento "Vidas Negras Importam".

Outra crítica ao movimento é de certa elitização. Apesar da pompa, os jovens se defendem e esclarecem que não gastam muito com roupas. Elas costumam sair dos armários das mães e avós ou de brechós, enquanto objetos nostálgicos de decoração são achados em bazares. 

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