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Cultura

'Sou um pouquinho de cada um que conversa comigo'

Amante das letras, Pedro Bial colocou no papel alguns de muitos bate-papos

por Eliana Silva de Souza

21/02/2021 - 03h00

Jardiel Carvalho/Folhapress

Pedro Bial

Prestes a completar 40 anos de televisão, nos bastidores ou na frente das câmeras, o jornalista, escritor, cineasta e poeta Pedro Bial tem se realizado como apresentador. No comando de seu talk-show "Conversa com Bial" desde 2017, muitas foram as entrevistas que marcaram o programa e sua trajetória profissional. Mesmo com a pandemia, que impôs o isolamento social, a atração das noites da Globo se manteve, de forma remota, trazendo convidados mais que especiais, como foi o caso de Barack Obama. Amante das letras, o jornalista decidiu colocar no papel alguns desses muitos bate-papos, selecionando 20 nomes que integram o livro "Conversa com Bial em Casa - Os 70 Anos da TV Brasileira em Tempos de Internet e Isolamento Social" (Ed. Cobogó). Em entrevista virtual ao Estadão, Bial, aos 62 anos, falou sobre esse novo projeto: "Eu sou um pouquinho de cada um que conversa comigo".

Como foi feita a seleção das entrevistas para o livro?

Pedro Bial - Confesso que, depois de dar uma olhada e perceber que elas ficavam em pé sozinhas, achei melhor terceirizar a seleção. Eu terceirizo, por exemplo, no dia a dia do programa. Faço as entrevistas e terceirizo a edição, quase não dou pitaco na edição, porque acho que é melhor alguém que está vendo de fora. É enriquecedor ter mais uma camada de olhar e interpretação em cima do que foi feito. De certa maneira, isso se repetiu no livro. As entrevistas que estavam feitas tiveram o olhar da edição, dos editores. A Isabel Diegues (sócia-diretora da Cobogó) e a equipe dela é que fizeram isso. E aí começou um diálogo, uma conversa para ajustes, um pouco de dó assim: 'puxa, podia ter ido um pouquinho mais para ter um Obama', por exemplo. Mas aí também não dá, porque o livro tem certa urgência.

Quem falta entrevistar?

Bial - No Brasil, meu grande lamento, um cara que sempre foi muito carinhoso comigo, sempre deu entrevistas maravilhosas, mas anda meio recolhido, o Pelé. Este ano, 50 anos da Copa de 70 e com 80 anos de vida, ele não falou com ninguém. No plano internacional, é até meio lugar-comum, mas o papa Francisco.

Algum entrevistado deixou você sem graça, te emocionou?

Bial - Sem graça, eu não sei. Se aconteceu, acho que, saudavelmente, esqueci. Mas lembro de ter me emocionado várias vezes. Esse tipo de comunicação, mediada eletronicamente, potencializa muito as emoções. Incrivelmente, esse distanciamento humanizou muito as relações.

Como avalia seu trabalho?

Bial - Passo horas gravando, é muito trabalhoso, mas entendi que, quando estou com o entrevistado, estamos conversando, e eu estou absorvendo tudo que está acontecendo. E o inconsciente está captando tudo que está rolando atrás dela, do lado. O mundo continua a te informar e você está aqui com sua atenção voltada para o seu interlocutor. É um exercício de concentração muito exaustivo. Termino os dias de gravação assim, cansado mesmo. Cada vez eu me concentro mais, fico mais afiado, super foco, mas o cansaço físico e mental, depois, é muito grande. Mas acho que tudo isso contribuiu para que essas entrevistas tivessem um nível mais alto de entrega de parte e parte. Em uma das conversas, por exemplo, percebi que tinha a oportunidade de fazer um trabalho cada vez mais melhor. Foi com o Lima Duarte. Ele estava em um sítio, isolado, as condições de internet muito difíceis, tanto que, no primeiro dia, a ligação caiu, e foi uma das melhores coisas que aconteceu. No dia seguinte, restabelecemos o contato e foi a coisa mais bonitas que aconteceu no ano.

Como será o programa depois?

Bial - Evidente que, quando for possível eu fazer o programa presencial, vou voltar, mas não vou mais voltar ao que era, em termos de cenário e composição do estúdio. A gente já está projetando para uma coisa diferente. Me caiu essa ficha: pô, televisão no século 21, por que reproduzir o palco italiano? A TV tem quantas dimensões você quiser, e você vai fazer papai e mamãe? Já estamos pensando em uma outra distribuição da plateia, mas, além disso, preservar essa intimidade que as conversas ganharam este ano, mas em um espaço com público. Além disso, o recurso digital, a gente pode usar a qualquer hora. Não é abandonar nada do que a gente fez até agora, mas acrescentar esses novos recursos.

O que é essa pandemia diante de tudo que já presenciou?

Pedro Bial - Eu vivi e tinha consciência de que estava vivendo grandes eventos que, de uma maneira ou de outra, entrariam para a história. Guerras, crises internacionais. Mas acho que nenhuma se compara ao que todos os seres humanos estão vivendo, sob a mesma ameaça e vivendo a mesma situação-limite. Mesmo as comparações com a Gripe Espanhola, de 1918. Era diferente, o vírus viajava de navio, era um outro mundo. Nunca vivi nada parecido. Eu tenho uma mãe de 96 anos, fugiu da Alemanha, passou por guerra, e ainda pega essa pandemia pela proa, e está achando ótimo.

Você já plantou uma árvore? Porque o resto já fez.

Pedro Bial - Já plantei várias árvores, já derrubei árvore, já salvei árvore. Um dos meus maiores orgulhos é um pau-brasil que estava morrendo num terreno que eu comprei no Rio. Peguei uma força-tarefa de jardineiro, biólogo, botânico, e a gente salvou um pau-brasil altíssimo. Pelos cálculos, ele deve ter mais de cem anos, porque é uma árvore que cresce devagar. Esse terreno é onde construí minha casa. De tudo que eu tenho de patrimônio, o pau-brasil é meu maior orgulho. É lindo, é lindo. Entre julho e agosto, ele floresce e aí é uma coisa incrível, porque as flores são amarelas, e fica aquele verde e amarelo escandaloso (risos). E a madeira tem aquele vermelho que enlouqueceu aqueles franceses.

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