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Cultura

Maxwell Alexandre retrata negros ricos e poderosos para atacar complexo de vira-lata

Suas obras têm atraído o mercado nos últimos anos e museus como a Pinacoteca e o Masp têm trabalhos dele em seus acervos

por FolhaPress

08/05/2021 - 09h35

O que Maxwell Alexandre, de 30 anos, quer levar para os museus na sua série "Pardo É Papel" é o "preto, marrento, ostentando, rico e poderoso". Nessas obras feitas com folhas de papel pardo, eles tomam conta de todo o espaço - que chega a ter mais de sete metros de largura - com seus cabelos platinados. E se graduam, dançam, pintam, ocupam tronos e saem de jatinho nessas cenas.

Mas antes de apresentar essas crônicas de bonança, o artista cerca o público numa outra cena em sua primeira individual em São Paulo, no Instituto Tomie Ohtake, que começa agora. Nela, só pessoas negras contemplam um longo quadro dourado e se relacionam com o cubo branco - e ninguém que visita a exposição escapa de contemplar essa imagem.

Os primeiros trabalhos que retratam museus e galerias, batizados "Novo Poder" e espécie de tema secundário dentro de "Pardo É Papel", foram feitos na sua primeira exibição da mostra que está no Tomie, em Lyon, na França. "O museu é esse lugar de afirmação e salvaguarda da memória, então, para mim, era importante estar morando no museu e fazer as primeiras obras de 'Novo Poder'", diz Maxwell Alexandre.

Essa é a quarta parada institucional da exposição, que foi pensada para ser itinerante pelo próprio artista, um dos nomes mais em evidência da nova geração de artistas brasileiros. Depois da França, a mostra passou pela Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, e o Museu de Arte do Rio, o MAR, no Rio de Janeiro.

"É curioso porque mais uma vez a história se repete, para reafirmar, talvez, essa síndrome de vira-lata que a gente tem. Nenhum museu abriu a porta para mim aqui. Precisei fazer o show fora, ter reconhecimento fora", afirma.

Suas obras têm atraído o mercado nos últimos anos, e museus como a Pinacoteca e o Masp têm trabalhos dele em seus acervos. Ainda neste ano, ele faz sua primeira individual em Paris, no Palais de Tokyo, e leva "Pardo É Papel" para Bienal da Tailândia. No ano que vem, terá uma mostra no The Shed, o espalhafatoso centro cultural que mudou a paisagem do Chelsea, em Nova York.

Mas quem viu primeiro essas obras que chegam ao Tomie, e que continuarão na itinerância, não estava num museu ou galeria. A primeira vez que o artista mostrou os papéis foi em 2018, na chamada Igreja do Reino da Arte, que fundou no bairro onde nasceu e vive, a Rocinha, pouco depois de começar a fazer autorretratos nessa superfície --e cujo nome, pardo, é usado também para designar cor no Brasil. Foi lá que se deu conta que a dimensão "faraônica" das peças tinha que estar nos museus e galerias, com seus pés-direitos altos.

E foi também na sua cidade natal, pelo menos até agora, que as obras ganharam ainda mais força com o público. Foi lá que a exposição recebeu uma performance dos rappers Baco Exu do Blues e BK.

"Isso era algo estratégico, sobre algo que me preocupava. Quando comecei a fazer parte do circuito de arte, eu estava preocupado porque, na minha pintura, o negro está como o centro, como protagonista. Só que o mundo da arte é branco. Era um constragimento saber que na minha exposição ia ter só eu de preto."

As apresentações e a performance "Descoloração Global", que trouxe cabelereiros para platinar cabelos dentro do museu, chamou o público. "Foi um dia preto no museu", afirma, sobre o resultado desse que foi um ponto alto da narrativa da série na avaliação do próprio artista.

As referências ao rap também são povoadas por nomes estrangeiros, como Tyler, The Creator e Jay-Z. Os versos do marido da Beyoncé, inclusive, indicam o caminho que Maxwell Alexandre quer seguir no mercado de arte. Em "The Story of O.J.", o rapper canta que comprou obras de arte por um milhão. Poucos anos depois, ela valia oito vezes isso, e ele canta que não pode esperar para dar as peças de presente a seus filhos.

"A última imagem do clipe de 'Apeshit' [clipe do casal gravado no Louvre] são eles na frente de um símbolo máximo da história da arte, que é a 'Mona Lisa'", diz. "Os caras estão entendendo que a parada é sobre capital simbólico."

Maxwell Alexandre, que é formado em design, diz que o artista plástico Kerry James Marshall, de 65 anos, foi sua primeira referência dentro das artes visuais --e isso fica explícito na sua série "Novo Poder". O pintor americano representa pessoas negras em sua tela em espaços de poder há anos. Na tela de 2018 "Underpainting", inclusive, o museu aparece tomado pelo público, com adultos e crianças, e como um espaço de aprendizagem.

"O que acontece de fato não importa, o que importa é o que é contado e como é contado, porque o que eu estou falando é sobre imagem. Você cria um imaginário para poder se imaginar e manter isso. O museu é o lugar onde você tem os agentes que vão legitimar essa história e do que é contado com prestígio", defende o artista.

O ouro da tela contemplada por seus personagens banha também seus outros trabalhos. É essa cor de realeza que tinge uma das maiores sequências de papel pardo --as folhas douradas, que acompanham a curva do próprio espaço expositivo, revelam o padrão ondulado da piscina capri, textura que sustenta as figuras negras suspensas nas suas outras telas.

"É um padrão que ressignifiquei e que fala de autoestima porque, na real, quando você olha para ele, você sabe que é um símbolo que vai designar a periferia. Você sabe que é a piscina de plástico, da laje, do pobre", ele explica.

Maxwell Alexandre também vai conduzir um tour pela exposição no Tomie Ohtake, gravado em vídeo, que ficará disponível a partir do dia 14 de maio no site do Instituto InclusArtiz. É uma possibilidade de ver as obras para quem não quer encarar uma ida ao museu e uma maneira de chegar a um público ainda maior.

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MAXWELL ALEXANDRE - PARDO É PAPEL

Quando: De 8/5 a 25/7. De ter. a dom.: 12h às 17h

Onde: Instituto Tomie Ohtake - Av. Faria Lima 201, Pinheiros, São Paulo

Preço: Gratuito

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