Bauru

Cultura

'Veneza' seria melhor com menos novela

A primeira ideia que surge bem clara na telona é a da prostituição como representação do ato amoroso

por FolhaPress

20/06/2021 - 05h00

Não faltam boas ideias a "Veneza". Talvez a primeira delas seja transpor "As Três Irmãs", de Tchecov, para um bordel interiorano. Ali, a velha Gringa (Carmen Maura), já cega e um tanto demente, alimenta o sonho de ir a Veneza para encontrar o único homem a quem amou e a quem não pôde seguir (para Veneza, justamente). A primeira ideia que surge bem clara na tela é a da prostituição como representação do ato amoroso. Portanto, de uma teatralidade do gestual amoroso recompensado pelo dinheiro. Isso fica mais claro porque é num bordel que as coisas se passam ou, como se dizia em outros tempos, numa "casa de tolerância".

O filme se abre com um primeiro plano fechado no rosto da Gringa, no auge de um melô à moda hispânica: "Eu já estou morta", ela berra, os olhos esbugalhados.

Esse começo hiperbólico não é lá muito feliz, diga-se, mas serve, em todo caso, para sintetizar a ideia da vida de terror. Um pouco dessa vida de horror da Gringa conheceremos por flashbacks. Regredimos ao momento em que ela, jovem, apaixona-se por um jovem italiano (e vice-versa), mas ela se impede de sonhar com uma vida em Veneza.

Sua vida pregressa, mais os problemas por que passam as garotas introduzem outro tema do filme: o amor pode existir como realidade ou permanece sempre como ilusão, como algo a que aspiramos?

De todo modo, aqui se verifica um choque entre as ideias excessivas que conduzem o filme e o naturalismo de certas interpretações. É quando "Veneza" esquece o voo poético dos melodramas mexicanos (impresso inclusive na cenografia barroca) para assumir a aparência de novela brasileira.

Isso é conjurado a partir do momento em que o pessoal do bordel (do qual faz parte também um homem, filho de uma prostituta - Eduardo Tornaghi) assiste a um espetáculo circense, em que somos confrontados com a imagem bem onírica de um circo interiorano e em seguida com a peça melodramática representada pelos atores circenses, em que se coloca justamente a questão da virtude e do vício (e, secundariamente, o da justiça e da injustiça).

A partir daí o filme assume inteiramente a melhor tradição argentina (a base é uma peça de Jorge Accame), ou seja, em que fantástico intervém fartamente. Nem por isso "Veneza" abandona o que tem de russo, hispânico ou brasileiro. E tudo existe para chegar a esse ponto, em que o centro é um lugar inatingível, mas cujo fundamento é uma onírica viagem a Veneza -é o ponto alto do melô, tanto em termos dramatúrgicos como de realização.

Talvez não seja ironia, no mais, este filme marcar uma passagem do cinema brasileiro de massa ao melodrama: o público que ia cinema para rir agora talvez já esteja mais disposto a chorar. Aquele que aspirava viajar, para Disneyworld agora deve se contentar em ficar nos limites de sua casa ou, se tanto, de seus sonhos. Como a Moscou de "As Três Irmãs", os canais (hoje nem tão mágicos) de Veneza, também: atualmente, mais vale imaginá-los enquanto se navega nas águas fétidas do Rio Tietê.

É justamente quando invade com força o território do onirismo (e, novamente, do teatro) que "Veneza" se revela, afinal, cruelmente realista. Um pouco menos de Rede Glodo e um tanto mais de Douglas Sirk ou Fassbinder fariam do filme de Miguel Falabella e Hsu Chien Hsin um trabalho a não esquecer facilmente, mas como ficou está longe de ser desprezível.

Ler matéria completa