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Cultura

Entenda como o botão de 'pular abertura' pode matar as vinhetas

Com a ascensão do streaming, a forma de consumir e de produzir séries vem sofrendo grandes mudanças

25/07/2021 - 05h00

Reprodução

"Mare of Easttown" é uma das que adotam o "title card" ao invés de vinhetas

"Mare of Easttown", da HBO, "Sweet Tooth", da Netflix, "O Conto da Aia", do Hulu, "The Underground Railroad", do Amazon Prime Video, "Falcão e o Soldado Invernal", do Disney . Essas séries todas têm pouca relação uma com a outra para além do fato de terem feito sucesso no streaming neste ano. Mas, ao analisar com mais atenção, logo se percebe outro ponto em comum - nenhuma delas tem créditos de abertura. 

Com a ascensão do streaming, a forma de consumir e de produzir séries mudou totalmente. Hoje, muito desse conteúdo não é interrompido por intervalos comerciais, é lançado de uma vez e maratonado pelo público e ainda tem, de brinde, um botão de "pular abertura" - função lançada pela Netflix em 2017 e já presente em qualquer plataforma.

Graças a isso, estamos vendo vinhetas cada vez mais curtas introduzindo episódios. Muitas delas nem vinhetas são - está em alta o uso de "title cards", algo como cartões de título, que é a simples exibição do nome de um programa. Seriam as aberturas uma forma de arte em extinção?

IMEDIATISMO

Segundo Patrick Clair, designer de vinhetas que vive em Sydney, na Austrália, não exatamente. Mas uma diminuição do catálogo de séries com aberturas, bem como mudanças no formato, são inevitáveis. Lidamos, afinal, com uma audiência cada vez mais impaciente e imediatista, com pouco tempo para se dedicar a longas introduções. "Nós estamos numa nova era, em que menos séries têm aberturas, e as que existem precisam ter algum tipo de relação direta com as tramas. Só um bom trabalho estético já não basta, porque nada consegue ser legal o suficiente para que alguém queira ver pela sexta vez", diz ele, por telefone.

Clair acredita que os "title cards", mais sucintos, "estão aqui para ficar". Ele trabalha no estúdio Antibody e, apesar da opinião, assina vinhetas longas e suntuosas como as de "The Crown" e "Westworld". Com "True Detective" e "O Homem do Castelo Alto", venceu dois prêmios Emmy de melhor design de abertura.

CRIATIVIDADE

Essa personalização das aberturas de acordo com a trama de cada episódio pode indicar o futuro dessa arte. É isso que defende Rogério Abreu, autor do livro "Design na TV: Pensando Vinheta". Ele foi responsável por criar a abertura do "Big Brother Brasil" e também as de programas como "A Grande Família", "O Beijo do Vampiro" e "Desalma". Para a segunda temporada desta última, aliás, o Globoplay estuda fazer várias vinhetas diferentes, cada uma para um capítulo da série. "O perfil do público mudou muito com o streaming. Não podemos continuar com o legado das aberturas da TV e do cinema, mas pensar num novo formato, mais criativo", diz.

RESISTEM

As vinhetas, ao que parece, ainda resistem. Abreu e Patrick Clair concordam que a tendência é que elas continuem ilustrando séries, em especial aquelas com um investimento financeiro maior, que visam prêmios e aclamação da crítica - até porque há uma questão contratual envolvida aí, já que alguns atores se recusam a participar de projetos que não exibam seus nomes com alarde no início dos episódios.

Mas, para não entediar o público mais novo, dado a maratonas, é preciso se reinventar. Ainda é cedo para saber se as emissoras e plataformas vão bancar essa mudança ou escolher o caminho menos custoso dos "title cards", dizem, mas a reinvenção será necessária caso as vinhetas não queiram encarar seus créditos finais.

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