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'Um Dia com Jerusa' vem com sabor de conquista histórica ao streaming

O roteiro se concentra no dia do aniversário de 77 anos da personagem-título, brilhantemente interpretada por Léa Garcia

por FolhaPress

26/07/2021 - 10h05

Reprodução

Léa Garcia é uma atriz brasileira indicada ao prêmio de melhor interpretação feminina no Festival de Cannes em 1957 por sua atuação no filme Orfeu Negro, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro

Até onde se sabe, o primeiro longa-metragem de ficção realizado por uma cineasta negra no Brasil é "Amor Maldito", de 1984, dirigido por Adélia Sampaio. Só três décadas mais tarde outros filmes de ficção assinados por mulheres negras ganharam distribuição comercial no País.

É o caso de "Café com Canela", de 2017, que Glenda Nicácio dirigiu lado de Ary Rosa. E agora de "Um Dia com Jerusa", de Viviane Ferreira, que estreia nesta segunda no catálogo da Netflix.

É uma conquista histórica. Não por acaso, a história está no centro do filme, realizado inicialmente como curta ("O Dia de Jerusa", 2014, exibido no Festival de Cannes) e refilmado em versão ampliada graças a um edital federal de 2016, que apoiou três longas de baixo orçamento de diretores negros --Ferreira foi a única mulher contemplada.

O roteiro se concentra no dia do aniversário de 77 anos da personagem-título, brilhantemente interpretada por Léa Garcia. Moradora do bairro paulistano do Bexiga, ela aguarda os familiares para um bolo quando recebe a visita inesperada de Sílvia, de Débora Marçal, que faz pesquisas de mercado.

O questionário dá ensejo a um mergulho no emaranhado de histórias coletivas ligadas ao percurso de Jerusa e seus antepassados e despontam lembranças da escravidão, das origens do Bexiga, de carnavais passados...

Jerusa conta que herdou o nome da avó, negra ladina que mantinha no braço a marca do brasão do antigo dono. Ao chegar à cidade vinda de um cafezal, a avó de Jerusa trabalhou como lavadeira às margens do Saracura, córrego atualmente canalizado.

Através de relatos e imagens do passado, bem como de fragmentos do presente das protagonistas em seus trajetos pela região central de São Paulo, a narrativa evoca situações de preconceito, violência policial, luto. Nem por isso amargor e melancolia dão o tom do filme.

O que sobressai é a elegância de Jerusa/Léa Garcia a enfeitar seu bolo de aniversário, o cuidado para abrir forminhas de brigadeiro, os gestos precisos com que arruma a mesa para as visitas. Com alegria, a personagem transmite as memórias de uma família que existiu e existe --algo nada óbvio num contexto em que predominam notícias de lares negros desfeitos, violência, injustiça, precariedade.

As fotografias guardadas no sobrado de Jerusa têm papel fundamental na narrativa. O talento com as lentes, passado de geração a geração, não só contribuiu para provar a existência dessa família negra de classe média mas para afirmar sua vocação artística. Como diz a professora do cursinho de Sílvia logo no início do filme, "ser mulher negra disposta a sonhar é o que há de mais subversivo neste país".

"Um Dia com Jerusa" é de fato o produto do encontro entre mulheres negras sonhadoras, maioria no elenco e na equipe técnica. Nascida em Salvador em 1985, Viviane Ferreira mudou-se para São Paulo aos 19 anos e estudou cinema e direito. Desde março, dirige a Spcine, empresa municipal de fomento ao desenvolvimento do audiovisual na capital paulista.

A carioca Léa Garcia integrou o Teatro Experimental do Negro, grupo idealizado por Abdias do Nascimento, e atuou em filmes emblemáticos, como "Orfeu Negro", de 1959, do francês Marcel Camus, e "Ganga Zumba", de 1963, de Cacá Diegues, em que sua personagem Cipriana é uma espécie de porta-voz da liberdade.

"Um Dia com Jerusa" pode ser visto como um grito de liberdade contra prisões estéticas, como a associação de personagens negros a trajetórias de tristeza e violência.

Quando Jerusa penteia o cabelo crespo de Sílvia, uma herança não consanguínea e imaterial está sendo transmitida. Esse legado envolve a grande família formada pela diretora e seu elenco, mas também por teóricos e poetas negros que povoam sutilmente o longa, como Luiz Gama, Lélia Gonzalez e Adélia Sampaio.

UM DIA COM JERUSA

Quando A partir desta segunda

Onde Netflix

Elenco Léa Garcia, Antonio Pitanga e Débora Marçal

Produção Brasil, 2020

Direção Viviane Ferreira

Avaliação Ótimo

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