Bauru

Cultura

Gurnah achou que ligação do Nobel era trote

Escritor premiado em 2021 é um dos autores pós-coloniais mais proeminentes do mundo

por Maria Fernanda Rodrigues

17/10/2021 - 05h00

Henry Nicholls/Reuters

Abdulrazak Gurnah em sua casa, em Canterbury

Abdulrazak Gurnah recebeu uma ligação cerca de 15 minutos antes de a Academia Sueca anunciar publicamente que ele era o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, e achou que era trote. Nascido na Tanzânia, em 1948, e refugiado no Reino Unido desde 1968, onde fez carreira como professor de literatura de inglês e literatura pós-colonial, o autor de dez romances, inéditos no Brasil, deu sua primeira entrevista enquanto assistia ao anúncio oficial. Ele falou ao repórter Adam Smith, do site da premiação, ainda sob o impacto da notícia. Confira trechos da conversa.

Como o senhor

recebeu a notícia?

Abdulrazak Gurnah - Eu achei que estavam pregando uma peça. Eu realmente pensei. Sabe, essas coisas geralmente ficam rondando por semanas antes, ou às vezes meses antes: quem são os concorrentes. Então, não estava no meu radar. Eu só pensava: quem será que vai ganhar dessa vez? Pedi para a pessoa me contar mais, e ele falava calmamente. Creio que no fim eu ainda estava pensando 'vou esperar até que eu veja ou ouça'.

O anúncio mencionava a maneira como o senhor lida com o 'destino dos refugiados' e o 'abismo entre culturas e continentes'. Obviamente, é um momento particular agora - estamos no meio de uma crise de refugiados.

O senhor pode dizer como vê as divisões entre as culturas? Existem muitas maneiras de caracterizar as coisas.

Abdulrazak Gurnah - Eu não vejo que essas divisões sejam permanentes ou de alguma forma intransponíveis, ou algo assim. As pessoas, é claro, estão se movendo em todo o mundo. Eu acho que esse fenômeno particular de pessoas da África vindo para a Europa é relativamente novo, mas é claro que o outro, de europeus fluindo para o mundo, não é nada novo. Vemos isso há séculos. Acho que a razão pela qual é tão difícil para a Europa, para muitas pessoas na Europa e para os estados europeus chegarem a um acordo sobre isso é, para encurtar a história, talvez uma espécie de avareza, como se não houvesse o suficiente para todos. Muitas dessas pessoas vêm por primeira necessidade, e, francamente, elas têm algo a dar. Não chegam de mãos vazias. Muitos são pessoas talentosas e com energia, e que têm algo a oferecer. Então, essa pode ser outra maneira de pensar sobre isso. Não estamos apenas recebendo as pessoas como se elas fossem pobres e insignificantes. Pense nisso como se estivéssemos socorrendo pessoas que estão precisando de ajuda, mas que também são pessoas que podem contribuir com algo.

Os cientistas tendem a descrever o trabalho deles como uma brincadeira, apenas como a alegria de explorar. É assim que você se sente quando escreve?

Abdulrazak Gurnah - Bem, sinto alegria quando eu termino! (risos). Mas, sim, muito disso é, obviamente, compulsivo, atraente e algo que os escritores continuam a fazer por décadas - e você não pode fazer isso se você odeia. É o prazer de fazer coisas, criar, acertar, mas também o prazer de transmitir, de dar prazer, apresentar um caso, persuadir, todos esses tipos de coisas.

Fora da lista

Inédito no Brasil, Gurnah, 73, professor recém-aposentado de Inglês e de Literatura Pós-colonial na Universidade de Kent e autor de romances e contos, não estava entre os cotados. Na lista, que às vezes se repete ano após ano, figuravam autores como o queniano Ngugi wa Thiong'o, o moçambicano Mia Couto, o japonês Haruki Murakami, a russa Ludmila Ulitskaya, o francês Michel Houellebecq, as canadenses Anne Carson e Margaret Atwood e as americanas Joyce Carol Oates e Joan Didion. Portugal esperava seu segundo Nobel - desta vez, para António Lobo Antunes. O primeiro foi para José Saramago. E o Brasil, que não tem nenhum escritor entre os premiados, viu circular nas redes sociais, nas últimas semanas, que ele seria destinado a um escritor antibolsonarista. O Nobel foi dado a Abdulrazak Gurnah, conforme dito no anúncio, por seu "irredutível e compassivo entendimento dos efeitos do colonialismo e o destino dos refugiados no abismo entre culturas e continentes". Presidente do Comitê do Nobel de Literatura, Anders Olsson se referiu ao tanzaniano como um dos escritores pós-coloniais mais proeminentes do mundo. "Seus personagens se encontram no abismo entre culturas, entre a vida deixada para trás e a vida por vir, confrontando o racismo e o preconceito, mas também se obrigando a silenciar a verdade ou reinventar uma biografia para evitar o conflito com a realidade", disse.

Paradise é sua obra mais famosa. Finalista do Booker Prize em 1994, o romance conta uma história de formação - do amadurecimento de um garoto tendo como pano de fundo uma África cada vez mais corrompida pelo colonialismo e pela violência durante a Primeira Guerra. Gurnah, cujo idioma original é o suaíli, escreve seus livros em inglês e já lançou, até agora, 10 romances. A estreia foi com Memory of Departure, em 1987. Na sequência, vieram Pilgrims Way (1988) e Dottie (1990). Essas três primeiras obras retratam a experiência do imigrante no Reino Unido sob diferentes perspectivas. Depois de Paradise, seu quarto livro, vieram Admiring Silence (1996), By the Sea (2001), Desertion (2005), The Last Gift (2011) e Gravel Heart (2017), além My Mother Lived on a Farm in Africa, coletânea de contos publicada em 2006. Seu romance mais recente, publicado em setembro de 2020 no Reino Unido, é Afterlives. Ele conta a história de um menino, Ilyas, que foi roubado de sua família por tropas coloniais alemãs. Depois de alguns anos, ao lutar em uma guerra contra seu próprio povo, ele volta para a sua vila. Nesse mesmo momento, outro jovem, que não foi roubado para ajudar na guerra, mas, sim, vendido durante o conflito, também retorna. O destino se encarregará de promover o encontro entre os dois. Desde a criação do Nobel, há 120 anos, já foram premiados 118 autores - dos quais apenas 16 mulheres. A poeta americana Louise Glüke venceu em 2020. E Gurnah é apenas o quarto autor negro e o sexto de origem africana a ganhar a mais importante premiação literária do mundo.

Ler matéria completa

×