Bauru

Cultura

Fora da lista

17/10/2021 - 05h00

Inédito no Brasil, Gurnah, 73, professor recém-aposentado de Inglês e de Literatura Pós-colonial na Universidade de Kent e autor de romances e contos, não estava entre os cotados. Na lista, que às vezes se repete ano após ano, figuravam autores como o queniano Ngugi wa Thiong'o, o moçambicano Mia Couto, o japonês Haruki Murakami, a russa Ludmila Ulitskaya, o francês Michel Houellebecq, as canadenses Anne Carson e Margaret Atwood e as americanas Joyce Carol Oates e Joan Didion. Portugal esperava seu segundo Nobel - desta vez, para António Lobo Antunes. O primeiro foi para José Saramago. E o Brasil, que não tem nenhum escritor entre os premiados, viu circular nas redes sociais, nas últimas semanas, que ele seria destinado a um escritor antibolsonarista. O Nobel foi dado a Abdulrazak Gurnah, conforme dito no anúncio, por seu "irredutível e compassivo entendimento dos efeitos do colonialismo e o destino dos refugiados no abismo entre culturas e continentes". Presidente do Comitê do Nobel de Literatura, Anders Olsson se referiu ao tanzaniano como um dos escritores pós-coloniais mais proeminentes do mundo. "Seus personagens se encontram no abismo entre culturas, entre a vida deixada para trás e a vida por vir, confrontando o racismo e o preconceito, mas também se obrigando a silenciar a verdade ou reinventar uma biografia para evitar o conflito com a realidade", disse.

Paradise é sua obra mais famosa. Finalista do Booker Prize em 1994, o romance conta uma história de formação - do amadurecimento de um garoto tendo como pano de fundo uma África cada vez mais corrompida pelo colonialismo e pela violência durante a Primeira Guerra. Gurnah, cujo idioma original é o suaíli, escreve seus livros em inglês e já lançou, até agora, 10 romances. A estreia foi com Memory of Departure, em 1987. Na sequência, vieram Pilgrims Way (1988) e Dottie (1990). Essas três primeiras obras retratam a experiência do imigrante no Reino Unido sob diferentes perspectivas. Depois de Paradise, seu quarto livro, vieram Admiring Silence (1996), By the Sea (2001), Desertion (2005), The Last Gift (2011) e Gravel Heart (2017), além My Mother Lived on a Farm in Africa, coletânea de contos publicada em 2006. Seu romance mais recente, publicado em setembro de 2020 no Reino Unido, é Afterlives. Ele conta a história de um menino, Ilyas, que foi roubado de sua família por tropas coloniais alemãs. Depois de alguns anos, ao lutar em uma guerra contra seu próprio povo, ele volta para a sua vila. Nesse mesmo momento, outro jovem, que não foi roubado para ajudar na guerra, mas, sim, vendido durante o conflito, também retorna. O destino se encarregará de promover o encontro entre os dois. Desde a criação do Nobel, há 120 anos, já foram premiados 118 autores - dos quais apenas 16 mulheres. A poeta americana Louise Glüke venceu em 2020. E Gurnah é apenas o quarto autor negro e o sexto de origem africana a ganhar a mais importante premiação literária do mundo.

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