Bauru

Cultura

Escritora Lya Luft morre aos 83 anos

Autora de mais de 30 livros, ela estava com câncer e chegou a ser internada nas últimas semanas em Porto Alegre

31/12/2021 - 05h00

Reprodução

Com frequência Lya Luft abordou dramas familiares e personagens que passavam por situações inquietantes

A escritora Lya Luft, autora de "As Parceiras" e "Perdas e Ganhos", morreu na madrugada desta quinta-feira (30), aos 83 anos, em sua casa em Porto Alegre. Ela estava com câncer e chegou a ser internada nas últimas semanas.

A informação foi confirmada pela editora Record, que publica seus livros.

Nascida na cidade gaúcha de Santa Cruz do Sul em 1938, Luft se formou em pedagogia e letras na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, emendando, após a formatura, trabalhos como tradutora de obras em inglês e alemão. Entre os autores que trouxe para o português estão Virginia Woolf, Rainer Maria Rilke, Doris Lessing e Thomas Mann.

O primeiro de seus mais de 30 livros foi "Canções de Limiar", que reuniu uma série de poemas e foi publicado em 1964. Nos anos 1970, ela lançou "Flauta Doce" e "Matéria do Cotidiano". Seu primeiro sucesso viria em 1980, com "As Parceiras", romance que trazia uma narradora feminina falando sobre as relações de loucura, morte e tragédia que envolvem uma família.

Na sequência veio "A Asa Esquerda do Anjo", de 1981, que ecoava o passado da autora. No livro, acompanhamos uma menina criada com rigidez por uma família alemã, que se sente obrigada a viver de acordo com as expectativas da avó, a matriarca, embora queira ser como qualquer outra criança. Como inspiração, ela tem a figura da mãe, uma forasteira que entra em choque com aquele mundo germânico ao qual não pertence.

Daí até seu grande best-seller, Luft escreveu ainda "O Quarto Fechado", "Exílio", "O Lado Fatal", "O Rio do Meio" e "Mar de Dentro". Até que, em 2003, lançou "Perdas e Ganhos", que vendeu quase um milhão de cópias e ficou 113 semanas no topo das listas de mais vendidos do país. A obra é uma mistura de ensaio e memória, e versa sobre amadurecimento e amargura a partir de uma perspectiva pessoal e sensível.

Com frequência Luft abordou dramas familiares e personagens que passavam por situações inquietantes em sua obra, sempre se destacando por trazer uma leitura feminina a essas narrativas.

Em 2001, Luft recebeu o prêmio União Latina de melhor tradução técnica e científica, pela obra "Lete: Arte e crítica do esquecimento", de Harald Weinrich. Em 2013, recebeu o Prêmio da Academia Brasileira de Letras (ABL), na categoria Ficção, Romance, Teatro e Conto, pela obra "O tigre na sombra".

Ela deixa o marido, o engenheiro Vicente de Britto Pereira, dois filhos, além netos e netas. O corpo da escritora será velado em cerimônia restrita à família, e depois cremado. As datas e horários não foram informados até o fechamento desta edição.

'Amor é mais importante que a morte'

Em junho do ano passado, a escritora Lya Luf contou ao jornal Folha de S.Paulo que estava arrependida de ter votado em Jair Bolsonaro. "Te confesso que votei e me arrependi.  Na ocasião, Luft lançava seu novo livro "As Coisas Humanas", composto por crônicas sobre afetos e o luto pela morte do filho. "Em última análise, escrevi, talvez, para mostrar que o amor é mais importante do que a morte", diz. "Meu editor recentemente escreveu que existe o 'gênero Lya Luft'", afirma no texto em que se apresenta, "frente a frente". Boa parte dos textos rememora o filho André, morto aos 51 anos, em 2017, depois de uma parada cardiorrespiratória. A escritora ainda falou sobre a pandemia do coronavírus, que ainda estava no início. "É como se o globo terrestre estivesse coberto por uma nuvem escura, meio pegajosa, se arrastando por cima de tudo. É quase incompreensível que Ásia, Europa e Brasil estejam passando pela mesma coisa [ao mesmo tempo]. Parece um grande animal, com tudo parado", disse. 

'Lya Luft deixa legado de reflexão', diz Luciano Huck

Autora de mais de 30 livros, Lya Luft também era conhecida pelo trabalho como tradutora. Entre os autores que trouxe para o português estão Virginia Woolf, Rainer Maria Rilke, Doris Lessing e Thomas Mann.

Políticos, escritores e famosos lamentam a morte da escritora nas redes sociais. Para o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), a despedida "abre uma lacuna difícil de ser preenchida". Para o vice-governador gaúcho, Ranolfo Vieira Júnior (PSDB), "Lya Luft marcou sua geração e deixa um legado para todas as outras".

A deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) exaltou Luft como "uma das maiores expressões da literatura brasileira. Uma das mais importantes tradutoras da língua inglesa" na mesma rede social. Já o apresentador Luciano Huck afirmou que "Lya Luft deixa um legado de reflexão, sabedoria e elegância".

Sônia Machado Jardim, presidente do Grupo Editorial Record, lamentou a morte em comunicado à imprensa: "Lya era escritora de uma sensibilidade enorme. Suas palavras sempre impactavam seus leitores, trazendo reflexões e sabedoria."

Ler matéria completa

×