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Série sobre os bastidores de 'O Poderoso Chefão' é ofuscada pelo brilho dos longas

Cada um deles tem pelo menos duas horas e 40 minutos, sendo que o mais longo, o segundo, chega a três horas e 22 minutos

por FolhaPress

30/04/2022 - 11h39

Reprodução/Twitter

Poderoso Chefão

Nunca vi uma lista de melhores filmes de todos os tempos em que a primeira obra-prima de Francis Ford Coppola, "O Poderoso Chefão", de 1972, não estivesse entre os primeiros títulos. E bem perto dele, algumas vezes até antes do original, invariavelmente está "O Poderoso Chefão 2", lançado dois anos depois.

Dezesseis anos depois da continuação foi lançado "O Poderoso Chefão 3", que recentemente teve uma versão reeditada pelo diretor. Esse raramente aparece nessas listas, o que é assunto de muito debate entre os cinéfilos.

Cada um deles tem pelo menos duas horas e 40 minutos, sendo que o mais longo, o segundo, chega a três horas e 22 minutos. São uma saga, contam uma história complexa, e são imperdíveis para qualquer pessoa que tenha curiosidade de conhecer o cinema.

Agora, a Paramount, o mesmo estúdio que quase não permitiu que o primeiro filme fosse feito -depois tentou substituir o ator principal, Al Pacino, no meio do caminho, ameaçou demitir o diretor e corroteirista e infernizou a produção de todas as maneiras-, lança uma série em seu canal de streaming, a Paramount+, "The Offer", contando essa outra saga.

Os três primeiros episódios já estão no ar, e os sete seguintes entram sempre às sextas-feiras. Só que sem Marlon Brando, Al Pacino, Robert De Niro, Diane Keaton ou Robert Duvall. Muito menos um livro de Mario Puzo como a base da história, nem um roteiro escrito a quatro mãos por ele e por Coppola, que também não assina a direção.

A grande estrela é o ator Miles Teller, revelado em "Whiplash", de 2014, e que está interessante aqui. Ele é produtor e protagonista da série, interpretando o também produtor Albert S. Ruddy, um cara que saiu do mundo da programação de computadores para Hollywood e lutou para que "O Poderoso Chefão" fosse feito como Coppola queria.

O nome de Ruddy está no poster oficial, foi ele que subiu ao palco quando o filme ganhou o Oscar mais importante de 1973. Na ocasião, o longa ganhou outros dois prêmios. Um para Mario Puzo e Coppola pelo roteiro adaptado. Outro, para Marlon Brando, que não foi à cerimônia. Em vez disso, mandou a atriz e ativista Sacheen Littlefeather recusar o prêmio em seu nome, como forma de protestar pela falta de índios americanos em Hollywood.

Mas ele não tem uma personalidade lá tão cativante. É um cara bonitão, ambicioso, que passou por vários perrengues, enfrentou os executivos do estúdio, a máfia -que queria acabar com o filme para proteger a imagem dos ítalo-americanos- e até Frank Sinatra, que não gostou nada do personagem do livro semibaseado em sua vida.

Ruddy namorava a dona do lendário hotel Chateau Marmont nessa época, então até tem umas cenas de sexo e tal. Mas estrela mesmo, ele não é.

Talvez tivesse sido mais interessante centrar o enredo no chefe da Paramount à época, Robert Evans, interpretado pelo ótimo ator inglês Matthew Goode, de "Downton Abbey", esse sim uma personalidade "maior que a vida".

Evans, aliás, já foi tema de um documentário incrível, "O Show Não Pode Parar", de 2002, baseado na autobiografia dele, que tinha o mesmo nome e foi lançada em 1994.

Evans foi o primeiro ator a dirigir um estúdio. Era bonito, charmoso, festeiro e insolente. Viveu intensamente os anos 1960 e 1970, mas no começo dos 1980 foi preso por porte de cocaína, perdeu o emprego e caiu no ostracismo.

Mas antes disso foi o responsável por fazer a Paramount renascer, depois de um longo período de fracassos, com a sequência de títulos que começou com "O Bebê de Rosemary", de 1968, seguiu com "Love Story", de 1970, e culminou com "O Poderoso Chefão".

Nos anos 1990, Evans foi recontratado pela Paramount. O último filme de sua gestão foi a vexatória comédia romântica "Como Perder um Homem em Dez Dias", de 2003. Morreu em 2019.

Quanto a "The Offer", para voltar ao assunto desta resenha, não é que seja ruim nem nada. Mas se você tem dez horas livres, quer preenchê-las com um produto audiovisual e prefere que a trama seja contada da melhor forma possível, vale mais a pena ver ou rever os três filmes originais.

THE OFFER

Avaliação Bom

EUA, 2022. Criação: Michael Tolkin e Leslie Greif. Com: Miles Teller, Matthew Goode e Dan Fogler. Disponível na Paramount+. Novos episódios às sextas

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